Projeto fortalece a atuação em redes da juventude rural no semiárido cearense

Que o Brasil é diverso, isso todo mundo já sabe. Porém, em meio a toda essa diversidade, encontra-se uma outra, talvez bem maior: as juventudes. Pensar em separá-las é tão difícil quanto juntá-las. Talvez uma ideia boa seja a atuação em redes, que não chega a ser novidade, mas que pode ser colocada em prática.

Inspirada nessa ideia e em iniciativas de países da América Latina e Caribe, como Colômbia e El Salvador, jovens rurais de quatro territórios do estado do Ceará se reuniram, de 27 a 29 de março, em Fortaleza (CE). Eles assumiram o desafio de promover um espaço de construção coletiva para a criação de uma rede de jovens do Semiárido cearense.

O encontro, que aconteceu no Centro de Formação Frei Humberto/MST como iniciativa do Projeto Paulo Freire e da Procasur – América Latina e Caribe, reuniu experiências de projetos e programas de desenvolvimento rural, em cujos processos o jovem é peça importante.

A iniciativa é resultado do intercâmbio realizado no ano de 2016 por representantes do Ceará, através do Projeto Paulo Freire. O grupo conheceu as experiências dos países Colômbia e El Salvador, com as redes de juventudes no fortalecimento do protagonismo juvenil e empreendedorismo rural.

 

A juventude rural brasileira

A juventude rural é uma parcela da população que permanece, produz e tem aprendido a conviver com os desafios de viver no campo. O Censo Demográfico 2010 (IBGE) dá indícios de que ocorreu, ao longo dos anos 2000, um aumento da permanência no campo.

Foi justamente nessa década que importantes transformações econômicas e sociais ocorreram nas áreas rurais, através de políticas públicas, conquistas dos povos e movimentos sociais organizados.

Porém, a juventude rural enfrenta o desafio não apenas na conquista de seu lugar no espaço rural, mas também na disputa de seu lugar no âmbito das juventudes. É preciso criar mecanismos e ampliar as estratégias de atuação de instituições e políticas para a permanência destes jovens no campo, que somam 8 milhões, de acordo com o Censo 2010.

A garantia de renda, apesar de fundamental, não é o único fator influente na decisão de ficar ou sair do campo. Questões como inclusão digital, acesso à educação, à cultura, ao esporte e à saúde, condições básicas de cidadania e qualidade de vida, também são consideradas.

 

Construindo redes para o protagonismo das juventudes rurais

Para discutir e fortalecer essa permanência e atuação no campo, cerca de 28 participantes, entre jovens, instituições executoras, movimentos sindicais e governos, debateram e sistematizaram vivências e experiências no âmbito das juventudes rurais durante o encontro.

A oficina “Construindo redes para o protagonismo das juventudes rurais no Semiárido cearense”, realizada durante os dois primeiros dias do encontro em Fortaleza, reuniu no mesmo espaço jovens e instituições dos territórios Cariri, Inhamuns-Crateús, Sobral e Vales do Curu-Aracatiaçu, com foco na sistematização das experiências de jovens do Ceará, e na formatação de uma rede de juventude rural.

A oficina foi mediada pela chilena Rita Borquez, integrante da ONG Procasur.

“Devido à amplitude do Brasil, existem boas iniciativas, mas que precisam ser melhor articuladas. Vamos levar boas experiências daqui, pois trabalhamos também em territórios rurais na América Latina. A ideia é continuar nessa linha, trabalhando articulado, com aprendizagens e trocas de experiências”.

Além de formatar e fortalecer a rede de juventude rural, um dos objetivos do encontro foi criar e impulsionar a atuação dos e das jovens à frente das questões que venham contribuir no desenvolvimento do campo, mas com a cara do “novo” jovem rural.

Esse novo jovem rural não está ligado somente à agricultura tradicional, é também um jovem conectado, sensibilizado à igualdade de gênero, às diversidades sexual e religiosa e à cultura tradicional.

 

Intercâmbio de saberes

O último dia de encontro foi dedicado ao intercâmbio de experiências entre jovens da comunidade de Sítio Coqueiro, no município de Itapipoca, a 136 km de Fortaleza.

O intercâmbio, divido em três momentos, contou com apropriação da história de lutas e conquistas da comunidade, uma breve exposição do processo de beneficiamento do coco e da produção da farinha de mandioca. A juventude participa diretamente dos processos de produção das experiências apresentadas.

O grupo de jovens da comunidade de Sítio Coqueiro é composto por nove jovens, que por meio da arte e da cultura, disseminam a história local e fortalecem as garantias de direitos que vieram com a terra. O grupo cultural Balanço do Coqueiro é uma das estratégias dos jovens de manter viva a cultura local, envolvendo as gerações mais novas.

Uma das trocas realizadas entre os jovens se deu através de uma experiência de comunicação comunitária. No Assentamento 10 de Abril, localizado no município de Crato (região do Cariri), existe um grupo de Comunicação Popular que realiza o projeto A Voz da Juventude, uma rádio local e independente.

Grupo cultural Balanço do Coqueiro

A Voz da Juventude atua nos eixos da agroecologia, da gestão associativa e da comunicação comunitária. No eixo da comunicação comunitária e popular, os jovens participam de oficinas formativas em técnicas na produção de conteúdo informativo, como produzir notas, entrevistas e reportagens.

Além das oficinas práticas de locução e edição, a programação da rádio abrange as questões locais, além de inserir as crianças e as pessoas “mais experientes” para participarem deste projeto popular, que é a comunicação .

A troca de experiências entre jovens de diversas regiões do Ceará foi muito valorizada pelos participantes. Para José Antônio, do Assentamento 10 de Abril, o momento foi importante para buscar parcerias em conjunto com instituições e movimentos sociais, fortalecendo e multiplicando a luta pelos direitos da juventude no campo.

“Pra mim, é muito importante estar neste momento, para que possa me fortalecer, e quando chegar na minha comunidade repassar o que aprendi, para que possamos colocar em prática”.

O evento também supriu as expectativas da coordenadora geral do Projeto Paulo Freire, Iris Tavares, que prioriza inserir a agenda das juventudes na pauta do Estado, dos municípios e das comunidades, na perspectiva de que a juventude rural alcance autonomia e empoderamento.

“Ainda temos uma ausência da juventude nestes pontos de liderança”, afirma Iris, “e o Projeto Paulo Freire tem como propósito colocar esse jovem como norteador neste processo, inclusive na inclusão econômica, cultural, ambiental”, destaca.

Maria dos Navegantes dos Reis, coordenadora de juventude da Fetraece, região Sobral, também leva do encontro experiências transformadoras. “A ideia, é que possamos estimular a atuação produtiva no campo, em especial, organizada pela juventude e no aspecto agroecológico. A gente leva dessa oficina muita motivação para trabalhar com a nossa juventude”.

O empoderamento da juventude rural no Brasil ainda é um desafio. A promoção do acesso deste segmento aos espaços de discussão sobre juventude e políticas públicas é essencial para que, se assim desejarem, possam permanecer no campo, tendo condições básicas de cidadania e qualidade de vida.

 

Projeto Paulo Freire

O Projeto de Desenvolvimento Produtivo e de Capacidades, Projeto Paulo Freire, tem como propósito reduzir a pobreza e elevar o padrão de vida de agricultores e agricultoras familiares de 31 municípios cearenses, através do desenvolvimento do capital social e humano e da produção sustentável para aumento da renda, a partir de fontes agrícolas, com foco prioritário nos jovens e mulheres.

Procasur

O Procasur é uma organização especializada no desenvolvimento e disseminação de ferramentas, metodologias e processos de gestão efetiva do conhecimento. Atua desde 1996 e facilitou oportunidades de aprendizagem em mais de 35 países da América Latina, África e Ásia, fomentando processos de cooperação Sul-Sul, tendo os talentos locais como eixos fundamentais para a geração e a disseminação do conhecimento.