Inauguração do Sesc Paulista ou concentração cultural?

Por Jonathan Moreira, da Agência Jovem de Notícias de São Paulo (SP)

 

Neste dia 29 de abril o SESC inaugura mais uma de suas unidades. Dessa vez é a Avenida Paulista que recebe espaço de cultura, arte, esporte e tecnologia.

A Paulista, como sabemos, já concentra diferentes espaços culturais da cidade, compondo cenário de contraste em relação a diversos locais da capital paulista, que sofrem com a falta de políticas públicas e equipamentos culturais.

Hoje saí de casa, no extremo sul da cidade, a caminho da inauguração da nova unidade. Desci na estação Consolação do metrô e vim a pé até o prédio charmoso que abriga a sede do SESC Avenida Paulista.

Nesses apenas dois quilômetros de caminhada, passei por alguns vários espaços de lazer e cultura, como o Instituto Moreira Salles, o Parque Trianon, o Museu de Arte de São Paulo – MASP, a FIESP, o Itaú Cultural e a Casa das Rosas, além de cinemas, livrarias, ciclovias, mirantes, entre outras atrações.

Estar em um lugar com tantas opções é incrível, mas essa não é a realidade de toda a capital paulista. Existem distritos extremamente populosos que não contam com nenhuma biblioteca pública, nenhum centro cultural, parque ou sala de cinema. Temos duas realidades contraditórias, uma com grande concentração de bens culturais e outras tantas com injustificável escassez ou precariedade de acesso a esses direitos.

Recurso público para que público?

Os recursos que mantêm o SESC são públicos, oriundos de tributos arrecadados pelo governo e repassados às entidades privadas do chamado Sistema S, como o Sesc, o Senac e o Senac, responsáveis pela disponibilização de serviços de educação, cultura e lazer para trabalhadores do setor, seus dependentes e o público em geral.

Logo, toda a classe trabalhadora do sistema S e suas famílias têm o direito de acessar as unidades do SESC. Mas a distância dos locais onde estão em relação às periferias, onde vivem grande parte desses trabalhadores, colocam esse direito em xeque ao criar dificuldades práticas para o acesso.

A programação e os diversos serviços do SESC são multiculturais e de extrema qualidade. Na inauguração da unidade avenida Paulista, por exemplo, temos atrações negras, funk, rap, tecnologia, música, arte, performance… Mas será que estas populações conseguem acessar esse espaço com facilidade e assiduidade?

Eu gasto em média R$ 14,00 para chegar até a Avenida Paulista, fora despesas com alimentação ou, como minha mãe diz, “o dinheiro pra tomar um sorvete”. Esses custos são viáveis para um trabalhador do comércio ou do serviço e sua família?

Tudo isso me fez pensar sobre a importância de o SESC colocar em pauta a distribuição democrática de suas unidades pela cidade, levando em conta as demandas das regiões periféricas e mais afastadas do centro. Ademais, conversar com grupos que residem nesses espaços é um grande avanço, pois eles já produzem uma quantidade imensa de cultura, entretanto, falta de incentivo é um imenso impasse para maiores estruturações. Enquanto o SESC não vai às periferias, elas têm que vir até o SESC.

 

Este texto é resultado da cobertura educomunicativa da inauguração do SESC Avenida Paulista, realizada por adolescentes e jovens do projeto Agência Jovem de Notícias e da Viração Educomunicação, em parceria com o Sesc São Paulo. A ação conta com a participação de doze adolescentes de toda a cidade,  com o apoio de profissionais da Viração.