Um mapa cultural para todo o território e todas as idades

Cultura e socialização de crianças e jovens na pandemia em São Paulo

Iniciativas da periferia, interior e capital de São Paulo que batalham para manter a cultura e atividades lúdicas de todos os gêneros durante o período de pandemia.

Por Lucas das Neves Costa*

A história da cultura no Brasil (como em outros aspectos da nossa história) sempre foi hegemonicamente considerada como patrimônio das classes dominantes majoritariamente brancas, residente nas grandes capitais. As expressões, rituais, artes, entre outras formas de cultura vindas das populações negras, indígenas e pobres, moradoras das regiões periféricas, sempre foi visto como crime ou com desprezo dentro desta leitura historiográfica dominante. Ao mesmo tempo em que a cultura hegemônica também é de difícil acesso, muitas vezes até negada,  para as populações periféricas.

Essa hegemonia cultural narcísica, neste caso específico a paulista, só enxerga como belo aquilo que é seu espelho, em sua imagem e semelhança.

A pandemia de COVID-19 colocou mais uma dificuldade para o homem (e todas as pessoas periféricas) na estrada em busca da sua finalidade e liberdade, parafraseando os Racionais Mc’s. Com orçamentos já enxutos mesmo com acesso a Lei Aldir Blanc, fechamento de eventos para evitar aglomerações são um dos obstáculos. Porém as pessoas na estrada persistem e resistem!

Diversas iniciativas voltadas para crianças e jovens se mantém de forma online e inclusive influenciando diversas outras ações autônomas dos próprios jovens para manter sua socialização ainda ativa, mesmo com o distanciamento. Estas iniciativas mantêm vivas suas, já existentes, formas de (re)existência e merecem ser conhecidas por mais pessoas.

Este guia conta a história de uma pequena, mas importante,  parcela de trabalhos que fazem parte da movimentação cultural de São Paulo, mesmo que não estejam no mapa dos principais guias culturais. Conheça iniciativas da periferia, interior e capital de São Paulo que batalham para manter a cultura e atividades lúdicas de todos os gêneros durante o período de pandemia.

Grupo Atuará

O grupo Atuará é uma escola de cursos livres relacionados ao teatro, que está ativa desde 2018, cujo público alvo são crianças e jovens. O projeto é composto por três professoras, Tábata Makowski, que nos cedeu a entrevista, Caroline Ungaro e Victória Camargo. Além dessas colaboradoras, o Grupo Atuará antes da pandemia chamava profissionais da arte ligados à dramaturgia para ajudarem em diversos cursos livres.

 “A gente tem interesse em manter esses cursos mais específicos”, diz Tabata. ”Nossas turmas começaram em 2018 e tivemos  dois anos de fortalecimento como um curso de teatro. O ano de 2020 foi um baque para todo mundo, então veio a necessidade de adiar os planos”, sobre o impacto pandêmico nas atividades do grupo. “Claro que quando começou a pandemia ninguém estava preparado para isso, todos os ramos se assustaram e com a gente não foi diferente. A princípio pensamos ’teatro online? ‘Impossível né? Quem vai dar aula de teatro online?!’, porém não era uma escolha, era a ferramenta que nós tínhamos.”

Sobre a possível dificuldade para gerenciar uma peça online, Tabata acrescenta, “a gente tem que imaginar o que a gente consegue utilizando o Zoom e que seja tão legal quanto o presencial. Pode ser diferente, mas a qualidade e a ‘legalzisse’ tem que ser igual ”. O desconhecido de abandonar as salas de teatro e ter que abraçar abruptamente os aplicativos digitais, logo se tornou mais uma ferramenta dentro do processo criativo, quando em janeiro deste ano, as professoras  testaram a possibilidade de aulas presenciais dentro de novos protocolos.

A necessidade do fechamento das aulas não foi tão traumática quanto no início, tendo inclusive os alunos já acostumados com o modo online ensinando os novatos com esse formato de aula.

Em muitos momentos, a participação nas peças também deixa de ser exclusiva às crianças e jovens e envolve os responsáveis, já que como a própria Tabata afirma: “eu acho difícil dizer que eles não participam depois de 2020, onde a gente deu aula dentro da casa deles!”.

Sobre a importância do teatro, mesmo que online, para as crianças e jovens Tabata afirma: “o teatro online assim como presencial, continua auxiliando a entrar em contato com suas ideias, seus sentimentos e expressa-los”. Auxiliando, inclusive, os próprios responsáveis adultos que acompanham as aulas, como foi contado a história de um fotógrafo,  pai de uma aluna que pode ver um pouco de esperança e inspiração assistindo uma das peças.

 Porém, ainda existem algumas dificuldades nesse experimento online, acrescenta Tabata, “a internet não é estável na casa de todo mundo”, o que pode frustrar alguns dos participantes, mesmo o curso sendo pago e com alunos que têm uma certa estabilidade financeira.

No entanto, as experiências vêm sendo positivas no geral, quando indagada sobre se o teatro teria funções pedagógicas respondeu: “A gente acredita que o teatro tem funções importantíssimas para quem vai seguir ou não carreira artística. Por exemplo, o teatro trabalha a consciência corporal. Essa consciência corporal auxilia o como ‘estar’ em cena ou na vida e o falar em cena ou na vida”. Sem contar a importância da experiência coletiva, seja com a plateia ou com os colegas atores.

Mãe da Rua

Ativo desde 2014, definitivamente o Grupo Mãe da Rua tem uma história tão dinâmica quanto suas apresentações. O grupo iniciou no CDC Vento Leste (Cidade Patriarca) atuando e auto gerindo o espaço em conjunto com outros artistas e depois passaram a atuar como um grupo de rua.  Mães da Rua é um grupo de teatro popular com temática feminista construido por mulheres de várias regiões de São Paulo.

As intervenções artísticas iniciais aconteciam em conjunto com protestos de rua, mas logo depois passou a serem feitas apresentações de rua em diversos locais da cidade . Com um caráter Brechtiano, ou melhor, feminista-brechtiano como a própria Mária Gabriéla que nos concedeu entrevista afirma de forma subversiva e potente.

“Até hoje a gente está fazendo teatro de rua nas praças públicas e em centros culturais públicos. Sempre com essa ideia de ser acessível para a maior parte da população e que ninguém precise pagar um ingresso para entrar, pensando uma ideia de arte pública: uma arte que está sendo feita pela classe trabalhadora e que não seja somente para um público que está acostumado ao teatro mas para um público que está desacostumado. Essa é a surpresa ‘estou passando na rua e tem um teatro aqui’”.

As peças são sempre livres para todos os públicos e com temática que reivindica uma reflexão crítica do cotidiano ao mesmo tempo mesclando a cultura popular. “A parte principal deste teatro é o público. A gente tá pensando, o tempo todo, se aquilo que a gente tá pensando está chegando, se está atravessando. Então é cheio de referências da cultura popular, é cheio de inspirações do rap, do funk, e da nossa cultura brasileira”.

No entanto, o grupo está atento para que não reproduza nenhum tipo de opressão que possa fazer parte da cultura popular. “A gente percebe que na cultura popular tem muito machismo também, então é essa a brincadeira né, como a gente faz comicidade sem rir de quem está sendo oprimido… Mas tirando um sarro do patrão! É essa a brincadeira… fazer essa transgressão com as nossas tradições. Cultura popular não é um deus ‘Calma aí quem pode tocar esse atabaque, todo mundo pode tocar esse atabaque.’Essa brincadeira, que não deixa de ser transgressiva mas que não deixa de ser uma brincadeira quando você tá na rua fazendo teatro também. Claro que por trás de toda brincadeira tem uma malandragem nossa, nós não fazemos de inocência, né.”

O nome Mãe da Rua, inclusive, é referência a uma brincadeira das nossas culturas populares. “Tem bastante [nas apresentações] brincadeiras de rua, porque o nome de Mãe da Rua vem da brincadeira […]  que é: uma pessoa fica no meio da rua [a mãe da rua] e o restante do grupo fica atravessando de uma calçada para outra. A brincadeira termina quando a mãe da rua encosta em todos os passantes, os transformando em mães da rua”.

Sendo uma manifestação artística em espaço público, o teatro de rua envolve não apenas os atores, mas também todos e tudo que completa o espaço urbano. As pessoas, querendo ou não, são magnetizadas a olharem aquilo fora do comum do cotidiano nas cidades. Fica bem evidente o papel pedagógico do teatro de rua como a Mária afirma:

“O teatro é educativo, principalmente o de rua, é um teatro que está aberto ao diálogo. Que está tentando provocar este diálogo. Não tem como dizer que um teatro é neutro, ele tem que estar sempre engajado em uma questão política. Seja ela de esquerda ou de direita, reproduzindo machismo/rascismo ou indo contra isso. Então não tem como dizer que algo é neutro. Estamos totalmente vinculadas ao processo educativo, porque a gente provoca encontro, a gente dialoga e temos um conteúdo a ser anunciado e interpretado. Além disso, eu acho que o Mãe Da Rua tem uma outra questão educativa que é enxergar o corpo de uma mulher, em um espaço público se expressando livremente (dançando, cantando, falando coisas, tocando cavaquinho, tocando pandeiro, tocando atabaque). Então a imagem que o Mãe Da Rua provoca em uma praça pública também educa em questão de gênero. A gente pensa em questões de classe, raça e gênero totalmente vinculadas.” 

O público magnetizado pelo Mãe Da Rua não tem restrição, porém a energia de atração chama bastante atenção feminina, muitas vezes, de jovens que estão tendo o primeiro contato com questões de gênero. “Tem outras questões do que suscita nas mulheres, do que elas vem contar depois do quanto isso as emociona, o quanto é importante.

Toda apresentação traz consigo algum acontecimento e intervenção marcante do público, incluindo o público infantil. “A gente fez uma apresentação em Guaranésia, e ficaram duas crianças para tirar foto com a gente. Elas ficaram muito felizes sabe?(risos) … parecia que a gente era atriz de cinema E elas todas  perguntando: ‘posso abraçar? posso tirar foto?’ E é muito legal porque você vê essa possibilidade do teatro que não tem faixa etária e que por mais que esteja vinculado às questões das mulheres atravessa os homens também. Cada apresentação tem alguma coisa que acontece”.

No entanto, a pandemia, dificultou um pouco esse processo de troca das apresentações artísticas de rua, dando como uma possível opção o meio online – apesar de ser supostamente aberto para o mundo, pode tornar o processo restrito apenas aos contatos próximos como explica Mária: “Muda tudo porque é como se  a gente estivesse vivendo um luto no teatro de rua, né? Quem está fazendo teatro neste momento, está fazendo uma ‘quase roda’ de teatro de rua. Porque assim, você fazer uma coisa na internet, vai acabar pescando quem você já tem um vínculo. A roda na rua é pro mundo, quem colar colou. E na rede não, da maneira que as nossas redes sociais estão vinculadas você acaba perpassando por quem você já conhece, a sua bolha.

“A gente tem uma peça que chama linha ‘vermelha’, que fala da linha vermelha do metrô. A gente fala dela porque estávamos usando muito ela para chegar no CDC. No Mãe da Rua tem gente do ABC, tem gente lá do Tiradentes e tem Gente da Vila Madalena, e a gente começa a trafegar muito pela linha vermelha. Então começamos a contar a história das estações do metrô e pensar nós mesmas no metrô (a trabalhadora e a mulher indo estudar no metrô) mas trazendo a questão do território à tona na peça.

Cheira Tinta Crew

Transformar a vida pela arte! É esse o lema que Jamil e outros jovens do Parque Imperial,  um dos bairros mais carentes de Barueri (zona oeste de São Paulo), começaram a organizar cursos de grafite em conjunto com a ONG SAF – Associação de Apoio à Família. Desde então, esse lema já não é apenas um lema. O desejo de fomentar um interesse artístico e senso crítico nos jovens os marcou igual a tinta marca os muros por onde passam.

O projeto atravessou os muros que separam o Parque Imperial de Alphaville da mesma forma que  o cheiro da tinta evapora sem respeitar as fronteiras do território, inclusive daí que vem o nome Cheira Tinta: 

“Cheira Tinta vem com a ideia dessa aproximação com a tinta, de você realmente cheirar, estar próximo! Esse prazer de você se localizar com a tinta, e onde a gente passava deixávamos esse rastro.” 

Completando 15 anos, o Cheira Tinta atua com grafite de rua, street arte e arte educação, se voltando para uma construção de uma autoestima e desenvolvimento de senso crítico dos participantes (na sua maioria jovens moradores da Zona Oeste da grande São Paulo.) Em todos esses anos, o projeto foi evoluindo e hoje chega em outros territórios além do Parque imperial, como explica Jamil em entrevista: 

“Hoje, pra falar de serviço que nós atendemos com essa teoria de melhorar a vida das pessoas através da arte: deixar mais leve ou despertar um senso crítico para que as pessoas não olhem numa direção só. Então hoje eu trabalho com jovens ex-internos da Fundação Casa (que é o projeto do CRESS – Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo), trabalho com moradores de rua, trabalho com crianças nos abrigos de Barueri, estamos atendendo todos os CRAS – Centro de Referência de Assistência Social de Barueri (são os CRAS que tem serviço de média complexidade) e no centros comunitários também onde tem uma turma mais mista mesmo onde a galera acessa e dois CEU’s de Osasco.

O projeto chamou atenção até do colégio Mackenzie, localizado em Alphaville, onde antes da pandemia Jamil também dava aulas. Sobre a convivência neste período nos dois lados do muro, Jamil conta um pouco sobre as carências afetivas na criação que, segundo ele, eram de certa forma, também vividas tanto pelos jovens Imperial quanto os moradores de Alphaville  – delimitando sempre as diferenças dentro de um cotidiano das diferentes classes sociais.

“Antes da pandemia eu atendia uma turma na escola Mackenzie, né?! Aí eu falava pra galera que eu atendia os dois lados do muro, porque quando estou aqui no Imperial tem um muro que divide o Tamboré do Parque Imperial. E aí eu estou dos dois lados do muro, o que me ajudou a enxergar um pouco dessa realidade, ‘Ah, esse lado é rico e esse outro lado falta tudo’; Nada, lá falta muita coisa também e, às vezes, vejo que as necessidades são as mesmas. A dificuldade de acesso a família, uma família desse lado daqui não tem acesso um ao outro porque o pai ou a mãe tá trabalhando, aí chega vai dormir ou ver novela. Do lado de lá também é a mesma coisa, o garoto não vê os pais porque eles estão viajando/trabalhando, chega tarde também. Mas as necessidades, as carências são as mesmas. Aí eu percebi que a arte poderia trazer esse alívio dos dois lados do muro. Já tava de um lado do muro e colocamos em outro também, e deu muito certo.”

O intuito sempre foi trazer mais pessoas do bairro para o mundo da arte e se tornarem pessoas criativas independente de qual carreira seguissem. Não que todos os jovens que passassem pelo Cheira Tinta virassem artistas, mas sim, para que tivessem desde cedo uma curiosidade pelo assunto, para que esse convívio fizesse parte mais ainda de suas vidas. 

“O crescimento que a galera teve com o projeto de arte é que todos se tornaram pessoas criativas. ‘Ah, você vai entrar aí mas vai sair criativo! Independente do que você for trabalhar lá na frente, mas vai trabalhar com um senso crítico bacana e com a criatividade.’ E outros se tornaram arte educadores.” 

Com o decorrer do tempo, ficou evidente para o grupo a similaridade do Projeto Cheira Tinta com a pedagogia. Muitos ex-alunos acabaram se tornando professores do projeto e quem já era professor se especializou em arte educação:

“Na arte educação nós escolhemos um caminho: transformar a vida das pessoas através da arte. Que era o que aconteceu no projeto lá da ONG (SAF). Então a gente estava nesse processo, os meninos [ex-alunos do projeto que agora são professores] acabaram se formando em artes visuais assim como eu também e aí fomos trabalhar com a galera.”

A arte educação foi a fagulha necessária para que o Cheira Tinta chegasse tão longe e mudasse a vida de muitos jovens do Jardim Imperial. O objetivo dessa fagulha, é claro. Causar inquietação, fazer os alunos refletirem sobre a sua existência e transformarem sua realidade a partir do que enxergam no seu território. Muitos profissionais da educação pública enxergaram esse potencial que a proposta tinha e abriram as portas das escolas para que o Cheira Tinta trabalhasse em conjunto com as propostas educacionais.  

“Essa é a nossa meta causar inquietação. Não pode deixar a galera engessada só obedecendo ordens. Você vai perguntar o porquê ‘Oh mas por que?’. E dentro do sistema de ensino, existe um método que é engessado, é óbvio. Então quando a gente encontra um diretor ou alguém que abre portas para gente entrar na escola e de alguma forma levar isso pra galera, poxa, a gente fica feliz pra caramba!”

Porém, não são todos os diretores e profissionais da educação que estão de braços abertos para o projeto. Muitos ainda não compreendem a importância da arte e criatividade para a formação educacional e até profissional de jovens e crianças. Os novos projetos arquitetônicos padronizados das escolas de Barueri também dificultam a experimentação criativa do grafite:  

“O novo modelo de escola em Barueri  não permite o acesso do grafite, porque? Primeiro que as paredes e os muros eles querem padrão. É muito difícil ingressar lá porque tem que ser do jeito que eles pediram. Mas uma escola e outra tem um diretor que tem uma mente mais aberta e a gente consegue levar. Falar que “todas eu vou entrar e todas eu vou levar” não, não é bem por aí até mesmo porque eles já são de uma formação que a arte não é importante, se pensar bem eles já vem nessa formação. Quando leva arte na escola se não tiver estímulo, a galera já não vai se interessar.”

Cada espaço conquistado pelo Cheira Tinta, cada jovem apaixonado pelo grafite e pelas artes em geral, é mais um Basquiat descoberto nas periferias. Existem diversos Basquiat ‘s em cada esquina, em cada bairro periférico. Muitos ainda não têm noção ainda de todo o seu potencial artístico. “Boa parte dos alunos de periferia, da margem – justamente nós estamos nas margens de Barueri, nas bordas de Barueri. A gente não tem muito projeto mais pro centro, tem nas margens e as margens de Barueri são Basquiat ‘s.”

Estes Basquiat ‘s desconhecidos não se limitam a gênero ou faixa etária. Jamil comenta como as exposições do artista estadunidense influenciaram um grupo de alunas da terceira do CRASS:  “Inclusive a gente foi visitar uma exposição do ‘Basquiat’ e elas levaram o nome de Basquianas. Pô, um grupo de senhoras conhecendo Basquiat com aquela manifestação forte que ele tem e se nomeiam como ‘Basquianas’, eu achei mega interessante! “

Independente da idade, o objetivo é o mesmo. Fazer com que esses Basquiat ‘s se expressem da melhor forma possível para que suas mensagens sejam ouvidas. Seja essa mensagem um grito de revolta, um sussurro discreto, mas incisivo, ou uma conversa amigável: “A gente não tem a ideia de levar uma arte com aquele fino traço, acadêmico, bonitinho. Não, a gente absorve o que ele tem! Na maioria das vezes o que ele tem é a mesma coisa que o Basquiat tinha…que é expressão pessoal, era o movimento que ele queria colocar. Pegava a rua e colocava na tela, pegava a rua e colocava numa madeira e papelão; ele pegava a rua e manifestava do jeito que ele tinha que manifestar com a agressividade da rua! Então é isso que a gente tenta respeitar na galera: o que você tem de arte e o que você vai trazer.”

Porém, durante a pandemia, o projeto enfrenta dificuldades no acesso dos jovens da periferia. Muitos alunos não têm acesso a internet e celular/computador. O Cheira Tinta que sempre preza por um projeto com contato direto com os alunos, também teve que se reinventar neste período.

“Não há essa preocupação de a galera tem que acessar e tudo. A gente tem essa preocupação. Mas o poder público não vai ter. Então o nosso aluno da margem, ele não tem esse acesso, não tem celular, não tem internet…na maioria das vezes usa o do pai.”

Jamil vê como essencial  para o avanço do projeto a necessidade da vacinação em massa e controle da COVID-19: “Por isso a gente tem uma necessidade muito grande que todo mundo fique bem, todo mundo vacinado e volte logo. Porque a gente sabe que essa galera nossa, a gente tá perdendo pra outros sistemas que não pararam, né?! Então pra gente é muito complicado. A gente tá tentando na medida do possível acessar essa galera.”

Como projetos futuros, o Cheira Tinta pretende se colocar no mercado de arte e abrir as portas para os talentos escondidos na periferia: “Hoje a gente vê que alguns dos nossos atendidos têm dificuldades em vender a arte ou entrar dentro do mercado artístico e tudo. Então um projeto nosso futuro é atender essa demanda, fazer com que os nossos sejam ingressados no mundo da arte de uma maneira mais tranquila.”

SLAM DO ZÉ

Onde a gente tiver… a poesia tá de pé! Slam do Zé!

Foi com esse grito de guerra que fui apresentado ao grupo de Slam de Jundiaí, que no momento está fazendo todas as suas edições online. Não precisei de muito, na verdade, para compreender que tanto os organizadores quanto os poetas se entregam à poesia.

Nesta edição de sábado (26/06) presenciei uma disputa acirradíssima valendo vaga para o Slam SP, onde os selecionados para as próximas fases foram os poetas Márcio Ricardo (São Paulo) e Ramon da Cunha (Rio de Janeiro). Este evento em específico, desta vez, não foi aberto como as lives anteriores feitas no Instagram como a própria Gabriela explica em entrevista cedida dois dias antes:

“Agora, por exemplo, a gente vai participar da seletiva do Slam SP então a gente vai fazer uma seletiva no fim deste mês e no próximo porque tem um prazo. Mas no geral a gente faz temporadas. Quando a gente fez pelo Instagram a gente fez uns três meses seguidos, deu uma pausa e fez outra coisa.”

O Slam do Zé vem experimentando como manter o evento funcionando durante a pandemia de maneira online, porém os organizadores percebem a dificuldade de criar um ambiente semelhante ao presencial:

“Sinceramente, o mínimo necessário para manter o rolê na ativa. Porque a gente já tá muito saturado do formato online e o Slam sempre movimenta um grupo, né? Você não faz um Slam com duas pessoas. Então é sempre um trabalho e como todos os trabalhos estão praticamente online, a gente tá seguindo, o rolê tá na ativa… mas a frequência tá até indefinida.”

O evento online, no entanto, abriu novas possibilidades de participação para além da região de Jundiaí. “No presencial a gente tinha um evento forte. Muita gente que vinha prestigiar ou só assistir e no online isso depende muito do formato e do evento em si. No online a gente recebe muitos poetas de fora, e isso dá uma  troca boa e vem um público diverso conhecer[…] Tem gente que já veio até da Austrália, tá ligado?! Quem quer colar que cole e é sempre aberto.”

Durante o período de fase amarela em Jundiaí foi cogitado a possibilidade de um evento aberto e presencial, no entanto, com a piora da situação tiveram que voltar atrás com a ideia.“Quando estava na fase amarela, um pouco antes de fechar pra vermelha uns dois meses atrás, a gente estudou voltar pra rua. A gente ia participar de um evento em um espaço aberto. E aí quando fechou tudo de novo a gente falou: ‘Eh… acho que ainda não’”.

Além deste período pandêmico, outro acontecimento afeta diretamente o futuro do Slam, que acontece desde 2018 no mesmo local quando era um sarau organizado pelo Coletivo Galeria. A atual administração da Prefeitura de Jundiaí, vem seguindo um projeto que dificulta o acesso cultural do espaço público:

“É um assunto que afeta a gente diretamente. Como a gente trabalha com o uso do espaço público, especialmente ocupando praças. Aqui em Jundiaí a gente tá vendo um movimento de cercear as praças. Mesmo  sendo inconstitucional e tal, a Prefeitura de Jundiaí aderiu a um programa de ‘Cidades das Crianças’ essa é meio que a política, então a cidade é feita para as crianças e eles aderiram a um projeto da Urban95 e mais uma outra organização que falam que todas as praças tem que ser adequadas para crianças da primeira infância. Essa é a justificativa que eles usam para cercar essas praças – o que é inconstitucional e tira o caráter de praça, de espaço de lazer e passagem. Essa do bar do Zé, era uma que ficava de frente a um bar e tinha uma árvore centenária […] daí como com a especulação imobiliária começaram a crescer mais condomínios ao redor e a região começou a ficar mais valorizada,  falaram: ‘Bom, fechamos a praça, cortamos a árvore, acabou’… acabou!

Apesar do nome do programa da Prefeitura se chamar “Cidades das Crianças”, a medida pouco beneficia a população de usar as praças/espaços para lazer e cultura mas beneficia a gentrificação, a especulação imobiliária e o controle do espaço público:

“Pessoalmente falando, especulando… que é mais sobre o controle do espaço público, né?! De você poder chegar,  passar um cadeado lá e a hora que você quiser as pessoas usam e a hora que não quiser não usam.” […] Desde o início do Slam sempre rolou problemas de GM aparecer, querer saber o que tá acontecendo, interromper e a gente explicar e eles estarem lá de novo.”

Apesar da Prefeitura argumentar que  está ouvindo as demandas da população, usuários dos espaços públicos que se sentem prejudicados afirmam que não foram ouvidos devidamente e começaram a se articular para mudar esta situação:

“A gente fica pensando qual população está sendo ouvida, porque a justificativa é sempre essa: ah, a população pediu. Então a impressão que dá é essa. De que os condomínios fazem solicitações absurdas e aí essas são acatadas.[…] Quem é mais prejudicado por essas políticas meio que começou a se articular e movimentar por aqui para que as outras pessoas se unam. Porque o conselho, às vezes, é o único recurso da classe artística tem de conversar com a unidade de gestão sem ser amigo de alguém.“

Segundo a opinião de Gabriela e que reflete a de muitos jovens de Jundiaí (mas não somente) é que a cidade não é amigável com jovens e crianças: “Parece que não é uma cidade para jovens. Se você perguntar para qualquer jovem de Jundiaí (Qualquer um!) Todos querem ir embora (risos).”

Enquanto experimentam esse novo formato online e lidam com este embate com a Prefeitura da cidade, o Slam do Zé busca se estruturar, cada vez mais, participando de novos projetos e buscando financiamento:

“Eu percebo que o trampo chama mais trampo. A gente teve o apoio de uma produtora independente que pegou na mãozinha da gente e falou: vamos fazer editais? Isso no começo da pandemia. E aí a gente começou com um da Prefeitura e, logo em seguida, o SESC Jundiaí convidou a gente para fazer uma série de podcasts. Aí isso trouxe visibilidade, que trouxe trampo e tal… então assim, a gente tem alguns aliados específicos que falam: Ow, vamos fazer isso! E a maioria deles são artistas mesmo que oferecem essas oportunidades e tal. E a gente sempre busca estar inscrevendo o nosso trabalho,  de alguma forma, em edital e financiando. Porque além de remunerar os nossos poetas a gente tem que ter uma grana para investir na gente.Por exemplo, hoje eu tô dando entrevista com o Mic que a gente comprou, porque eu não tinha esse recurso.” 

Apesar das dificuldades do ano de 2020, as articulações feitas com outros coletivos e setores culturais vem dando resultados. Esses resultados são sempre voltados para fortalecer, não apenas o Slam do Zé, mas todos os outros projetos culturais da região, rumo a criação de uma potência cultural, segundo as palavras de Gabriela.

“A gente tá experimentando, né? A gente também fez algumas coisas que fazem parte do que se espera de uma potência cultural (como o Slam do Zé se coloca) que não são ligados necessariamente ao Slam. Então a gente fez uma série de lives com uma organização aqui chamada a ‘Causa Preta’ sobre temas relacionados ao racismo, às questões do povo preto; a gente deu várias entrevistas, podcast então fomos testando…. é muito do ‘jogo louco’ fazendo um jogo que funciona.”

Para se inscrever como poeta no Slam não é necessário muita coisa, muito menos ser residente de Jundiaí. Traga o seu poema e participe! “O Slam de Jundiaí é bem aberto com isso. Alguns Slams pelo público de poetas que frequentam tem aquele padrão de poesia e slam. A gente busca captar todos os poetas aqui da cidade. Então, a poesia sendo autoral e tendo até 3 minutos tá valendo. Tem um poeta que chega com poesia de 30 segundos, 1 minuto e tá tudo certo.

Só de acompanhar um evento online, percebi uma potência enorme desta manifestação cultural. Assistindo online percebi que a cultura popular ainda está viva. Como uma planta em um lugar inóspito, vai abrindo novos espaços para sobreviver e receber a luz do sol. O relato, de algumas das memórias de Gabriela sobre suas apresentações, mostra um pouco da importância dos espaços públicos para crianças/jovens no desenvolvimento de novas atrações culturais, trazendo assim, uma vivacidade ao espaço e quebrando a rotina monótona das cidades:

“eu sinto que quando se forma um slam em uma praça onde quer que seja um espaço é criado de acolhimento, de escuta, de motivar… tipo, já tive várias performances de poesia de 20 segundos, com uma apresentação de eu lendo nervosa e sai de lá me sentindo incrível, sabe? Porque valorizaram o que eu trouxe ali, o que eu sentia ali em dividir, então eu sinto que é muito isso… é meio que um fato consumado que é um espaço de escuta.”

CIA. Teatro dos Ventos

Com 10 anos de trajetória (só com o teatro de rua), a Companhia Teatro dos Ventos criou, como poucos grupos, um laço de carinho e afeto por onde passam. A Cia. dos Ventos passou diversas transformações desde o começo dos anos 2000, após um espetáculo bem sucedido na tradicional escola pública CENEARTE – Escola Estadual Antonio Raposo – em Osasco, zona oeste de São Paulo.

A Partir daí, o grupo deixou  de ser somente um espaço de experimentação artística e se tornou um grupo de teatro de rua como conta Luiz (um dos integrantes mais antigos) que, um dia, conversando com seus antigos parceiros de apresentação chegou com a seguinte proposta:

“Gente, vamos fazer o seguinte? A Companhia é de primeira importância, não é terceira ou quarta e vamos fazer teatro de rua?… Quando falei isso sumiu quase todo mundo.(risos)[…] Aí a gente acabou virando um grupo de teatro de rua e teatros não convencionais [Quadras de escolas, pátio, escadão…etc].”

A escolha da rua como espaço, inicialmente apareceu como uma necessidade por falta de verba, como relembra Iohan, também membro do grupo:

“É muito interessante porque, como muitos outros grupos, foi fazer teatro de rua não por escolha estética mas por falta de verba. As políticas públicas [para cultura] são uma lástima para fazer teatro.” No entanto, a rua acabou virando um local de experimentação artística e estética. “A gente foi pra rua muito por conta da política [pública] e chegando na rua a gente percebeu na verdade que as possibilidades estéticas eram muito maiores do que no palco. Eram possibilidades diferentes, na rua você precisa fazer muitas das coisas e no palco você chega e tá pronto e você acaba adequando o espetáculo num molde pré existente. E quando você tá na rua não tem isso, então você tem que mudar tudo, e isso nos colocou muitos desafios a gente teve que rever muita coisa estética e rever muito das nossas posições .”

Porém, o caminho trilhado em direção ao teatro de rua não foi uma escolha sem percalços, muito pelo contrário. O grupo lidou e lida com a repressão do Estado (em específico a Prefeitura de Osasco), que nos últimos anos vem intensificando abordagens que dificultam a expressão artística na região. “Hoje você é abordado pelas forças de fiscalização e repressivas para perguntar se você tem autorização para estar lá, às vezes eles interrompem o espetáculo. E isso é um problema né?! Mas tem ocorrido muito nos últimos tempos.” 

Além da repressão em espaços públicos a Prefeitura desfez o conselho de cultura da cidade e até esse momento não criou outro. O antigo conselho era gerido pelos participantes do grupo de teatro, que enxergavam nesta plataforma uma forma de conscientização e futuramente uma possível auto organização dos trabalhadores da cultura de Osasco:

“Porque isso que o secretário fez, ele cancelou um conselho em dezembro e até agora estamos sem conselho. Ué, pera ai como é que se cancela um conselho? Porque o conselho é uma lei, a lei diz que tem que existir então eu posso cancelar a Prefeitura então? Não existe isso! Como a gente tá sem conselho e a Secretaria produzindo política pública? Isso é um crime, né? Um crime severo.[…] É por isso que em Osasco, no período em que a gente esteve no conselho, colocamos uma palavra de ordem, que no começo pareceu polêmica: A gente não quer falar de cultura… quer falar de trabalhador da cultura. A gente não tem que falar de cultura, porque para um secretário de cultura é fácil ele fazer cultura. Vem os espetáculos grandões da capital, apresentam [na região] mas o trabalhador da cultura não vive, né?! Existe um historiador bacana, Thompson, um marxista inglês que diz: ‘Não existe amor sem amantes e não existe história sem o sujeito’. Então a gente colocou nesta mesma ordem: ‘não existe cultura sem trabalhador da cultura, porque a gente tem que falar do sujeito que trabalha com cultura‘”.

O grupo também reafirma a necessidade de financiamento público da cultura e ressalta o formato radical  do teatro de rua seguido pela Cia. Teatro dos Ventos, que busca sempre romper a lógica de cultura (e do próprio território onde ela acontece) como mercadoria:

“Por que um grupo de teatro/espetáculo que tem história, tem o que dizer, tem um enraizamento popular tem suas conexões com o bairro, cidade ou em rede não é digno de ganhar financiamento porque ele volta de graça para a população? É um rompimento da lógica mercadológica que na rua a gente vê de uma maneira bem mais radical. Você não pode cobrar ingresso na rua, não tem como. Não tem portaria. Você não tem o bilhete lá barrado de entrar… qualquer um vem, para bem ou para mal. Qualquer um pode assistir o espetáculo, pode intervir, pode interferir e  isso muda um pouco a lógica[…] Na rua sempre vai ter bêbado, criança ou cachorro. Às vezes nos nossos bons dias tem os três, o cachorro mordendo o cotovelo, a criança não parando de chorar e o bêbado querendo fazer a cena. Isso ocorre muito, mas isso é legal porque mostra a interferência, porque você tá interferindo naquela rotina maçante dos nossos tempos.”

Para que a Companhia continuasse funcionando e encantando as pessoas era necessário, a todo momento, um exercício de convencimento da importância do teatro no cotidiano, como ressalta Camilla(atriz e integrante do grupo):

“As pessoas acreditam que o teatro é uma realidade distante da vida delas, às vezes, é até difícil dizer que teatro não é uma coisa cara. As pessoas pensam que teatro é um espetáculo que custa R$100 para assistir, ou que é o teatro musical com R$160, o ingresso ou o Cirque du Soleil que custa R$300, se você tiver sorte ganha um sorteio e entra. Isso cria dentro da cabeça das pessoas uma visão de que o teatro é algo distante.”

Este convencimento, passa desde o público até os educadores onde a Companhia passa, acrescenta Luiz:  “Eu [no período em que trabalhou como professor] lá os professores de português que levavam os alunos para ver teatro e quando voltava mandava fazer uma redação. Aí o aluno não tinha vontade de fazer redação, ia mal, o professor dava nota baixa e o cara ia odiar o teatro, né? ‘É culpa do teatro porque se o professor não tivesse me levado pra lá não tinha tirado nota baixa’(risos)… e ele tá certo na lógica dele, então eu falava para os professores: não faz isso, cara; vamos levar para o teatro, fazer uma roda de conversa, vamos fazer uma conversa antes para o aluno entender o que ele vai ver.”

Quando abertas para essa experiência, é muito difícil não se encantar pelo trabalho do grupo que conquista a atenção não somente das crianças, mas também dos adultos:

“ A gente estava se apresentando lá na Praça da Bica em Jandira, e tinha umas crianças assistindo a peça. Aí do outro lado da rua tinha uma senhorinha gritou ‘O filha, o que você tá fazendo aí?’”- A criança respondeu o nome do espetáculo (Balaio liberta) em referência a revolta da balaiada – “aí a senhora respondeu: Só Jesus liberta! (risos) Mas aí a senhora ficou assistindo o espetáculo e deu um passo, depois deu outro passo aí encostou no muro e assistiu o espetáculo todo(risos).

O teatro de rua na, visão do grupo, é inseparável de um processo pedagógico com criação de laços tanto com a comunidade quanto com as crianças:  “Como a gente tem essa preocupação de sempre retornar onde a gente apresenta, a relação que a gente vai criando com as crianças inclusive com o passar do tempo. Então você apresenta para uma criança que tem 5 anos, depois você vai apresentar quando ela tem 9. Isso é muito legal porque cria uma ideia de identificação (muito mais do que com o espetáculo com o grupo).A forma como as crianças começam a participar do processo de montagem do espetáculo; quando a gente chega lá com as coisas elas querem ajudar (não tem mais estranhamento).”

*Lucas das Neves Costa é bolsista na região Sudeste do projeto Jornalismo e Território, realizado pela Énois Laboratório de Jornalismo, com foco em investigações sobre cultura e território.

Mãe da Rua no Flickr

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2 Comentários

  • A reportagem é muito incrível e super envolvente, é perceptível a emoção que a cultura e arte causam em nós e nos fazem querer mobilizar nosso entorno. Não conhecia os projetos e adorei conhecer mais a fundo cada um deles!

  • Bastante esclarecedor o seu artigo.

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