Uma em cada quatro adolescentes foi vítima de violência em relacionamento

Estudo da Organização Mundial de Saúde indica que violência de gênero é endêmica em todo o mundo e começa cedo na vida das mulheres

Por Silvana Salles

Uma em cada três mulheres no mundo já foi vítima de violência física ou sexual cometida por um homem. O número, por si só, já é assustador, mas o quadro é ainda mais preocupante quando se considera quando a violência começa: quase uma em cada quatro meninas de 15 a 19 anos já sofreu violência dentro de um relacionamento.

Os dados são de um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgado nesta terça-feira (9). Para chegar aos números, a equipe de pesquisadores revisou quase duas décadas de pesquisas e dados dos sistemas de saúde de diversos países, no maior levantamento sobre violência contra a mulher já realizado pela OMS.

Na apresentação dos dados aos jornalistas, lideranças da OMS destacaram que a violência contra a mulher é um problema que afeta profundamente a saúde e o bem-estar de mulheres, crianças e famílias, e gera impactos sociais e econômicos negativos para os países e sociedades. Outras pesquisas também apontam que a exposição à violência de gênero ainda na infância ou adolescência aumenta a chance de uma pessoa se tornar agressor ou de estar em um relacionamento abusivo na vida adulta.

Para Lynnmarie Sardinha, pesquisadora do Conselho de Pesquisa Econômica e Social (ESRC, na sigla em inglês) do Reino Unido e líder técnica do estudo da OMS, o fato de a violência de gênero começar ainda na adolescência mostra que existe uma urgência no fomento de intervenções nas escolas e comunidades. “Eu acho que prevenir desde cedo é algo de que necessitamos”, disse ela.

O combate e prevenção à violência contra a mulher é uma das metas fundamentais do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, que diz respeito à igualdade de gênero. “A violência contra a mulher é a forma mais difundida e persistente de violação de direitos humanos. Ela não é processada e é comum em todas as partes do mundo. Sabemos por meio desse relatório e de outras experiências que o desequilíbrio de poder tem um papel chave na sobrevivência desse tipo de violência”, disse Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora da agência ONU Mulheres e subsecretária geral das Nações Unidas.

Phumzile e outras lideranças destacaram a necessidade de que os governos sigam investindo esforços em políticas públicas, medidas de prevenção e atendimento social e jurídico às vítimas de violência, bem como em programas nas escolas e leis que criminalizem a violência de gênero.

A violência tem várias formas

Há vários tipos de violência contra a mulher, que vão desde abusos psicológicos até feminicídio e tráfico de pessoas. Porém, a pesquisa da OMS considerou apenas dois. O primeiro tipo consiste nos abusos físicos, psicológicos e sexuais cometidos por um marido ou um homem com quem a mulher tem um relacionamento íntimo. O segundo é a violência sexual cometida por um agressor com quem a vítima não se relaciona de forma íntima. Neste segundo caso, o homem agressor pode ser um familiar, um amigo, um conhecido ou um estranho.

A forma mais prevalente de violência contra a mulher é a violência dentro dos relacionamentos. Cerca de 641 milhões de mulheres relatam já ter sido vítimas desse tipo de violência. Globalmente, o número representa 27% das mulheres.

A prevalência do problema varia de região para região. Na Europa ocidental, a prevalência é de 21%. Nas Américas, é 25%. Já em algumas regiões do Pacífico, até metade das mulheres é vítima de violência. Os números também mudam conforme o PIB. No conjunto de países menos desenvolvidos, a prevalência é de 37%.

Claudia García-Moreno, coordenadora da pesquisa, diz que os dados chamam a atenção para o caráter endêmico do problema. “Os números são chocantes, até mesmo para nós. Não nos surpreendem, mas ainda nos chocam”, afirmou. Apesar disso, ela considera que o fato de mais países registrarem ocorrências atualmente, na comparação com décadas anteriores, já é uma boa notícia. “Reconhecer o problema é geralmente o primeiro passo para a ação e o diálogo no nível das políticas públicas e com a sociedade”, disse a coordenadora do projeto.

Claudia também lembrou que, embora os dados do estudo sejam de um período anterior à pandemia de covid-19, sabe-se houve um aumento na incidência de denúncias de violência doméstica durante as quarentenas, particularmente nos casos de mulheres que já estavam em relacionamentos abusivos anteriormente, e que os impactos sociais e econômicos da pandemia são fatores de risco para a violência doméstica. Ela alerta, porém, que ainda não é possível tirar conclusões com as informações disponíveis.

“Nós temos todas as condições para um risco aumentado, assim como, ao mesmo tempo, uma restrição na disponibilidade de serviços sociais. Os números que temos agora são de lugares bem específicos e mais e mais está sendo publicado a respeito. Mas o verdadeiro impacto na prevalência só poderá ser determinado mais para frente, quando começarmos um novo levantamento populacional desse tipo”, disse ela. 

O levantamento anterior da OMS sobre violência contra a mulher data de 2013 e apresentava dados referentes a 2010. O estudo divulgado hoje usa uma metodologia de pesquisa diferente e cobre praticamente o dobro de países. Por isso, não é possível comparar os resultados dos dois estudos.

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