“Temos que fazer a diferença”

A adolescente Tamiris Pereira, moradora do Jardim Ângela, em São Paulo, enfrenta a pandemia com preocupação, encontrando ânimo no projeto Geração que Move

Por Unicef Brasil

“Aqui não temos muita coisa. Até para estudar, preciso ir longe”, conta Tamiris Pereira, 15 anos, moradora do Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. Estudante do ensino médio em escola estadual localizada no Capão Redondo, Tamiris é crítica em relação à falta de oportunidades de educação e cultura no seu território. Ela conta que as atividades oferecidas na sua região são majoritariamente voltadas às crianças, como um curso de percussão, ou aos adultos, como o samba que frequenta com sua mãe. A jovem ainda reflete sobre as necessidades de união entre sociedade civil e poder público para “abrir a cabeça dos jovens” de seu território.

Antes da pandemia, a necessidade de usar transporte público diariamente para estudar era um dos principais desafios de Tamiris. Por um lado, pesava a insegurança no trajeto do ponto de ônibus até sua casa, por outro, o transporte lotado. “Quando meu namorado não me buscava no ponto, eu pegava o caminho da avenida e andava rápido sem olhar pra trás”. A jovem reflete, contudo, que se sente mais segura no próprio bairro, pois sua família é conhecida por todos no local. O sentimento de pertencimento fala alto, mas Tamiris sonha com o futuro de poder morar em outro lugar da cidade, onde possa fazer valer seu direito a cultura, educação e mobilidade segura.   

A insegurança faz com que a escassa oferta de atividades artísticas e formativas no Jardim Ângela tampouco consigam ser supridas pelas oportunidades disponíveis em outros territórios de São Paulo. “Gosto de ir ao Sesc Campo Limpo, Parque Ibirapuera, shopping, casa de amiga”, afirma a jovem, mas conta que a mãe só permite que vá ao Centro junto com as irmãs mais velhas, durante o dia. Tamiris quer ingressar no ensino superior e se tornar independente. Quer viajar o mundo, contribuir socialmente e “ser boa para si mesma”.

A participação da jovem no projeto Geração que Move, uma iniciativa do UNICEF em parceira com a Fundação Abertis e Arteris e a Viração, de São Paulo, foi motivada pela vontade de se expressar e de “fazer algo diferente na quarentena”, lembra Tamiris.

Desde março, ela está em quarentena com a família a fim de mitigar as possibilidades de contágio do coronavírus. “Há dias em que eu acordo triste, a gente fica desesperada… E foi ficando mais difícil porque vi que não vai passar logo”, afirma a jovem. Ela lamenta ainda que, ao contrário de sua família, poucos moradores de seu bairro estão se cuidando e a movimentação é grande no comércio e nos bares. Embora o uso de máscara tenha mudado a cara das ruas, “a maioria não está levando a sério”, afirma a jovem.

Tamiris atravessa o cotidiano em isolamento social com atividades escolares e séries na TV. Embora ela tenha condições em casa para assistir às aulas virtuais, ela se sente apreensiva em relação ao aprofundamento das desigualdades com a continuidade dos estudos a distância.

Nesse cenário, o Geração que Move traz novos ânimos. A expectativa de Tamiris é contribuir com os jovens do seu território e para desenvolver sua visão crítica acerca de temas que afetam seu cotidiano.

A juventude precisa ter voz, não pode ficar calada. Temos que fazer a diferença”, ressalta ela, destacando que percebe em muitas famílias pouco espaço de escuta para as crianças e os adolescentes. Entre as diferentes atividades do projeto, Tamiris destaca o encontro sobre racismo. “Me tocou muito a conversa sobre racismo porque é nossa realidade”, diz ela.

Foto de uma jovem negra com cabelos compridos trançados e brincos de argola.

Sobre o Geração que Move 

Numa parceria entre UNICEF, Fundação Abertis e Arteris, jovens do Grajaú, Jardim Ângela e Parelheiros, em São Paulo, e da Zona Norte e Zona Oeste do Rio de Janeiro estão sendo incentivados a debater os desafios da Covid-19 no projeto Geração que Move. A iniciativa conta ainda com a parceria técnica da Agência de Redes para Juventude e da ONG Viração. A ideia é fazer com que os adolescentes compartilhem anseios, preocupações, inspirações e motivações dentro do atual cenário da pandemia do novo coronavírus, em especial sobre as condições de acesso a serviços básicos, mostrando de que forma essa geração busca alternativas em momentos adversos.

Texto originalmente publicado no site do Unicef Brasil.

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