Verão e pandemia: um guia para não esquecer da prevenção

Verão, férias escolares, vontade de estar na rua e encontrar os amigos. No entanto, a pandemia continua e é preciso tomar alguns cuidados quando sair, e mesmo antes de combinar saídas. Nessa matéria, em formato de perguntas e respostas, você confere dicas de especialistas para aproveitar o calor da estação e não ser roteador de coronavírus

Por Juliana Passos – EPSJV/Fiocruz

Sol, calor, praia, parques, reuniões entre amigos, bar, férias escolares e mais calor. Difícil ficar em casa, quando tudo conspira a favor de estar na rua. O balde de água fria, ou de água quente nesse calor, é uma pandemia que ainda não acabou, impondo a necessidade do uso de máscaras e de se evitar aglomerações, ainda que a vacinação seja grande aliada, especialmente contra casos graves. Mas nem tudo está perdido. Os especialistas ouvidos por esta reportagem dizem que é possível manter uma vida social ativa, desde que sejam tomados alguns cuidados. E o primeiro deles é prestar a atenção no cenário da doença na sua região, uma condição inicial para planejar saídas.

Nesta matéria preparamos algumas dicas em formato de perguntas e respostas para você aproveitar o verão, sem desistir de se precaver contra a infecção e transmissão do novo coronavírus. Mas antes de sair por aí, é importante prestar atenção na evolução dos casos, algo que pode ser um pouco confuso em meio a tantas informações. Por isso, também apresentamos os dados aos quais você deve ter atenção para saber qual a situação de risco na sua região. O problema, como você verá, é que também há gargalos de informações.

Como saber se minha cidade está com baixa taxa de transmissão?

A recomendação é que se preste atenção na evolução do número de casos e na taxa de ocupação dos leitos de hospital, diz a pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Bianca Borges. “Nesse caso, o importante é perceber se esse tipo de notificação está crescendo ou diminuindo. O número absoluto não é tão significativo”, explica. Ela aponta o dado das hospitalizações como o mais confiável. “Esse dado é bem preenchido e funciona como um bom indicador sentinela, tanto que ele é monitorado assim desde o início da pandemia”, diz. A informação sobre a quantidade de hospitalizações é o principal indicador utilizado para a classificação das bandeiras de risco, mas estados e municípios adotam classificações um pouco diferentes, explica Borges.

Em julho de 2020, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) elaborou uma recomendação de indicadores para os gestores públicos. Nessa proposta, a classificação tem cinco níveis de risco: muito baixo (verde), baixo (amarelo), moderado (laranja), alto (vermelho) e muito alto (roxo). O índice é construído a partir de pontuação de indicadores de capacidade de atendimento (número de leitos ocupados e previsão de esgotamento de leitos de UTI – Unidade de Terapia Intensiva) e epidemiológicos (número de óbitos, número de casos de síndrome respiratório aguda grave – SRAG – e taxa de casos positivos para Covid-19). Para todas as classificações o Conass recomenda os cuidados de distanciamento físico, com reforço a partir da classificação amarela – em que eventos que gerem aglomeração devem ser evitados –, e ampliação das medidas de distanciamento na classificação laranja – com a proibição de eventos que gerem aglomeração. Na classificação vermelha, apenas serviços essenciais devem funcionar. Mesmo com as orientações do Conass, estados e municípios puderam adotar parâmetros diferentes. A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, adota uma classificação em quatro níveis (baixo, moderado, alto e muito alto) e considera apenas taxa de ocupação de hospitais e número de óbitos.

A pesquisadora da EPSJV/Fiocruz indica as plataformas Monitora Covid-19 da Fiocruz e do Ministério da Saúde para o acompanhamento da evolução da doença e comenta que os principais dados chegam das redes estaduais. O MS disponibilizou recentemente uma plataforma para consulta por município, mas para a sanitarista, só aqueles de maior porte vão ter a capacidade de coletar e disponibilizar dados de qualidade e atualizados. Esse é o caso da cidade do Rio de Janeiro, que oferece um detalhamento até por bairro, subsídio importante para pautar as demandas locais por acesso à saúde. Mas fique atento: Borges explica que bairros com mais notificação de casos não necessariamente estão em maior risco, ou seja, essa informação pode significar apenas que neles estão sendo realizados mais testes.

Mas eu não preciso saber sobre os casos brandos?

Sim, mas mapear os casos brandos é um desafio por vários motivos. O primeiro é consequência de uma boa causa: a efetividade das vacinas fez com que as pessoas com casos leves procurassem menos as unidades de saúde. Outra questão apontada pelo coordenador do monitor InfoGripe e pesquisador da Fiocruz, Marcelo Gomes, é a demora no processamento dos dados diante da quantidade enorme de notificações, principalmente nos estados mais populosos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma boa notícia, de acordo com o coordenador do InfoGripe, foi o aumento da quantidade de testes antígeno, que são muito mais precisos do que os sorológicos que foram muito utilizados no início da pandemia, e cujo resultado sai muito mais rápido do que o PCR, o que ajuda a diminuir a defasagem entre o informe do caso e a sua tabulação.

Um indicador auxiliar é o de síndrome gripal. Borges explica que esse dado era monitorado apenas em alguns espaços, mas com a chegada da Covid-19, passou a ser uma informação que todas as instituições de saúde, públicas ou privadas, precisam comunicar. “Quando os índices estão baixos, essa comunicação é um pouco deixada de lado, mas ela é importante. Foi esse indicador que permitiu informar a existência de uma nova síndrome de Influenza”, diz. Apesar de funcionar como um alerta epidemiológico para equipes de saúde, o monitoramento de casos brandos no Brasil, funciona bem apenas quando há um grande número de casos. “Aí ele deixa de ser um indicador sentinela”, explica Borges.

No boletim epidemiológico divulgado dia 13 de dezembro pelo Observatório Covid-19 e InfoGripe, ambos da Fiocruz, os pesquisadores exemplificam a dificuldade na obtenção de dados com o registro de uma alta abrupta dos casos no Espírito Santo e Acre. Em um momento de baixa dos casos, o entendimento é de que se trate de defasagem na notificação dos dados. O boletim se refere às semanas epidemiológicas (SE) 47 e 48, que correspondem ao período de 21 de novembro a 4 de dezembro, e informam que o problema vinha sendo identificado há dez semanas. “Os sistemas de informação vêm apresentando problemas na coleta, digitalização e disponibilização de registros de casos e de óbitos. As falhas se refletem na divulgação de registros, ora muito abaixo do esperado, ora de aumento abrupto no número divulgado de casos de Covid-19, como observado desde a SE 37. A irregularidade do fluxo de notificação de casos e óbitos prejudica o acompanhamento da pandemia e a avaliação dos possíveis impactos de medidas de flexibilização, que vêm sendo adotadas em alguns estados e municípios”, avaliam. E concluem: “Para assegurar o transcurso do verão em condições seguras, é essencial o aperfeiçoamento de sistemas de informação, bem como a análise e divulgação oportuna de tendências e condições de risco”.

E o dado sobre a cobertura vacinal, é importante? Posso confiar no percentual de vacinados divulgado pela prefeitura?

No final de 2021, prefeituras de grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, comemoraram as altas taxas de vacinação. Ainda que essa seja uma notícia bastante positiva, é preciso ter cautela. “Ele é um indicador importante em termos de risco de novos casos graves, mas para transmissão em si não é”, diz Marcelo Gomes, explicando que o fato de as crianças não estarem vacinadas é um dos nós da qualidade desse dado. “Isso é que faz com que o percentual de vacinados da população adulta simplesmente não seja um bom indicador de proteção coletiva”, comenta.

Outra questão é saber onde mora parte das pessoas que se vacinaram nessas cidades com altos índices de imunização. Isso porque os dados individuais cadastrados no SUS estão bastante desatualizados em relação ao município de residência e, além disso, há muita mobilidade entre as regiões. “É muito comum os trabalhadores se vacinarem no município de trabalho, não no município de residência, justamente por conta do horário em que os postos de saúde ficam abertos. Isso acaba inflacionando o total de vacinados no município que recebe esses trabalhadores de cidades vizinhas e diminuindo a quantidade de vacinados nos municípios de residência”, explica Gomes. Bianca Borges lembra que é preciso considerar ainda a quantidade de visitantes que as cidades turísticas, como o Rio de Janeiro, recebem.

Existem testes rápidos confiáveis? Em quais situações devo optar por um PCR?

Bianca Borges explica que o teste PCR, o mais detalhado e demorado, só é efetivo a partir do terceiro dia da apresentação de sintomas. No entanto, como sabemos, os assintomáticos têm um grande papel na disseminação da Covid-19. A sanitarista confirma a existência de testes rápidos confiáveis, em especial aqueles que medem antígenos, enquanto os sorológicos são pouco efetivos. Ela pondera que nenhum teste confere certeza de 100%, ainda que um bom teste rápido de antígeno consiga chegar a 95% de precisão. “Esta é uma boa medida para amparar a decisão das pessoas mais expostas em realizar alguns encontros”, diz. A cartilha elaborada pela Fiocruz e lançada no final de 2021 recomenda a realização de testes de dois a três dias antes para quem for viajar.

Com que máscara eu vou?

Infelizmente não existe número ‘cabalístico’ para medir aglomerações. Essa é uma questão que depende de fatores como distanciamento entre as pessoas, ventilação do ambiente e uso de máscaras, ou seja, precisa ser avaliada caso a caso. Tendo em mente que não existe risco zero, quanto melhor a qualidade da sua máscara, maior o distanciamento e mais ventilado for o ambiente, menor o risco. As máscaras PFF2 ou equivalentes são as mais seguras. Considerando, no entanto, que elas podem ser mais incômodas no calor, o pesquisador do Observatório do Clima e Saúde da Fiocruz Diego Xavier diz que é possível pensar em máscaras mais leves (preferencialmente cirúrgicas de duas camadas) para espaços abertos e usar as de maior proteção (N95, PFF2 e KN95) em locais com mais pessoas e menos ventilação, como cinemas, shoppings e supermercados. “A situação de pior risco está nos locais sem circulação de ar, como em ambientes climatizados por ar-condicionado, com muita gente e sem uso de máscara”, diz Xavier.

É seguro sair se for ao ar livre?

Se para os adultos já é difícil o cumprimento dos protocolos, sair com crianças para a praça ou parque pode ser uma tarefa ainda mais árdua. Para esses casos, a recomendação é manter encontros com a mesma rede de famílias. “O ideal é que se tenha até três núcleos de familiares, sendo cada núcleo composto por pessoas que vivem numa mesma casa”, informa Marcelo Gomes. Ao fazer essa recomendação, a preocupação dos pesquisadores é dupla: tanto evitar infecções quanto facilitar o rastreamento (e consequente isolamento) posterior, caso a transmissão acabe acontecendo. As idas à praia foram apontadas pelos especialistas como as de menor risco, por contarem com brisa do mar e a presença do sol, que contribui para esterilização do ambiente. Mas por ser um ambiente em que o uso de máscara é pouco efetivo por conta do suor e umidade, é importante é garantir o distanciamento de dois metros entre os núcleos familiares que não estão no arranjo feito por você.

Bares e restaurantes ao ar livre também podem ser uma boa opção de diversão. Uma vez que não será possível usar máscaras para comer e beber, a recomendação é que esses encontros se deem dentro da combinação dos núcleos familiares ou com pessoas que você saiba que estão tomando o máximo possível de medidas de proteção. A distância de dois metros entre as mesas também não pode ser esquecida. Agora, se esses espaços, mesmo ao ar livre, não puderem oferecer uma distância de dois metros entre os grupos familiares, a recomendação de Diego Xavier é direta: “Não vá”.

Posso realizar reuniões e encontros em casa?

O pesquisador da Fiocruz Eduardo Volotão, atualmente assessor do Conselho Diretor do Instituto de Investigaciones Biológicas Clemente Estable (IIBCE) para o tema Covid-19, em Montevidéu, no Uruguai, reforça que as trocas de ar são fundamentais para diminuir o risco de exposição.

Por isso, se for se reunir em casa, manter portas, janelas abertas e usar ventiladores são medidas importantes para manter uma constante renovação do ar, ainda que o calor dessa época do ano possa tornar essa medida um pouco incômoda.

Além de evitar grandes grupos, o ideal é confraternizar com quem está adotando as medidas de proteção. “Há um problema da falsa sensação de segurança com pessoas conhecidas e já observamos que as festas familiares podem ser grandes vetores do vírus”, alerta o pesquisador.

Qual o risco de ir ao cinema?

Ainda que a recomendação seja dar preferência a espaços ao ar livre, curtir um filme pode ser uma opção de lazer mesmo sendo um espaço fechado e mal ventilado, como são os ambientes com ar-condicionado em geral. Os requisitos nesse caso, de acordo com Gomes, é que haja limitação da venda de ingressos e se utilize uma máscara com alta capacidade de filtração, do tipo PFF2 ou equivalentes. A cobrança do passaporte vacinal por parte das salas também tem um papel importante. “Por mais que o principal objetivo da vacina seja evitar casos graves, ela também tem um impacto, embora menor, na diminuição do risco de transmissão”, diz.

Preciso evitar o abraço?

Depende. Marcelo Gomes diz que o ideal é priorizar os cumprimentos com os cotovelos e “soquinhos”, mas os abraços com máscara oferecem um risco médio. Já o cumprimento com o beijo no rosto traz um risco alto, porque aproxima muito a área de respiração entre as pessoas. Antes de ser acusado de querer abolir o beijo na boca em pleno verão, Marcelo Gomes pondera. “Não é que eu não possa fazer, a questão é com quem, em que ambiente, em que contexto e com que frequência. Não preciso abolir completamente, mas devo mudar meu comportamento em relação a todo mundo”. E reforça: “Se eu estou com grandes grupos, é preferível evitar o beijo e o abraço”, completa.

Meus deslocamentos são todos em transporte coletivo. Como posso diminuir os riscos?

Como lugar fechado e comumente lotado, o transporte público é um grande gargalo de transmissão. Mas se for possível utilizá-lo fora dos horários de pico, em que se possa manter distanciamento, haja ventilação e com uso de máscaras de maior proteção (PFF2, N95 e similares), o coordenador do InfoGripe avalia que o risco de infecção e, consequentemente, de transmissão, é pequeno.

Que cuidados devo tomar nas viagens de longa distância?

Os aviões possuem um sistema de filtragem eficiente que permite que viagens curtas sejam feitas em maior segurança, no entanto, há o tempo de espera nos saguões. Os especialistas ouvidos pela reportagem também ressaltam que as companhias aéreas precisam fiscalizar o cumprimento dos protocolos. Já as viagens de ônibus são mais arriscadas, devido ao sistema de ar condicionado, e diferente dos ônibus urbanos, na maioria das vezes não apresentam a opção das janelas abertas. Para aumentar os cuidados, algumas possibilidades são o isolamento inicial e a realização de testes de antígeno, que não necessitam de apresentação de sintomas para serem feitos. Marcelo Gomes recomenda que, se não for feito o isolamento inicial, a própria família redobre os cuidados e fique em isolamento nos 14 dias seguintes à viagem. Eduardo Volotão comenta que é difícil falar em tempo de viagem curta ou longa, e entende que a capacidade de transmissão dentro do ônibus de viagem está mais condicionada à distância entre as cadeiras de alguém potencialmente contaminado e o tipo de máscara utilizado. Em outras palavras, viajar nesse momento é uma atividade de alto risco, que precisa ser feita com moderação.

Alexandra_Koch / Pixabay

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *