Um país de abandonados

A cada ano, 6% das crianças nascidas no Brasil são registradas sem o nome do pai na certidão

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

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Segunda, dia 25 de outubro de 2021. Estar naquele lugar me deixava meio apreensiva, porque todo mundo ali andava com pressa e com um olhar de superioridade. Mesmo assim, junto com a minha mãe e o meu irmão, o que poderia dar errado?

Fui ao Aeroporto Santos Dumont, na cidade do Rio, para tirar o meu passaporte, visto que não poderia emiti-lo na Baixada. Depois de meia-hora esperando, entrei na Delegacia de Imigração e estava feliz, porque esse documento vai me permitir viajar ao exterior para estudar.

Minha felicidade se quebrou quando a atendente me perguntou onde estava a presença do meu pai ou a sua assinatura no documento de autorização.

Naquele momento, eu fiquei em choque. Disse que ele não estava ali porque não sou nada próxima dele, afinal: por que eu seria após passar por violência doméstica? A atendente me disse que não poderia fazer nada: eu só voltaria ali com ele, com a assinatura autenticada ou a autorização de um juiz.

As memórias das apresentações dos dias dos pais sem sentido, cenas de violência e choros em família me preencheram inesperadamente. Saí daquele lugar em prantos, sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.

Há anos minha mãe toma todas as decisões possíveis da minha vida, como matrícula de escola, vacinação, o que vou comer hoje e amanhã, se continuarei dormindo na mesma cama sob a luz que ela paga. Dona Regina cria eu e meu irmão mais novo muito bem sem o seu problemático ex-marido, obrigada. Ela sempre correu comigo para o hospital durante crises de asma ou quando eu queria ir à alguma tarde de autógrafos.

Pra tudo, quem diz sim ou não é ela, e naquele momento do aeroporto, eu precisava da presença do cara que causou a maior parte dos problemas que tenho (e não preciso expor isso aqui, né?).

Até 2021, fiquei sete anos sem ver o meu pai. Teve seus seríssimos problemas, e acho que é a primeira vez que falo disso tão abertamente: ele foi, por muito tempo, dependente químico. Por isso e por outras mil problemáticas que se repetem nos lares brasileiros, quando eu era pequena (mas nem tanto), minha mãe conseguiu a nossa guarda e, então, se separou.

Desde aquilo, ele nunca procurou ajudar. Nunca. Aqueles que conhecem dona Regina de perto sabem a luta que é, né? E eu não estou mentindo. Não me viu fundar a Ini.se.ativa, passar no processo seletivo da EPSJV/Fiocruz, tampouco compareceu à minha formatura do quinto ano do ensino fundamental. Mas naquele momento na Delegacia, eu precisava da assinatura dele, que nunca fez questão de nada.

Considero este texto um tanto corajoso, porque estou falando de uma das coisas mais íntimas da minha vida e pois acho que é perfeitamente normal não gostar de algum dos nossos pais. Certa vez, conversando com minha queridíssima amiga Beatriz Diniz, vi que essa ideia de amor eterno, pelo menos pra mim, é balela.

Muitas vezes me disseram para ajudá-lo a se recuperar, o que de certa forma tenho vontade, sim, até porque eu estudo segurança pública e sei como problemas como o dele precisam de atenção! Mas… o argumento é falho.

Ajude-o, até porque ele é seu pai.

Será? Não é ingratidão, querido leitor, mas sim dor. E é perfeitamente normal sentir dor: vou cair sempre nesse papinho de perdoar com base na bondade? (ps: esse é um longo papo, muito difícil para a sociedade que vivemos)

Enfim, com a ajuda do meu irmão mais velho, liguei para a atual companheira de Roberto e ela me deixou falar com ele, foi bem gentil. Expliquei a situação e no dia seguinte lá estava nós dois no cartório da minha cidade.

De novo, repeti a razão da assinatura dele, e que era melhor ele não ir. Ele me disse que minha mãe não sabe superar águas passadas e que o que já passou, já passou, mas então o contei que quem não queria que os dois se encontrassem novamente fui eu.

Ela não quer encontrar o agressor dela, nem eu quero presenciar isso.

Ele me perguntou sobre a minha vida, errou minha idade; está com um problema que não o deixa escrever tão bem, aí eu o ajudei. Autenticamos o documento, paguei, e quando saímos ele tirou a máscara. Discutimos sobre aquilo de forma bem pacífica, mas o deixei falando sozinho. Até eu chegar no trabalho de minha mãe para ela ir autenticar a assinatura dela comigo, ele me disse que não poupo sinceridade.

Quero o bem dele, realmente quero. Porém, quando ele foi embora, fiquei chorando na rua antes de encontrar minha mãe. Como podia ele ter dito no caminho da feirinha da Pavuna que ajudou duas vezes (dois envios de dinheiro pequenos através do meu irmão em sete anos), mas que tinha feito ‘a parte dele’?

Depois acabei indo ao cartório com minha mãe, mas ainda com raiva. Passei o dia pensativa, mas a terça terminou menos pior graças ao Engajamundo (a reunião foi muito boa!).

Na quarta, (estou escrevendo este texto numa quinta), eu e mamãe acordamos super cedo. Tomamos banho e embarcamos no ônibus e no metrô cheio. Ela rezou com o meu irmão mais novo várias e várias vezes, torcendo para que tudo desse certo. Deu, mas quase não deu.

Na minha identidade, consta o nome de casada de dona Regina, mas em sua identidade atual está seu nome de solteira. Se ela não tivesse levado, por puro instinto, a certidão de separação, eu teria que voltar pela terceira vez ao lugar que abriga pessoas insuportáveis que é o aeroporto. Quando saímos da Delegacia, dessa vez, abracei minha mãe.

Esse texto passa por várias coisas, né? Eu sei. É confuso até pra mim. Mas eu acho importante falar disso, dessas coisas abertamente, porque fica tudo tão fechado que a gente acha que essas histórias não se repetem, quando são a coisa mais normal do mundo.

Neste ano que nem acabou, quase 100 mil crianças não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Estima-se que 5,5 milhões de crianças tenham apenas o nome da mãe na certidão, mas quantos são aqueles que possuem o nome de um pai que parece mais uma incógnita?

Minha mãe ouviu que “a Polícia Federal tem mais é que pedir a assinatura dele mesmo”. Se fosse quando ela tinha 17 anos, o que ela faria, visto que seu pai sabe se lá onde se meteu? Claro, tem que pedir, mas como que não existe um protocolo para casos como esse? E se meu pai tivesse sumido, o que eu faria? Esperaria o juiz aparecer após um mês pra dizer que não aceitaria a emissão do meu passaporte?

Ver o meu pai contra a minha vontade me deixou, até agora, bolada, pistola, infeliz. Meses antes de completar 18 anos, precisei encará-lo para que ele autorize alguma coisa em minha vida, coisa que o mesmo só fez porque a burocracia daquele lugar que o obrigou, assim como me fez encontrá-lo.

Logo logo, pegarei o meu passaporte e mal posso esperar pelo dia da viagem, mas também pelo momento em que verei um país com pais bem resolvidos, filhos criados em ambientes saudáveis, de assistência e sem masculinidades tóxicas. Um Brasil no qual histórias como a minha e de tantas outras pessoas não tenham que se repetir, em que o familiar pai seja motivo de acolhimento ao invés de dor.


Oioi! Eu e minha amiga Marcela Marcondes estamos realizando uma rifa para comparecer ao HMUN, o modelo diplomático de Harvard. Gostaria de ajudar? Corre em @vitoriardeo ou @marcelamrcs no Instagram 🙂

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