Carne fraca, propaganda forte: como a indústria alimentícia afeta os jovens

|Por: Laura Castanho, da Jornalismo Jr. | Imagem: Reuters

No mês passado, a polícia federal (PF) deflagrou a Operação Carne Fraca, que apontou irregularidades na carne produzida em unidades de grandes frigoríficos do país. Eles teriam pago fiscais do Ministério da Agricultura para liberarem produtos estragados e com certificados adulterados.

As empresas em questão negaram realizar tais práticas, mas isso não bastou para mudar sua imagem aos olhos do público: a operação, que resultou em mais de 40 pedidos de prisão, mostrou como se tem pouco conhecimento da realidade dos alimentos no Brasil e a pôs em xeque com o que as propagandas mostram.

“A relação de confiança entre as marcas de alimentos industriais e o consumidor, tanto no Brasil como em outras geografias, é extremamente frágil”, afirma Nicolás Linares, pesquisador em publicidade na Escola de Comunicação e Artes da USP. A razão para isso seria, segundo ele, que as pessoas têm cada vez mais consciência de como os alimentos são produzidos, e também dos impactos ambientais e da dimensão política e econômica da indústria.

Ele acredita que a Carne Fraca reflete “as falhas de um sistema de produção de alimentos que prioriza sempre a superprodução”, mas que ainda é muito cedo para saber as consequências a longo prazo da operação.

A primeira atitude das empresas foi enviar comunicados a todos veículos de mídia, desviando-se das acusações. Na semana seguinte à divulgação da operação, elas compraram anúncios de página inteira em todos os grandes jornais.

Alma do negócio

O uso intenso de publicidade pelos frigoríficos, logo após a notícia da Carne Fraca estourar, mostra a dimensão da relação entre propaganda e alimentação no país. Quando se trata de crianças e jovens, a linha é ainda mais tênue — afinal, o país tem aproximadamente 40 milhões de crianças; ou seja, quase um de cada cinco brasileiros tem até 12 anos de idade.

“Existe um correlação entre as estratégias publicitárias de marcas e empresas de alimentos industrializadas e as mudanças dos hábitos alimentares, especialmente nas crianças“, afirma Nicolás. Dos vários estudos que estabelecem essa relação, ele se baseia especialmente em uma pesquisa das nutricionistas norte-americanas Mary Story e Simone French.

Ekaterine Karageorgiadis é coordenadora do programa Criança e Consumo, que busca — entre outras coisas — chamar atenção para esse problema. “Quem tem o poder de compra são os adultos. Mas a mensagem fala com a criança”, conta. “A principal consequência é o estímulo ao consumo excessivo, habitual e desde muito cedo.”

Ela acredita que essa relação pode ser especialmente problemática para as crianças. “A comunicação mercadológica tenta surtir um desejo de consumo na criança, que ainda não consegue compreender que aquela mensagem tem como objetivo vender produtos”, diz Ekaterine. “Ela ainda não desenvolveu autonomia.“

A estudante Ana Luísa Britto, de 16 anos, diz que tenta comer bem no dia-a-dia, mas que isso nem sempre acontece. E sabe que a publicidade tenha um grande peso nisso. “Se [a comida] tiver uma cara muito boa, eu compro”, afirma. “Mas é claro que vai ter cara boa, é uma propaganda!”

Um peso para a saúde pública

Para Carina Schena, nutricionista responsável por atender os alunos de uma escola particular em Santos, litoral de São Paulo, a publicidade de alimentos voltada para crianças pode ser particularmente perigosa também no campo da saúde. “Têm sempre comerciais de alimento [nos intervalos de desenhos animados] pra que ela veja e chegue pra mãe e diga que quer aquilo na lancheira.”

Carina trabalha com crianças desde o berçário, até adolescentes que cursam o ensino médio, e diz que muitos já apresentam problemas de saúde como sobrepeso, pressão alta ou variações na triglicérides. O mais comum, diz, é que eles continuem até a vida adulta.

“Antes você tinha [uma pessoa obesa] a cada onze pessoas, hoje você tem a cada cinco. E não é adulto que já tem essa consciência, a criança já está ficando obesa desde bebê.”

No Brasil, cerca de 30% das crianças têm excesso de peso, segundo pesquisa feita pelo IBGE em 2015; dessas, aproximadamente metade é obesa. E metade das crianças obesas mantém o problema conforme se tornam adultas.

“Tem uma questão estética que na adolescência é muito mais forte do que na infância, o que pode desencadear transtornos alimentares, bulimia, anorexia”, afirma Ekaterine. “[A obesidade infantil] é um problema de saúde pública, porque elas [as crianças] podem desenvolver uma série de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos.”

Ainda segundo a advogada, a obesidade não é um problema de uma causa só. “Ela é multifatorial e a publicidade é um desses fatores.”

O que fazer?

Já tem muita gente trabalhando para tornar a publicidade de alimentos destinada a crianças e jovens mais ética e menos nociva. O trabalho de Ekaterine no projeto Criança e Consumo envolve chamar a atenção do poder público, das empresas e da mídia para essa questão. Isso ocorre de várias maneiras: a organização promove desde campanhas a ações jurídicas para barrar esses anúncios.“Nossa discussão aqui não é o fim da publicidade de produtos infantis, mas que essa publicidade de produtos infantis seja direcionada aos adultos“, afirma.

E não são só as instituições que podem trabalhar para melhorar este cenário. As escolas podem contratar nutricionistas e se recusar, por exemplo, a sediar eventos realizados por marcas. No plano de políticas públicas, há também muitas cidades que adotam instruções normativas — um tipo de lei composto por várias regras pontuais — sobre o tipo de comida que suas escolas devem servir. No Paraná, por exemplo, as escolas municipais e estaduais devem se reunir periodicamente, por lei, com produtores agrícolas familiares.

A melhor solução ainda é que os pais deem o exemplo. “Quanto mais cedo você libera o industrializado pra criança, mais cedo ela rejeita a fruta, o legume”, afirma Carina. “Às vezes esse trabalho é difícil porque o pai e a mãe acabam desistindo de primeira. Acaba virando uma rotina”.