A auto-revolução das mulheres negras veio para te AFROntar

Você já sentiu o chão tremendo debaixo dos seus pés? Se ainda não, siga o conselho de Anita e “PREPARA”!  Porque existe um movimento forte e intenso acontecendo. E é basilar… vem do chão, das bases, das RAÍZES. Já está abalando e promete romper com as estruturas de uma sociedade que carrega, mundialmente, a fama de pacífica, desprovida de preconceitos e aberta a todas e todos, mas que se revela machista, racista e misógina na vida real.

E eu falo de um lugar onde isso se mostra, literalmente, clara, vergonhosa e estatisticamente: Vitória do Espírito Santo – a capital que mais mata mulheres (e 77% dessas são negras!) no país, de acordo com o Mapa da Violência divulgado em 2015.

Grafico mapa da violencia

Por isso, nesse meu texto de estreia enquanto correspondente da Agência Jovem de Notícias pelo estado do ES, eu, preta que sou, resolvi que precisamos falar sobre o assunto. Mas não do ponto de vista da derrota e dos homicídios.  E sim do ponto de vista da RESPOSTA, da RESISTÊNCIA e de uma AUTO-REVOLUÇÃO que é preta e crespa, das coxas grossas, das ancas largas, com um nariz poderoso e uma boca que não vai mais se deixar calar facilmente. Por que ela precisa dizer que apesar de sermos, obviamente, desejáveis, ACABOU A ERA DE VENDEREM NOSSA IMAGEM de maneira SUBALTERNA e/ou HIPERSSEXUALIZADA.

Hoje mulheres negras já ocupam, ainda que com “sangue, suor e lágrimas”, todos os espaços. Estamos na cozinha, sim (e com muito orgulho)! Mas também à frente dos Tribunais, nas diretorias e presidências, somos ministras, diplomatas, médicas, modelos, protagonistas das novelas, jornalistas, advogadas… SIM! Conhecemos nossos direitos! SIM! Sabemos a diferença entre RACISMO e PRECONCEITO. SIM! Permanecemos felizes nos guetos, mas também nos expandimos e continuaremos repartindo umas com as outras nossos saberes até que ninguém possa mais nos parar.

Foto: Márvila Araújo
Foto: Márvila Araújo

Ainda somos poucas em lugares de destaque, mas o coração da mulher negra é uma terra tão fértil, que qualquer gota de representatividade faz brotar esperança e semente de sonho, faz germinar.

Empoderamento – De fora pra dentro.

Talvez você já tenha ouvido falar no termo “empoderamento” da mulher negra. Esse termo, no Brasil, é tão novo que até hoje, quando escrevo, o corretor de texto não reconhece e  grifa de vermelho pra me alertar. E, curiosamente, sugere que eu coloque “empoeiramento” ou “empedramento” no lugar.

Mas Elis Gonçalvez, preta, trançadeira desde os 14 anos, cabeleireira e estudante pedagogia, que perdeu uma filha devido ao descaso sofrido na recepção da maternidade por ser negra, e que apesar da dor imensa que perdura, hoje ensina as meninas de sua comunidade a trançar cabelos para que complementem sua renda, reconhece o empoderamento ao perceber que as meninas negras com quem ela compartilha seus saberes “estão sendo mais auto- afirmativas, de forma a expressar sua opinião sem medo”.

Márvila Araújo, preta, que aos 25 anos e um pouco mais de um ano de carreira, já é uma das fotógrafas de maior destaque no estado do Espírito Santo, reconhece o empoderamento quando, utilizando sua fotografia como forma de militância, ela trabalha a autoestima da mulher negra, ajudando-a a reconhecer-se como tal, e percebe que “a mulher negra está criando cada vez mais autonomia que a ela sempre foi negada. Está conhecendo sua história, reconhecendo sua ancestralidade africana e reafirmando sua negritude. A autoestima da mulher negra tem aumentado graças ao movimento de luta que muitas mulheres negras tem feito nas ruas e redes sociais, mostrando o quando seus cabelos crespos são lindos, suas peles são maravilhosas e que seu valor é muito maior do que é imposto pela sociedade”.

Para Priscila Gama (34), preta, blogueira e presidente do Instituto Das Pretas, que promove encontros e outras ações de fortalecimento da identidade da mulher negra e seu núcleo familiar (dentre elas o Quilombinho – 1ª Colônia de Férias 100% Afrocentrada do Brasil), “essa coisa de assumir a estética é um primeiro passo, que já foi dado. E logo em seguida as mulheres negras acabam se reconectando com uma história e ancestralidade que nos foi sequestrada nesse processo histórico e político de embranquecimento do país. Porque o empoderamento é um caminho. Ninguém é 100% empoderado. Enquanto você se empodera, você vai empoderando outros e, então, você absorve mais do empoderamento na sua vida”.

Foto: Márvila Araújo
Foto: Márvila Araújo


Ou seria de dentro pra fora?

Esse processo de auto empoderamento da mulher negra é muito íntimo. Em algumas mulheres se revela, através da estética, de fora pra dentro. Em outras é preciso mudar algo lá no fundo do peito primeiro para que mudança se torne, de alguma forma, mesmo que não estética (muitas vezes de atitudes e posicionamentos) visível a quem vê de fora.

Mas não faltam na caminhada companheiras dispostas a abraçar umas as outras, seja qual for o caminho a ser tomado. Ruth Vieira dos Santos (39), preta, professora de educação infantil, conta que como mulher negra que assume seus cachos armados, consegue contribuir para que as meninas negras que a vêem como referência cresçam mulheres empoderadas. Mas além disso, ela criou um grupo no Facebook , o Divas Cacheadas ES, curtido até agora por 2.035 mulheres que Ruth faz questão de frisar que “não são seguidoras, são amigas”,  onde compartilha histórias e informações “que mexa com a estrutura de uma mulher e mexa ao ponto de ela ter um ato que revolucione sua própria vida”, diz.  Para Ruth, “não é só você chegar e colocar um cabelo numa mulher… arrumar uma mulher… você tem que arrumar meios de melhorar a auto-estima dela, de dentro pra fora. Porque enquanto uma de nós, mulheres já empoderadas, está gravando um vídeo para falar do cabelo, tem mulheres negras sendo espancadas e mortas por seus parceiros, de quem não conseguiram se desvencilhar por não conhecer seu verdadeiro valor interior”.

Foto: Márvila Araújo
Foto: Márvila Araújo

Sobre isso, a assistente social e diretora técnica do Instituto Das Pretas, Meyrielen de Carvalho Silva (34 – preta) aponta que, realmente, “temos um desafio enorme porque as mulheres negras são as que estão mais vulneráveis à violência, à dificuldade de inserção no mercado de trabalho, por terem menos escolaridade, e isso por diversos motivos. Então eu enxergo o cenário como caótico. Temos muitas conquistas, sim, mais ainda há muito que se fazer.  As mulheres negras estão, de fato, morrendo por conta da violência e do não acesso ou acesso dificultado aos serviços de saúde, e, além disso, as políticas públicas não chegam até essas mulheres de forma eficaz. Então, a meu ver, é preciso levantar bandeiras de luta pelo direito à vida e também pelo direito à escolarização e a inserção no mercado de trabalho”.

E quando a gente fala em especial sobre essa questão do mercado de trabalho, também há muito ainda a ser feito. Porque as mulheres negras que conseguem melhores cargos no mercado de trabalho têm que despender uma força muito maior do que as mulheres não negras para se manter. Então essas mulheres pagam muito alto pelo preço dessa conquista. E na maioria das vezes elas tem que abdicar do lazer, da realização de uma maternidade, de um namoro, de um casamento…porque precisam comprovar essa sua competência profissional, e tem que lidar com o preconceito e a discriminação racial que a gente chama de racismo institucional”, completa Charlene Bicalho (34) , preta, gestora cultural que atualmente dirige o teatro mais importante estado do Espírito Santo, e é idealizadora e realizadora do Projeto Raiz Forte, que acaba de inaugurar o primeiro Espaço de Criação AFROcentrado da grande Vitória.

Por conta dessas constatações que apontam que, embora as mulheres negras estejam se auto empoderando e revolucionando a si mesmas e a tudo ao seu redor, ainda há muito chão pela frente, é que essa auto revolução da mulher negra precisa e merece ser pautada na nossa sociedade por todos os meios e em todos os níveis. Para, além de fortalecer essas mulheres, se possível, possamos acabar com a invisibilidade da luta que é diária. E mata.

E é tocante notar que mesmo diante de todos esses fatores que tornam esta batalha grande, as mulheres pretas avançam, não sem rasgos na pele e na alma, porém resolutas e perseverantes, até que a igualdade de direitos e oportunidades se torne real.

E porque “só sou porque todas nós somos”, além de ter dado voz a elas nessa matéria como merecem, quero fechar esse meu texto de estréia com falas delas também.

Charlene Bicalho diz que “a realidade de cada mulher é ressignificada à partir do seu auto-movimento, do seu movimento próprio. E à partir disso pode ser que outra mulheres se incomodem ou se sintam provocadas a ter uma mudança de pensamento ou até mesmo de atitude”.  Então, quero encorajar a cada mulher negra que está lendo essa matéria: MOVA-SE!

MAS NÃO SIGA SÓ! Porque como diz, Meyrielen de Carvalho Silva, “a gente só empodera alguém e só combate esse processo de racismo e de desqualificação das mulheres negras, quando a gente faz isso com os nossos pares. Sozinhas nós não vamos conseguir. Então precisamos agir de forma coletiva”.
UBUNTU!

 

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Nota de rodapé: Segundo o IBGE o número de pessoas NEGRAS é a soma entre as pessoas que se declaram PRETAS e as pessoas que se declaram PARDAS. Todas as mulheres que fizeram parte dessa matéria se reconhecem PRETAS, sendo negras ao mesmo tempo.