Hacker working on computer cyber crime

Violência, racismo e pornografia: As invasões de hackers em videochamadas

Cada vez mais comuns no mundo todo, ocorrem sob o objetivo de interromper diálogos sobre pautas sociais e perturbar participantes.

Por Juliane Cruz

No último sábado, participei de uma videoconferência organizada por um projeto social. Passados 30 minutos de conversa sobre os riscos da veiculação de notícias falsas e como reconhecê-las, começamos a ouvir gritos.

Nos primeiros segundos, pensei que uma mulher sendo agredida em casa havia ligado o microfone para pedir socorro. Outras pessoas que estavam participando da chamada tiveram essa impressão também. Mas, na verdade, se tratava de um ataque virtual.

Já em desespero, pensando em como agir diante de uma situação de violência doméstica, desbloqueei a tela do celular – antes bloqueada porque estava realizando outros afazeres enquanto ouvia a conversa. Foi então que me deparei com imagens pornográficas sendo exibidas na tela.

Se seguiram mais segundos de desespero, enquanto outras/os participantes e eu tentávamos encontrar alguma forma de denunciar o perfil que compartilhava a tela e removê-lo da chamada. Depois de cerca de um minuto, a pessoa que estava hospedando a chamada conseguiu expulsar o invasor. Ficamos em choque, mesmo porque sabíamos que havia uma mãe assistindo à chamada perto de suas filhas, duas crianças.

Por sorte, a mãe conseguiu sair da chamada antes que suas filhas fossem expostas àquelas imagens. Foi um ponto de alívio diante do desespero que sentimos naquele momento.

Para todas as pessoas presentes, aquela foi a primeira vez em que isso aconteceu em uma videochamada. No entanto, os casos de invasão de hackers em videoconferências têm se tornado cada vez mais frequentes no mundo todo, fazendo até mesmo o FBI emitir alertas.

Invasão em videochamadas: Por que acontecem?

Diante do distanciamento social, medida de prevenção à covid-19, as plataformas de videoconferência ganharam maior espaço no cotidiano de boa parte da população. Como alternativa para reuniões de trabalho, aulas, palestras, dates e até festas de casamento, antes principalmente presenciais, a demanda de chamadas de vídeo/áudio disparou no mundo todo. Só o Google Meet, por exemplo, começou a ganhar milhões de usuários por dia desde que tudo começou.

Junto da alta demanda de uso, houve aumento do registro de chamadas invadidas por usuários mal intencionados. Uma matéria da BBC News Brasil relata 7 casos de invasões de hackers em videochamadas no Brasil, cinco delas ocorridas só nas duas primeiras semanas de junho. As chamadas invadidas tinham como temas: a pandemia de coronavírus, divulgação científica, negritude, racismo e pautas de um centro acadêmico.

Um dos casos contados pela matéria da BBC News Brasil ocorreu em um debate universitário sobre negritude com professores da Universidade Federal da Bahia, interrompido por imagens de teor racista. Segundo uma das organizadoras, a reunião foi suspensa após inúmeras tentativas de retirar os invasores da chamada, que festejaram a decisão aos gritos de “mito, mito” – em referência ao presidente Jair Bolsonaro.

Com xingamentos e imagens de violência física, de teor racista, nazista, entre outros, essas invasões ocorrem, na maioria dos casos, sob o objetivo de causar perturbação e interromper diálogos sobre pautas que os invasores são contrários.

Em muitos casos, os hackers filmam ou capturam o conteúdo da tela para posteriormente divulgar o feito em suas redes. Tratam-se de grupos de trolls – pessoas que realizam “zoeiras” sádicas, chegando até a cometer crimes online, para compartilhar entre si depois. Apesar disso, a possibilidade de levarem à exposição de informações dos usuários não é descartada. 

Outro caso ocorreu em uma reunião virtual que discutia estratégias de combate ao racismo com mais de 70 convidados/as, a maioria mulheres. A conversa foi interrompida por imagens de cabeças sendo cortadas, um homem se masturbando, ameaças de morte a mulheres e a figura de uma suástica. Boa parte das pessoas que participavam havia se inscrito previamente por meio de um formulário, assim como no caso da videoconferência em que participei.

No entanto, com o objetivo de tornar o debate mais amplo, o link para ambas as chamadas foi divulgado em uma rede social (em modo público) poucos minutos antes de começar. Nos dois casos, acredita-se que essa foi a porta de entrada para os hackers. 

Como evitar a invasão de hackers?

Em entrevista à matéria da BBC News Brasil, Renato Opice Blum, especialista em crimes digitais e representante legal da plataforma Zoom no Brasil, afirma que:

Normalmente, essas invasões acontecem porque as pessoas divulgam o canal de acesso, o link. É como deixar as portas de casa abertas”, diz. E completa: “Mas não é porque deixou a porta de casa aberta que você é responsável por um eventual ataque à sua casa.

Segundo uma matéria do portal Tecmundo, invasões de chamada não fazem parte de um elaborado esquema de hackers ou de uma vulnerabilidade nas plataformas de videoconferência – a porta principal de entrada são, de fato, os links.

As recomendações de segurança feitas pelo FBI foram as seguintes:

  • Não tornar públicas as salas de suas videoconferências, mesmo que sejam papos casuais entre amigos;
  • Pedir uma senha ou aprovação prévia de cada participante;
  • Não compartilhar o endereço da chamada em redes sociais: divulgar o endereço em sistemas e grupos fechados ou individualmente;
  • Permitir que apenas a/o anfitriã/o da conversa compartilhe o conteúdo da sua tela com as demais pessoas;
  • Garantir que todos/as os/as participantes das chamadas tenham o aplicativo de videoconferência atualizado.

O que fazer se acontecer uma invasão?

Se você for a pessoa que criou a videochamada, expulse o perfil invasor o mais rápido que puder. Em geral, você consegue encontrar essa opção clicando no campo que te dá informações e ações a executar com o contato (menu). Se for possível, registre o ocorrido em uma captura ou gravação da tela que mostre o nome e/ou e-mail do/a invasor/a.

Você pode denunciar para a plataforma de videoconferência e realizar uma denúncia através do site do Ministério Público Federal (selecione em tipo de manifestação a opção “representação”) ou buscar a Delegacia de Polícia Civil de sua cidade para registrar um boletim de ocorrência. Para receber orientação de como denunciar crimes na internet (em geral), você pode procurar o canal de ajuda da SaferNet.

Além disso, caso veja algum vídeo desse e/ou de outros tipos de violação disponível publicamente em uma página na internet, você pode acessar o site da SaferNet Brasil, que recebe denúncias de violações de Direitos Humanos. Basta denunciar o endereço da página (link) no formulário disponível em www.denuncie.org.br. 

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