O papel de adolescentes e jovens no combate ao HIV

| Por: Moisés Maciel e Mateus Araújo, Agentes de Prevenção do Viva Melhor Sabendo Jovem; e Matheus Emílio, do Grupo Pela Vida SP

Aconteceu em Brasília, entre os dias 18 e 21 de janeiro, o Seminário Internacional de Juventudes e Enfrentamento do HIV/Aids: Construindo caminhos da prevenção e formando advogados em PrEP no Brasil. Organizado pela organização Vida em Movimento, o evento teve como objetivo principal a formação de lideranças para atuarem no uso da profilaxia pré-exposição ao HIV, o PrEp.

O seminário teve início na noite de quarta-feira (18) com as falas dos organizadores e convidados. A cerimônia foi curta, mas instigante, deixando os mais de 100 jovens participantes do seminário animados para os dias que estavam por vir.

Ainda na abertura, o Residente em Infectologia no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, Marcos Borges, popularmente conhecido como Doutor Maravilha, conversa com os participantes sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis, como HIV, HPV e Sífilis.

Marcos Borges, o Doutor Maravilha

Representante das LGBT+, Marcos diferencia o HIV da tão temida Aids: “HIV é o vírus que pode estar no corpo e que causa Aids. Aids é o estado que temos a queda da defesa do organismo”. Sacou? Ter HIV não significa que você tem Aids e para evitar a Aids, deve-se iniciar a terapia antirretroviral (TARV) caso haja exposição ao vírus.

O segundo dia do seminário teve como foco a apresentação dos dados epidemiológicos, abordando as principais Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e as populações-chave (populações mais afetadas), como HSH (homens que fazem sexo com homens), jovens gays e mulheres negras.

O primeiro painel trouxe dados mundiais sobre o HIV, disponibilizados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). Quem mediou a sessão foi o Assessor para Mobilização Social e Trabalho em Rede da Unaids, Cleiton Euzébio. “Para evitar o problema, precisamos primeiro reconhecê-lo”, afirmou Cleiton sobre os desafios da luta contra o HIV.

São muitos os fatores que colaboram para o aumento dos casos de novas infecções pelo HIV. A baixa condição socioeconômica de determinadas populações, tornando-as vulneráveis, a dificuldade de acesso às informações específicas de prevenção combinada, e o imaginário de que “nunca pegarei o HIV”, são os principais fatores responsáveis pelo aumento de casos positivos.

As vulnerabilidades se estabelecem de diferentes maneiras. Sendo assim, é fundamental compreender o contexto no qual os indivíduos em situação de vulnerabilidade estão inseridos, assim como os fatores que colaboram para isso. Dessa maneira, é necessário traçar estratégias para combater as desigualdades e discriminações como LGBTfobia, racismo e machismo, que também contribuem para a marginalização de pessoas vulneráveis.

Entender as vulnerabilidades sociais é o primeiro passo para a redução do estigma que circunda o tema do HIV. Discutir sobre o assunto em grupos de WhatsApp, rodas de amigos e jantares em família, são meios poderosíssimos de transmitir informações.

Conversar sobre HIV/Aids e sexo ainda é um tabu para muita gente. Por falta de diálogo, a

Natalícia Ferreira no Seminário Internacional de Juventudes e Enfrentamento do HIV/Aids

sociedade sofre as consequências desse silêncio diariamente: de acordo com a ONU Brasil, cerca de 2 mil jovens são infectados pelo vírus do HIV por dia. Falar abertamente sobre IST, sexo e vulnerabilidades sociais é uma maneira de contribuir para que alguma mudança ocorra.

Além das populações vulneráveis enfrentarem maior risco de exposição ao vírus, a adesão ao tratamento após diagnosticada a sorologia positiva também é um desafio. Não se pode apenas ofertar o tratamento e esperar que as pessoas o sigam.

Deve-se pensar o indivíduo como um ser complexo e que pode estar inserido em um contexto de vulnerabilidade. Sendo assim, são necessárias políticas públicas e estratégias que ofereçam suporte universal a essa população.

E como mobilizar jovens para lutar na causa do HIV/Aids? Várias formas de instigar a mobilização da juventude foram discutidas no último dia do seminário e, talvez, as mais importantes tenham sido a sensibilização para a causa e a compreensão da necessidade de estar sempre em movimento, lutando por uma sociedade mais igualitária.

Natalícia Ferreira (25), uma das jovens participantes do seminário, acredita que essa é uma luta de todos nós e dá uma ótima dica: “vá à luta independente de sua sorologia e fortaleça a si próprio e as outras pessoas”.

 

SAÚDE LGBT

A Política Nacional de Saúde Integral LGBT foi um divisor de águas nas políticas públicas de saúde no Brasil. Instituída em 2011, a Política tem como objetivo promover a saúde integral LGBT, eliminando a discriminação e o preconceito institucional, contribuindo para a redução das desigualdades e consolidando o SUS como sistema universal, integral e equitativo.

Longe de ser perfeita, a Política representa um marco histórico de reconhecimento das demandas da população LGBT.

Mas, apesar da Política Nacional de Saúde LGBT ser garantida por lei, sua implementação ainda enfrenta muitos desafios, inclusive de adesão da comunidade médica. Segundo Marcos, o Doutor Maravilha, o preconceito na profissão médica é um problema: “O preconceito é péssimo em qualquer área, mas na profissão médica é ainda pior, porque ninguém vai no medico porque quer, você vai no médico porque precisa de ajuda”.

Marcos acredita que a falta de sensibilidade e atenção médica pode acabar agravando o quadro do paciente. “Você vai no serviço de saúde e encontra um médico transfóbico, homofóbico, machista, como vai ser acolhido? Pois você está ali com uma doença e precisa de ajuda e não vai conseguir (essa ajuda), vai ficar sofrendo ainda mais”.

Há uma necessidade, portanto, de sensibilização dos profissionais da área médica na questão da saúde LGBT. Talvez muita gente não saiba, mas o estado de São Paulo, por meio do Decreto Estadual 55.588/2010, garante o reconhecimento do nome social das pessoas transexuais e travestis em todos os órgãos públicos.

No entanto, existem diversas queixas sobre o não reconhecimento do nome social da população em questão. A secretária da Rede Paraense de Pessoas Trans, Isabella Santorinne, também participou do seminário e conta que a lei, uma conquista do movimento LGBT no Brasil, nem sempre é respeitada: “Logo no atendimento já é bem complicado, porque eles não querem respeitar nosso nome social, querem nos chamar pelo nome civil, então a gente já chega lá sendo desrespeitada”.

Isabella Santorinne, secretária da Rede Paraense de Pessoas Trans

Ou seja, o nome social deve ser respeitado né, galera!? É um direito, é o nome pelo qual a pessoa se reconhece. Vamos usar o bom senso e respeitar a diversidade.

 

A JUVENTUDE NO ENFRENTAMENTO DO HIV 

Sem dúvidas, a temática de juventude desperta uma gama de questões e possibilidades de abordagem: poderíamos falar sobre educação e saúde, sexualidade e gênero, IST e vida sexual. O que muitas pessoas esquecem, é que a escuta dos jovens nesse processo é fundamental.

Assim, percebe-se a importância da participação e voz ativa dos jovens no combate ao HIV, e de seu envolvimento no ativismo social.

Hoje, existem diversas estratégias no Brasil para executar testes de HIV fora das Unidades de Saúde, são as chamadas ações extramuros. Essa estratégia tem obtido resultados excelentes, tanto nas testagens, quanto na vinculação ao sistema de saúde em casos reagentes (positivos) para o HIV. A distribuição de preservativos não fica de fora, tendo uma saída maior em espaços não institucionalizados.

Existe ainda a estratégia de testagem entre pares, que busca atingir o público LGBT jovem e aposta na formação de agentes de prevenção também jovens e LGBT.

Apesar do sucesso dessas estratégias, não devemos subestimar os números de novas infecções por HIV. Segundo dados do Boletim Epidemiologico de 2015 do Ministério da Saúde, nos últimos dez anos, o número de adolescentes e jovens de 15 a 24 anos com HIV aumentou em 41% no Brasil. Então, a quantidade de adolescentes e jovens se infectando pelo HIV é muito alta né, manas?

Observando esses dados, podemos concluir que existe uma grande necessidade de intervenções voltadas para o público jovem e populações chave. O primeiro passo para atingir de forma efetiva as juventudes, em todas as esferas sociais, é escutar xs jovens e o que elxs têm para compartilhar.

Durante o Seminário Internacional de Juventudes e Enfrentamento do HIV/Aids, buscamos algumas dessas falas. O jovem Leonardo Moura (22), integrante da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS, diz que “se há algo que poderia compartilhar com alguém, seria o quão importante é estar em movimento”. Estar em movimento é estar sempre lutando por seus ideais, ajudando o outro, compartilhando vivências e experiências.

Leonardo Moura (22), integrante da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS

“Ter HIV hoje é sinônimo de viver intensamente cada segundo de sua vida, é ouvir cada pessoa a sua volta, podendo apreciar o que há de melhor nela. É construir e desconstruir conceitos e paradigmas dessa sociedade injusta. É compartilhar vivências, dores e amores, com pares ou pessoas diferentes”, complementa Leonardo.

 

PERSPECTIVAS PARA O FUTURO: A VIDA ESTÁ EM MOVIMENTO

As perspectivas para os próximos anos são positivas, talvez porque o ser humano, por natureza, seja otimista, ou porque os órgãos de grande peso político estejam comprometidos com o desenvolvimento social e sustentável.

Em agosto de 2015, a ONU lançou a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), documento que dever orientar as políticas nacionais e as atividades de cooperação internacional nos próximos quinze anos. A lista contempla 17 objetivos e 169 metas a serem cumpridas, todas embasadas na garantia dos direitos humanos e no desenvolvimento sustentável.

No universo de HIV e Infecções Sexualmente Transmissíveis, a agenda é ainda mais otimista: um dos objetivos principais é acabar com a epidemia de HIV/Aids até 2030. É preciso, no entanto, mais do que o apoio de grandes instituições e de atores políticos, o engajamento da juventude, da sociedade civil e dos movimentos sociais.

O presidente da organização Vida em Movimento, Henrique Ávila, que também esteve presente no Seminário, acredita que a mudança não só é necessária, como possível: “meu motivo para continuar no ativismo é acreditar na juventude, acreditar que é possível mudar. (…) A gente descobre a cada dia que é possível sim fazer um mundo melhor, que depende de ações, de pequenos gestos, de estar juntos e caminhar, e buscar alternativas para vencer cada desafio que passamos no dia a dia”.

Henrique Ávila, presidente da organização Vida em Movimento