Agrotóxicos no Brasil: da indústria bélica à indústria alimentícia

Por Gabriela Bonin e Luciana Cardoso da ;Jornalismo Jr., empresa júnior da Escola de Comunicação e Artes da USP/Foto: Jonas Oliveira/ AEPR

Os agrotóxicos, também chamados de defensivos agrícolas, são produtos químicos que combatem plantas daninhas, pragas e doenças em plantações. Sua utilização teve início no século XX, muitos deles sendo modificações das fórmulas utilizadas como armas químicas na Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o uso se inicia com a Revolução Verde e introduz um panorama que, atualmente, é preocupante para a população.

O termo  “Revolução Verde” surge na década de 1970 e traz a mecanização do campo e técnicas para o aumento da produtividade. “Com objetivo de modernizar a agricultura, essa nova proposta é totalmente dependente de insumos externos que compõem este pacote agrícola: compra de máquinas, agrotóxicos e fertilizantes químicos, trazendo impactos econômicos, como o endividamento, e na saúde tanto do produtor, quanto do consumidor e da natureza”, explica Izabela Gomes, doutoranda em Geografia na Universidade Federal do Ceará.

O Dossiê ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) traz números que retratam o uso excessivo de agrotóxicos que tornam o Brasil o maior consumidor mundial. Entre os anos de 2000 e 2012, o aumento do uso nas lavouras foi de 288%. Não é à toa que o faturamento da comercialização dessa indústria no nosso país foi, em 2014, de 12 bilhões de dólares. Esses dados chegam à nossa mesa: dos alimentos que consumimos, 64% estão contaminados por agrotóxicos (Anvisa, 2013); entre 2007 e 2014, o Ministério da saúde notificou 34.147 casos de intoxicação por agrotóxico.

Malefícios para a população

Os prejuízos do uso de agrotóxicos são consequência da utilização inadequada dos produtos, como a aplicação em quantidades exageradas ou a não diluição desses aditivos químicos em água. Como a fiscalização é dificilmente realizada, os produtores acabam fazendo o uso indiscriminado, visando obter maior eficiência na produção.

“Esses agentes químicos podem ocasionar casos graves de intoxicação por contaminação direta ou indireta, que poderão se manifestar de forma aguda ou crônica, através de sintomas como náuseas, cefaleia, dermatite leve, e vertigem”, explica a nutricionista Priscila Maia Nogueira, mestre em comportamento alimentar.

Como profissional da saúde, ela defende a ingestão dos alimentos orgânicos, visando diminuir os danos químicos, mas reconhece a tendência desses produtos possuírem custos elevados. “Uma solução para minimizar os riscos à saúde é tentar priorizar e optar pelo consumo dos alimentos orgânicos citados na lista da ANVISA como os 8 alimentos mais afetados com agrotóxicos: pimentão, uva, pepino, morango, tomate, abacaxi, mamão, alface”, comenta a nutricionista. “Podemos também optar pela higienização seguida da imersão por 15 a 20 minutos em solução sanitizante e lavagem em água corrente. Essas medidas não eliminam totalmente o agrotóxico, mas a lavagem ajuda a diminuir essa quantidade do pesticida”.

Agroecologia como opção

Dentro da perspectiva de ir contra o modelo agroindustrial predominantemente voltado para as monoculturas e exportação, surgem movimentos como o agroecológico. Para a agroecologia, o estudo da agricultura é feito a partir da perspectiva ecológica, com viés social, cultural e econômico, com benefícios para o produtor, o consumidor e a natureza.

A revolução verde é o modelo de produção que utiliza sementes modificadas e práticas agrícolas para o aumento da produção se expandiu nos últimos anos “Esse modelo da Revolução Verde só causa dependência, dívidas e mortes. A agroecologia gera autonomia, diversificação e vida dos seres humanos e da natureza”, aponta Izabela, que também é pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre o Espaço Agrário e Campesinato, na Federal de Pernambuco.

Em suas pesquisas, a geógrafa apontou as diferenças que agricultores do município de Gravatá (Pernambuco) notaram a partir do uso da agricultura tradicional para a agroecologia em áreas que antes tinham o plantio de cana-de-açúcar. “Eles notaram benefícios tanto econômicos quanto da saúde deles e do ambiente. Não precisam mais se endividar para comprar as sementes, agrotóxicos e fertilizantes necessários para cada safra. Agora eles usam e armazenam sementes crioulas (sementes tradicionais).”

Izabela conta que as sementes geneticamente modificadas, além de não germinarem, tornam pequenos produtores dependentes dos  laboratórios que as produzem. “(A partir da agroecologia) foi possível também a soberania alimentar através da diversificação produtiva, pois plantam também o que comem e não apenas cana-de açúcar ou soja, por exemplo, que são commodities para exportação.”

Comparação entre os produtos

Os alimentos cultivados com aditivos químicos podem ser mais atraentes por possuírem casca brilhante e maior tamanho, enquanto os orgânicos tendem a não ser uniformes. Entretanto, com relação ao sabor, os orgânicos costumam ser mais apetitosos, devido ao maior valor nutritivo.

O gestor comercial da empresa “Orgânicos da Vila”, Claudio Uwada, afirma que os produtos orgânicos têm uma durabilidade muito maior se comparados aos produtos convencionais, já que respeitam a sazonalidade das culturas e são produzidos em seu ápice nutricional. “A produção orgânica é um sistema perfeito e justo, onde todos saem ganhando: o produtor, o cliente e o meio ambiente”.