O uso de drogas reforça valores machistas que interferem na saúde sexual, diz especialista

uso_álcool_SUS

Dentre os painéis do Seminário O SUS e a Saúde Sexual e Reprodutiva de Adolescentes e Jovens, o segundo abordou a questão da Fecundidade e Saúde Sexual e Reprodutiva entre Adolescentes e Jovens. Representantes da Secretaria Nacional de Juventude e do Ministério da Saúde trataram de relações sexuais e a forma com que elas são tratadas com jovens antes do 9º ano do Ensino Médio.

Apresentado por Max de Oliveira, do Departamento de Análise da Situação de Saúde do Ministério da Saúde, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE)  foi um estudo que traçou o comportamento sexual em adolescentes brasileiros, e trouxe a discussão sobre a importância de se conhecer o perfil da saúde sexual e reprodutiva entre a faixa etária de 13 a 29 anos.

Além de dados como os que demonstram que cerca de um em cada três estudantes já́ tiveram relação sexual, foi reforçado pelo expositor a necessidade de se iniciar a educação sexual e reprodutiva antes dos 15 anos, para que os adolescentes se preparem melhor para a iniciação sexual, com uma maior autonomia, uso de métodos contraceptivos e de preservativos para não acarretar em infecção de DST.

Também Ana Laura Lobato, da Secretaria Nacional de Juventude, abordou a questão das vulnerabilidades às quais a juventude está exposta e que afetam diretamente a saúde sexual. Ela falou sobre a questão do uso do álcool por adolescentes e sua proibição, provocando o público. Para ela, muito se discute a questão do uso de álcool por adolescentes, mas os adultos pouco refletem sobre como o seu comportamento educa uma geração de adolescentes que desejam o contato com a bebida alcoólica.

“A gente sempre chama os amigos para beber. Ninguém chama um amigo para comer um doce, tomar um suco”. A provocação de Ana Laura não se restringe à questão do uso do álcool e outras drogas, mas de que forma o consumo reforça comportamentos violentos na sociedade.

Sobre essa questão, dialogamos mais profundamente com ela. Confira:

entrevista_ana_laura

Na sua fala, você disse que o consumo de álcool pode interferir na saúde sexual de adolescentes e jovens e que faz parte da cultura do adulto o hábito de beber em excesso. Esse tipo de comportamento pode estimular o consumo precoce de álcool?

O que eu quis dizer é que a violência contra a mulher está relacionada a uma cultura que se empodera quando o homem faz uso de drogas. O uso de álcool e outras drogas alteram o estado de consciência e numa sociedade machista, de uma masculinidade viril, você se sente mais empoderado para tomar o corpo do outro ou castigar o outro de uma maneira muito mais violenta do que se ele estivesse sóbrio. Por ser uma questão cultural, grande parte dos adolescentes e jovens aprendem a consumir drogas lícitas em casa, nas festas familiares, com os amigos. E não há nenhum tipo de proibição nesse sentido. Pelo contrário. O cara que dá conta de tomar uma bebida mais forte é mais másculo do que outro cara. então, há toda uma cultura de apoio e indução não só do consumo, mas de um consumo abusivo que demonstre um certo tipo de masculinidade e isso reverbera num padrão de comportamento violento. Então, não apenas os adultos, mas toda pessoa que tenha relação de educação, seja com filho, com sobrinho, filhos dos amigos, a gente tem que ter mais cuidado com a forma que estamos ensinando não só o consumo, mas também certos valores associados a esse tipo de consumo.

Então, o consumo acabas sendo inevitável na nossa cultura. Talvez a grande questão seja como relacionamento com as drogas vai impactar as relações sociais.

A gente disponibiliza certas drogas em detrimento de outras, sem a problematizar porque uma pode e outra não pode, até quanto pode, o quanto do consumo é razoável e o quanto não é. Tem muito tabu nessa questão. Então, virar a noite enchendo a cara tudo bem, mas fumar um baseado uma vez por mês não pode. Mais do que o consumo em si, quais são os valores que estamos reforçando? De condenação, de controle social sobre o comportamento dos adolescentes e jovens. Eu quis problematizar como as nossas atitudes se tornam referências. A gente diz o que se deve fazer, mas a gente também é referência de aprendizado para as pessoas, sejam crianças ou outros adultos.

Bruno Ferreira e Eduardo Rodrigues, enviados da AJN a Brasília (DF)