Abertura da 6ª Mostra Ecofalante discute desenvolvimento sustentável

|Por Vânia Correa, da Redação, e Gabriel Santos,  jovem colaborador de São Paulo | Imagem de destaque: divulgação do documentário “Amanhã”

O tema socioambiental há muito vem ocupando espaço em importantes debates na sociedade brasileira. Cada vez mais pessoas estão falando sobre degradação ambiental e mudanças do clima e sobre como a ação predatória de governos e empresas e, claro, nossos hábitos cotidianos contribuem para isso.

A Mostra Ecofalante de cinema ambiental tem mostrado que esse é um assunto que se discute também na sétima arte. Principal evento audiovisual sul-americano dedicado ao tema, ela reúne títulos do mundo inteiro que tratam dos assuntos relacionados ao meio ambiente e sustentabilidade, além de promover importantes debates com cineasta e ativistas ambientais.

Na noite do último dia 31, o espaço do Cine Reserva Cultural, em São Paulo, sediou a abertura da 6ª edição da Mostra. Este ano, o evento tem foco na discussão sobre alimentação & gastronomia, cidades, contaminação, economia, mudanças climáticas, povos & lugares e trabalho.

É a partir desses recortes temáticos que foram selecionados mais de trinta filmes de todo o mundo, com exibições gratuitas até o dia 14 de junho em diversas salas na cidade de São Paulo, entre elas os cines Reserva Cultural, Caixa Belas Artes, e salas do Circuito Spcine.

 

Destaques da programação

A programação traz títulos de diretores como Hector Babenco, Carlos Diegues e Zelito Viana e conta com exibições acessíveis para pessoas com deficiência visual ou auditiva.

Durante a abertura, o diretor da Mostra, Chico Guariba, destacou a importância do cinema para difundir temas socioambientais e ressaltou o caráter de resistência da mostra, num cenário de graves retrocessos na política ambiental e indígena no país. “Precisamos resistir e dizer não”, afirmou.

Nesta edição, a Mostra homenageia também o cineasta e antropólogo Vincent Carelli, diretor de Corumbiara e Martírio, criador do projeto Vídeo nas Aldeias. Em um panorama histórico, o festival aborda a Amazônia no imaginário do cinema brasileiro e contará com exibições de filmes como Avaeté – Sementes da Vingança (1985), de Zelito Viana, que faz referência ao massacre dos índios Cintas-largas, em Mato Grosso do Sul.

Presente na abertura da mostra, Viana lembrou os dilemas ainda enfrentados na região amazônica, em especial pela população indígena brasileira. “Fico muito contente pelo convite da Ecofalante. Há muito tempo que não vejo esse filme e, infelizmente, ele ainda é muito atual”, comentou.

Ao longo da programação, além das exibições, haverá também debates com os diretores de filmes.

 

Educação e cinema

A jovem Nathalia Henrique, de 21 anos, acredita na proposta educativa da Mostra. “A gente fica com a expectativa que [o evento] seja muito legal e que leve educação sobre o tema para todos os lados, que as pessoas tenham consciência com esse tipo de festival, do que está acontecendo pelo mundo.”

Nathalia trabalha na SPCine, agência de audiovisual da Prefeitura de São Paulo, uma das financiadoras do festival, e pensa que “o cinema traz uma expectativa da gente levar algo novo para as pessoas.”

O evento de abertura contou com a exibição da produção francesa Amanhã (Demain), dirigido por Cyril Dion e Melanie Laurent.

 

Amanhã: Pense globalmente, aja localmente

Apesar da direção francesa de Cyril Dion e Mélanie Laurent, Demain se mantém preso à cinematografia americana. O documentário que visa abordar questões socioambientais, é dividido em capítulos, sendo cada um deles usados para tratar de responsabilidades bases da administração pública.

Utilizando-se  de uma linguagem que se interpõe entre a usada em documentários e narrativas monolíticas, o longa não apresenta grande inventividade na filmagem, ou até mesmo na edição.

O modo convencional de filmar, a escolha de um tema complexo para o grande público, em conjunto com o excesso de informações técnicas extraídas de análises, pesquisas e entrevistas,  faz com que o filme assuma um ritmo maçante.

Em análise ao aspecto ideológico do filme, vemos a essência de Dion e sua atitude Think global act Local (pense globalmente, aja localmente), presente no modo de ilustrar ações feitas em algumas cidades com o intuito de solucionar problemas ambientais presentes em diversas regiões do globo.

O filme mostra ao público, como exemplo de solução econômica biosustentável, Detroit, a maior cidade dos Estados Unidos a declarar falência, que conseguiu manter sua economia local ativa através das chamadas urban farming (agricultura urbana). Além de gerar emprego aos locais, a prática garante uma relação mais estreita entre os fazendeiros e o cultivo.

Demain está muito além de um nível crítico e otimista em relação ao amanhã. É também pedagógico, já que expõe ao cinema toda a complexidade necessária para um futuro sustentável. Amanhã é um documentário essencial para entender como o indivíduo é capaz de melhorar o que ainda está por vir.