Um feminismo que não me pauta

Por Nathalia Henrique, da Agência Jovem de Notícias em São Paulo

“Quando a verdadeira história da causa antiescravista for escrita, as mulheres ocuparão um vasto espaço em suas páginas; porque a causa das pessoas escravas tem sido particularmente uma causa das mulheres”

Essas são as palavras de Frederick Douglas, homem escravizado que se tornou o principal aliado do movimento de mulheres no século XIX, “o homem dos direitos das mulheres”. Em 1838, trazendo uma visão americana, as mulheres se apoiaram em movimentos abolicionistas para reivindicar seus direitos de igualdade dentro do lar, na área política e no trabalho.

Mas de que mulheres estamos falando se as mulheres negras já vivenciavam o trabalho, mesmo que em uma situação de escrava? Antes de mais nada, o que é feminismo? E como esse movimento se constituiu no Brasil?

Não muito diferente do que aconteceu nos EUA, o feminismo no Brasil surge no século 19, também apoiado nos movimentos da abolição, luta pela educação e direito ao voto. Uma das pioneiras no movimento foi Nísia Floresta Augusta, mulher branca, que fundou em 1838 a primeira escola para meninas, no Rio Grande do Sul. Além disso, criou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com o objetivo de lutar pelo voto, direito ao divórcio, educação completa e pelo trabalho de mulheres sem a autorização do marido. Sua maior inspiração era a feminista inglesa Mary Wollstonecraft.

No final dessa luta e de toda a análise da história do feminismo, nos perguntamos: Onde está a mulher nesses debates, quais as pautas das lutas que as permeiam? Sendo que as mulheres mais influentes no início do movimento no Brasil eram brancas, parte da elite. Enquanto corpos de classes altas se colocavam na luta, sem medo de resistir, mulheres negras lutavam para existir.

Em 1980 o feminismo negro começa a ganhar força por aqui, com a reorganização dos movimentos sociais. Destaque para nomes como Sueli Carneiro, Lélia Gonzales, Núbia Moreira, Luiza Bairros. E a luta pela existência de corpos negros não começou naquele ano, a resistência para existir enquanto indivíduo, seja cultural, social ou detentor de subjetividades, vem desde o período escravista, no pós-abolição, até hoje.

Se colocarmos em uma pirâmide temos:

Homens brancos

Mulheres brancas

Homens Negros

Mulheres Negras

Essa estrutura se afirma mais ainda quando nos aprofundamos no passado brasileiro, quando estudamos a fundo histórias de pessoas escravizadas, seus processos de dominação, casos de abusos sexuais, inclusão na sociedade, alfabetização, condições de moradia, abandono familiar e assim vai. Mas não vamos explorar isso hoje.

Os dados comprovam…

E eu não aprendi a me amar, não aprendi a gostar da textura do meu cabelo, na TV a minha raiz era queimada, queimada com químicas, ferida esteticamente e reproduzida em lares brasileiros. Aprendi que eu precisava correr atrás duas vezes mais, mas a primeira vez corri de um garoto da escola que dizia “você por ser preta não tem opinião” e corri pela segunda vez quando saí do trabalho e perdi o busão para a faculdade, corri tanto que a moça ao lado segurou a bolsa, e eu bem que precisava de uma bolsa, mas era uma de desconto na faculdade, para não acabar meu salário no dia do pagamento, para não acabar minha esperança.

Mas essa esperança foi tanta que chutei o sistema e hoje sou uma preta viva, que pinta as salas da USP com coro e corpo negro. Mas ainda corro, do trabalho pra faculdade e depois pro fundo da zona leste, e quando eu falo de zona ninguém entende nada. Na universidade eles são de centro, centro da cidade, centro dos estudos (é, estou falando de professor que só sabe passar conteúdo eurocêntrico) e olha eles no centro de novo. Mas o aviso fica: não subirei ao topo sem levar os meus, de cada corre vamos honrar a história.

Esse grito é por Dandara, Carolina, Claudia, Roseli minha vó, Mariele, Tatiana minha mãe.

Agência Jovem de Notícias

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