Sertão a espera de chuva: jovens do sertão do Nordeste se veem obrigados a mudar para a cidade

Jovens são ‘forçados’ a deixarem suas comunidades em busca de outras oportunidades nos centros urbanos

Texto e foto: Rones Maciel, Virajovem de Fortaleza (CE)

Ilustração: Manuela Ribeiro

Tom Jobim cantou os versos: “São as águas de março fechando o verão/ É a promessa de vida no teu coração” (Águas de Março). Março chegou e com ele a chuva não caiu ainda na comunidade de São João Velho, que fica no sertão central do Ceará, no município de Quixeramobim, a 240 km de Fortaleza. Assim como em muitos municípios do Estado que estão com seus níveis dos reservatórios de água abaixo do esperado para esta época, a comunidade sofre com a estiagem. Por isso, tem sido abastecida por carro-pipa.

Dos 184 municípios cearenses, 174 declararam no ano passado estado de emergência devido à seca que afeta tanto a produção de alimentos na agricultura familiar quanto à criação de animais, que sofrem, e em alguns casos, estão morrendo por falta de água.

Se a chuva não vem, muitos agricultores se agarram à fé e esperam, segunda a crença religiosa, que chova até 19 de março, data em que se celebra o Dia de São José, santo padroeiro do Ceará. Segundo a tradição, se não chover até esse dia, não se terá um inverno chuvoso. Mito ou religiosidade, o certo é que choveu em mais de cem municípios do Estado. Com isso, se renova a esperança que a chuva venha a cair com mais vontade nos próximos meses.

Não são apenas os adultos que sentem os efeitos da seca, os jovens também começam a sentir a ausência de água e de políticas públicas de combate aos problemas causados pela estiagem, que faça com que a juventude permaneça no campo. A falta de expectativa faz com que os jovens deixem a sua comunidade, provocando um intenso êxodo rural.

Para muitos jovens da comunidade de São João Velho, assim como muitas outras, o êxodo rural sazonal “forçado”, acaba sendo uma forma de ter alimento na mesa durante o período de estiagem. O jovem Everilton Saraiva, de 20 anos, está indo morar na cidade de Quixeramobim para trabalhar em uma cooperativa de calçados – a única opção para muitos jovens da região. Deixar família, amigos e a comunidade onde cresceu não é fácil, mas não tem opção. “Por falta de trabalho, e melhores oportunidades, tive que ir embora. A falta de chuva prejudica o único meio de sobrevivência do campo, que é a plantação”, ressalta o jovem.

A presença de meninas é bem maior que a de meninos em São João Velho. Elas também estão deixando o campo em busca de renda na zona urbana. A jovem Gerliane Neres, de 18 anos, deixou as raízes de onde nasceu e correu para buscar outras oportunidades na cidade.

“Por falta de um ganho, estou indo morar na cidade em busca de trabalho. O que sinto mais falta é dos amigos, da liberdade de sair à noite, e principalmente, do sossego do campo”, diz ela, já sentindo as dificuldades da vida urbana.

Segundo a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), a previsão climática para os meses de março a abril no Ceará aponta para a probabilidade de 40% das precipitações de chuva ficarem abaixo do normal. O Ceará, assim como outros Estados que fazem parte do bioma da Caatinga, na região semiárida, atravessam a pior seca dos últimos 40 anos, segundo especialistas e registros históricos.

A canção Súplica Cearense, interpretada por Luiz Gonzaga, que tão bem cantou nas suas diversas músicas a riqueza, a beleza e também o sofrimento do homem e da mulher sertaneja, traduz a angústia que a seca ainda promove no sertão do nordeste.


Eu não deixo o meu Sertão

O “tempo bonito pra chover”, como se fala no sertão, faz com que a esperança na chuva venha, molhe a terra, que há meses não vê água, vai movendo os sonhos dos sertanejos. A chuva pode até não vir, mas a luta continua e nem todo mundo está disposto a deixar suas raízes e convivências para se arriscar na cidade. Confira dois depoimentos que atestam o desejo da juventude de permanecer no sertão.

“Estou cursando Pedagogia e trabalho na sede do distrito de Lacerda, com o projeto Mais Educação, na única escola de nível fundamental II do distrito. Acho que a seca faz com que muitos jovens que trabalham na roça com seus pais, para poder no fim do mês ter uma renda mensal, procurarem trabalho na cidade. Uma forma de ter uma vida digna no campo seria cursar uma faculdade de agronegócio ou de veterinária, mas o governo também teria que investir, criando projetos para manter os jovens no campo”. Raiane Maciel, 21 anos.

“Continuo morando na minha comunidade, porque onde eu moro tenho um emprego digno, que dá para ajudar a minha família e não preciso ir morar em outro lugar. A seca pode sim ser um dos motivos que faz com que jovens como eu possam deixar a comunidade. Muitos vivem da agricultura, ajudando os pais, e com a falta de chuva precisam procurar outros meios de sobrevivência. O estudo seria a melhor forma de nos manter aqui, fazendo uma faculdade que nos ensine a trabalhar com o campo e ter os mesmos prazeres que a cidade oferece”. Karliane Alves, 21 anos.