ZAC – Zona de Ação Climática. Um espaço para reinventar as regras do jogo

Daniele Saguto, Agência Jovem de Notícias (www.stampagiovanile.it)

Este é o terceiro ano em que participo das COPs – e o fato de que boa parte da sociedade civil sinta a necessidade de organizar um evento paralelo e, muitas vezes, em nítido contraste com o oficial, sempre me fez refletir sobre a distância percebida pela população em relação às decisões tomadas no interior das negociações.

Gostaria de declarar, desde já, que sempre me senti mais confortável do “lado mais fraco da corda”, aquele onde se grita, onde se abraça, onde se arde com obstinação e paixão.

No passado, este evento foi chamado de Cúpula dos Povos ou Summit dos Povos. Este ano, talvez para destacar a necessidade cada vez mais urgente de agir, decidiu-se nomeá-la ZAC – Zona de Ação Climática.

Foi organizada pela Colition Climat 21, criada em 2014 a pela RAC (Climate Action Network France), o CRID (Development Research and Information Center) e a Attac France.

Ela decorre do desejo de responder ao fracasso da COP em Copenhague, em 2009, e ao “sequestro”, protagonizado pelo governo polonês, da Conferência de Varsóvia em 2013, devido à pressão dos lobbys industriais e do carvão, o que levou as ONGs a abandonarem a COP antes de sua conclusão.

A coalizão é formada por mais de 130 organizações da sociedade civil. Com ela colaboram sindicatos, associações de solidariedade internacional, organizações religiosas e ONGs em defesa dos direitos humanos e ambientais, assim como diversos movimentos sociais.

A ZAC (Zona de Ação Climática) é realizada no espaço de exposição 104 – CENTQUATRE, de 7 a 11 de Dezembro, e foi concebida como um lugar de criação política e artística em conjunto-oposição à conferência oficial de Le Bourget.

É a terceira vez que os cidadãos são chamados a se mobilizarem pelo Clima após a Marcha Global de 29 de Novembro, que teve sua dimensão e força muito diminuída pelas medidas de hiper-segurança tomadas pelo governo francês – que tem explorado o estado de tensão criado após os atentados de 13 de novembro para reprimir os protestos (estratégia usada com muita frequência para justificar a suspensão momentânea ou permanente de direitos fundamentais, e em primeiro lugar da liberdade de expressão) e após o Summit dos cidadãos organizados no fim de semana passado em Montreuil.

A ideia básica destes dias de ação coletiva é aproveitar a atenção da mídia e da política sobre Paris para reunir o maior número possível de cidadãos e lançar um movimento forte por justiça social e ambiental, com objetivos comuns em nível international.

O ambiente dentro da ZAC é agradável e há boa participação (o número de participantes nos três primeiros dias ultrapassou dez mil pessoas). Todos os dias são organizados debates e discussões, exibições de filmes, concertos ao vivo, ações simbólicas e performances além de oficinas para desenvolver tecnologias alternativas e divulgar e aplicar práticas de desobediência civil. São mais de 150 eventos programados ao longo de cinco dias.
A ZAC tem também um papel importante na geração de informação. São muitos os jornalistas e meios de comunicação independentes que decidiram utilizar o Media Center criado dentro do espaço 104 como um ponto de partida para gerar, trocar e divulgar informações. É inclusive daqui que estou escrevendo no momento.

Foi criada também uma rádio popular com a colaboração editorial de diferentes emissoras independentes da Rede de Rádio Campus France: Good Cop Bad Cop.
Todas as noites, as atividades terminam com uma reunião geral em que, além de resumir o que foi feito no dia e planejar as atividades do dia seguinte, comentam-se e discutem-se as últimas atualizações sobre as negociações realizadas na COP.

Conversei com alguns dos organizadores do evento e com pessoas que vieram para a ZAC das mais diversas partes do globo e, apesar das diferenças óbvias em relação à educação política, às estratégias de ação implementadas, aos modos de pensar e estilos de vida, todos concordam com a ideia de que a luta pela justiça climática não pode terminar na Cúpula de Paris – inclusive porque, dentro dela, será difícil sair do paradigma neoliberal monolítico. Basta dar uma olhada rápida nos patrocinadores que apoiam o COP para perceber isso (não é uma questão de ceticismo, mas de realismo).

As negociações, embora constituam um passo importante, certamente não serão a solução para as alterações climáticas e para as consequências sociais que elas necessariamente trarão.

É impensável que os mesmos governos e grupos de poder que consideram a natureza uma mercadoria a ser trocada nos mercados financeiros, os mesmos que lucram com a construção de grandes obras desnecessárias e devastadoras em nível ambiental e humano, que são sustentados e apoiados em suas campanhas políticas por bancos e multinacionais, que rejeitam refugiados e ecorrefugiados nas entradas de suas fronteiras-fortalezas e que escolhem, como solução ao terror criado em casa, a militarização e a guerra em outra parte do mundo (em extremo ato anti-ecosistêmico), possam, de repente, decidir mudar de rumo e subverter as regras do jogo, a essa altura já tão naturalizado em nossas sociedades.

Dentro da COP, se joga com essas as mesmas regras e quem ganha, nós sabemos, são sempre os mais “fortes”.