VIVER, PARA QUE? – uma perspectiva cinematográfica

Algumas reflexões sobre as mensagens contidas em três grandes animações que emocionam e dialogam com diferentes gerações

Por Lucas Schrouth

O cinema, de uma forma geral, democratizou o acesso a um tipo de arte que carrega consigo outras, como a música e a literatura. Como não lembrar das filas gigantescas para assistir um novo capítulo de Stars Wars ou num momento mais recente, as explosões de emoções nas salas de cinema que exibiam Vingadores Ultimato – um filme bem feito (o conjunto formado por roteiro, atuação, trilha sonora, fotografia) tem esse poder sobre nós, de nos encantar enquanto encaramos a vida detalhadamente em terceira pessoa.

Mas aqui trato de outro estilo de filme, este que cresceu e logo ganhou seu espaço – os filmes de animação. Evidentemente que a Walt Disney se tornou uma notória protagonista deste tipo de produção, e muito bem que tenha sido, pois trouxe outras marcas e iniciativas para este caminho. Primeiramente voltado ao público infantil, as animações – primeiro em desenho, depois digitais – ganharam um espaço absurdo no desenvolvimento de toda uma geração.

Aqui trataremos de 3 animações digitais contemporâneas – a Pixar na última década tem tido uma linha a fim de tocar aspectos humanos mais universais, mas antes é bom destacar que todo filme contém uma história (Lucas, isso é ÓBVIO!!!!). O que quero dizer com isso é que, como na literatura, ali no cinema estão sendo representadas situações reais – destas situações é que podemos identificar certos elementos da essência humana, mesmo que representadas de forma fantástica.

O imaginário, o fantástico, os símbolos, o maravilhoso mundo que pode ser alimentado dentro da própria mente, é algo que encanta ao nos depararmos com bons universos e histórias.

Quando levamos aquilo apresentado na vida imaginativa para aspectos próprios da vida prática é que entendemos como nós e eles nos representam magicamente – como fábulas, vamos extrair alguma moral.

Procurando Nemo (2003 – Pixar)

Um clássico que marcou gerações e que sem dúvidas tem muito a nos ensinar. Sua trama vai além da superficialidade de um pai solo. Como nos outros dois filmes que iremos falar, Procurando Nemo de início já nos apresenta uma tragédia que corta o tom de júbilo de um casal prestes a ter seus peixinhos. Marlin e Coral, o casal contente e esperançoso que ali, num vislumbre de sua prole, conversam sobre os nomes de seus filhos – esta é a ponte.

Juntos à sua ninhada, o casal se vê ameaçado por uma barracuda. Instintivamente Coral corre para proteger os seus. Marlin acorda, tempo depois de ter ficado inconsciente e encontra somente um, um único filhinho seu restante, Nemo. A partir daí temos a demonstração de um pai superprotetor, mas que apesar de tudo só queria o melhor para seu filho – e uma aventura se desenrola a partir do momento que Nemo rompe com a “bolha de proteção” de seu pai.

1ª Lição, Proteger os que ama:

Isto significa ir além da proteção imediata, mas também a promoção do bem estar. Evidentemente que não é possível controlar todos os fatores externos que podem infligir aos que nós amamos, se não podemos controlá-los, podemos pelo menos não promovê-los. 

2ª Lição, Confiança:

Acima da proteção absoluta – que vem com uma busca por controle total – deve estar a confiança nas potências alheias. A proteção exagerada pode ocasionar numa limitação mesmo que não proposital, cortar as asas do outro com medo dele cair do voo. Exortar com amor, ensinar com cordialidade, deixar trilhar o próprio caminho e erguer a mão caso precise, isto é confiar.

UP! Altas Aventuras (2009 – Pixar)

Trilha sonora que gruda na mente e que transita bem nas situações trazidas no filme, UP! traz uma história de sonhadores. Carl Fredericksen é apresentado como um jovem tímido e calado, mas sonhador como Ellie – estes se encontram por um acaso e se unem por um belo gosto em comum – a paixão pela aventura. Eles sonham em conhecer e estabelecer-se no “Paraíso das Cachoeiras” – lugar que sempre sonharam em ir – vivem um casamento feliz, mas pelas exigências práticas da vida vão deixando seu sonho cada vez mais de lado.

Ambos terminam seu casamento de forma unida e amorosa. Carl entra numa viuvez solitária e rotineira. Após um conflito físico, Carl vê sua casa ameaçada e decide tomar uma decisão para preservá-la (e também um modo de manter a imagem da Ellie viva), com isso ele decide partir numa aventura – LEVAR SUA CASA POR MEIO DE BALÕES ATÉ O PARAÍSO DAS CACHOEIRAS. Russel, um jovem explorador, embarca de forma acidental nesta aventura, e o que se decorre é a história.

1ª Lição, Não se esquecer de sonhar:

Os sonhos são importantes no traçar de nossos caminhos, pois nos elevam a um sentimento positivo que é o de êxtase imaginativo. Como diz a música entoada por Elis “Viver é melhor que sonhar”, o sonho é essencial na visão do que se quer – além do planejamento frio e matemático – mas levantar-se é a primeira ação para concretizar.

2ª Lição, Coragem:

A impulsividade é a coragem acompanhada de insensatez. Aqui tratemos a coragem como o instinto de ser – de ser a si próprio, tornar-se audacioso ao ponto de acreditar em si. Assim é tomar as rédeas da condução da vida; para isso é preciso tomar uma boa dose de coragem real – a partir daí, no sucesso, ser grato pelos outros e no fracasso é refletir sobre a própria responsabilidade.

Soul (2020 – Pixar)

Joe é um músico frustrado e professor em descrédito. Este é o início da narrativa de Soul. Um rapaz não tão jovem, mas que ainda não alcançou o que almeja devido às necessidades práticas da vida, que lhe levaram a um caminho ‘garantido’, mas não satisfatório. Sempre em busca de concretizar seu sonho de ser um musicista profissional atuando com o que ama, ele se vê diante de uma situação ideal para isso.

SPOILER: Sua morte repentina e acidental lhe dá um choque profundo, e ele parte para um universo pré-vida, onde todos os que futuramente nascerão são ali preparados. Como mentor de uma jovem alma difícil, o 22, que complica muito a vida de Joe na tarefa de lhe ajudar a encontrar sua vocação – como diz Dr. House: quase morrer não muda nada, morrer muda tudo.

1ª Lição, Se fazer presente:

Eu sei o que quero e como fazer, ninguém crê em mim – SENTENÇA DE FRACASSO – mas é claro que não!; se faça presente na própria vida, se imponha firmemente. Joe foi sempre desacreditado por sua mãe e num momento crítico do filme ele decide ser quem quis sempre ser – decrete o seu sucesso.

2ª Lição, Sentir a vida detalhadamente:

Normalmente é preciso um choque, algo disruptivo, por vezes amargurante para nos levar a valorizar as pequenas coisas. Sentir a vida detalhadamente não é entrar numa paranoia de culto a todo pôr do Sol, mas a gratidão e a vontade sincera de viver de forma concreta – ir além da superficialidade do prazer imediato, da auto-angústia constante.

Uma lição de RECOMEÇO

Essa é a principal lição de todos os três filmes – 2021 é a representação do começo pós fim e de um início de um começo. É preciso coragem para começar, mas principalmente pra levantar e recomeçar após uma derrota.

Se você deixar nada acontecer com ele, aí nada vai acontecer com ele.

Procurando Nemo

A aventura, está lá fora.

UP! Altas Aventuras

A vida está prestes a começar.

Soul

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