Universidade: desafios e possibilidades quando se é negro e pobre

Impressões sobre como a experiência de ser preto e estar na universidade pública não é universal e sobre como é urgente a luta por equidade.

Por Thaís Domingos

A universidade, além de território onde produz-se conhecimento científico, é o lugar onde muitos jovens espelham e almejam as possibilidades de seu futuro. Entretanto, é necessário analisar com lentes de aumento a realidade brasileira quando se trata do acesso e permanência da juventude negra no ensino superior.

Devido a organização e mobilização do movimento negro brasileiro, as ações afirmativas possuem um papel fundamental no que diz respeito à entrada de jovens negros nas universidades públicas. Ações afirmativas buscam de modo geral reparar desigualdades, sendo essas econômicas, raciais e educacionais. Porém, lacunas ainda persistem para que essa reparação, infelizmente, ainda não ocorra de modo efetivo.

Segundo dados do IBGE ( Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2018, 25,2 % dos jovens brasileiros estavam cursando ou já haviam concluído o ensino superior, contudo, apenas 18,3% eram negros.

Além da disparidade racial evidenciada nos números entre quem frequenta a universidade, no espaço acadêmico ainda faz-se presente o epistemicídio, que é definido pela filósofa Sueli Carneiro como:

A negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade, pela imposição do embranquecimento cultural e pela produção do fracasso e evasão escolar. (CARNEIRO, 2005).

O epistemicídio é diligente nas instituições de ensino superior, que em sua maioria, não oferta nas matrizes curriculares dos cursos a temática étnico racial ou bibliografias convencionadas a partir do pensamento de intelectuais negros e indígenas.

Esse apagamento em relação aos saberes de povos não-brancos, resulta em prejuízos, tanto no campo da construção de nossas subjetividades na academia, sendo estudantes e formuladores de pensamento crítico, como também em nossa saúde mental. A baixa autoestima intelectual pode se apresentar como um resultado nocivo no ambiente acadêmico, pois baseia-se no sentimento de inferioridade e incapacidade diante das demandas, prazos, conteúdos e discussões apresentadas na universidade.

Somando-se a essas questões, é incômodo também a falta de perspectiva em ambientes elitistas sendo negro e pobre. A sensação de não-pertencimento em um espaço branco e elitizado é recorrente e desanimadora.

Por isso, é importante a aproximação em espaços de acolhimento, como os coletivos negros na universidade, os NEABI’S (Núcleo de Estudos e Pesquisas Afrobrasileiros e Indígenas) onde são produzidas pesquisas e debates com a temática étnico racial. Além disso, é importante o estabelecimento de redes de afeto, onde se possa compartilhar experiências e receber apoio.

De fato, no contexto do atual cenário que estamos vivendo, muitos jovens estão enxergando com ainda mais dificuldade não só o ingresso na universidade, como também a permanência.

Problemas como falta de acesso à métodos de estudo, ausência de ferramentas digitais e precariedade no acesso à internet, além da saúde mental fragilizada pelo período de quarentena, são apenas alguns dos inúmeros empecilhos para jovens vestibulandos e também para os universitários no período de pandemia.

Embora persistam tais percalços, a produção intelectual negra surge como uma maneira de enfrentamento às referências eurocêntricas da academia. Você, jovem negro (a) universitário, não tenha medo de buscar outras referências além das discursadas na academia. Questione. Pesquise sobre intelectuais negros e outras visões plurais de mundo e assim empreteça suas pesquisas e o modo de enxergar a realidade para além dos muros da universidade.

É necessário também dizer que este artigo não é uma defesa da academia como único caminho possível para nós, negros (as). Entretanto, parte de experiências individuais e impressões sobre como a experiência de ser preto e estar na universidade não é universal, o que também não nos isenta do racismo institucional.

Logo, sabendo que a universidade pública e de qualidade é um direito de todos, é necessário que nos organizemos em busca de mais equidade.

Ilustração destaque: Arthur Aleixo / Reprodução Jornal do Campus/USP.

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