Spray de pimenta marca a chegada do mandato provisório de Temer

Maria Camila Florêncio, enviada da AJN a Brasília (DF)

Ontem (11), após o esforço de manterem debatendo as prioridades do próximo Plano Nacional de Política para as Mulheres (PNPM), mais duas mil participantes da Conferência Nacional de Política para as Mulheres (CNPM) tiraram seus crachás e seguiram em caminhada até a Esplanada dos Ministérios.

Durante o percurso, entoaram os gritos de guerra que são conhecidos pelo movimento e improvisaram novos versos. Uma amiga me falava de como era muito triste aquele momento em comparação  com a primeira e na segunda posse de Dilma, momentos acompanhados por ela. Para muitas mulheres recém-chegadas ao movimento, aquela era a primeira lembrança de Brasília.

Após o primeiro quilometro percorrido, mais pessoas da resistência popular foram se somando. Era impossível contar. Uma aurora vinha ao fundo da caminhada e o sol foi substituído por um céu escuro sem lua. Três quilômetros e duas horas depois, as mulheres chegaram ao cerco montado pela Policia Legislativa (PL), que as revistou na altura do Ministério da Indústria e Comércio Exterior. As pessoas questionaram a necessidade daquilo, uma vez que as bolsas eram pouco revistadas e que era possível acessar aquela área contornando as laterais dos Ministérios sem cerco algum.

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O fato é que a caminhada dispersou naquele momento. Quase uma hora depois, a batucada da Marcha Mundial de Mulheres vinha acelerada. Algumas mulheres se aproximaram de outro cerco que separava a Esplanada do Congresso, na altura do Ministério da Justiça – o último Ministério à esquerda. Neste momento, a PL espirrou a primeira leva de spray de pimenta. Correria. Três mulheres passaram mal. Duas foram retiradas com maca.

Um trio elétrico com lideranças de partidos e movimentos se revezavam nas falas. Músicas populares da América Latina tocavam. Enquanto as lideranças pediam para as pessoas não se aproximarem do cerco, mais policiais chegavam em cinco grandes carros. “Corre que vai dar merda!”, disse uma amiga me puxando pelo braço. Minutos depois, mais spray de pimenta. Era sufocante. As pessoas tossiam por minutos, enquanto tapavam seus rostos com suas camisas.

À direita, após o muro que dividiu Brasília e o resto do Brasil nos últimos dias, tinha outro carro de som com luzes picantes e música de boate. Eles estavam em festa.

A situação foi ficando cada vez mais tensa. Agora, sequer permitiam que as pessoas chegassem a 10 metros de distância do cerco. Sempre que alguém se aproximava, atacavam com spray de pimenta. A terceira leva foi tão forte que se pode sentir na altura do Ministério da Defesa (a quase 500 metros) onde havia um telão. Quarta leva de spray. Pessoas assistem Aécio falar na tribuna do Senado. Cerca de 30 policiais chegavam caminhando na lateral dos ministérios. Estava impossível permanecer ali. Não fossem os fogos que ecoavam em Brasília às 6h da manhã, teria achado que tudo não havia passado de um filme terror na noite anterior.