Pega daqui, pega de lá… mas só se todo mundo estiver a fim

Por Jaqueline Magalhães, psicóloga e educadora do Programa Adolescer, para a Agência Jovem de Notícias

Ilustração de Natália Forcat/Arquivo Viração

ARTIGO – Dois blogs – Papo de Homem e Blog do Sakamoto – publicaram recentemente textos que falavam sobre algo muito comum: abusos que mulheres sofrem em diferentes lugares, cometidos por homens que se sentem no direito de usá-las para se satisfazer, independente da sua vontade. Nossa! Pesado. Pois é, parece pesado, e é de fato muito grave. Mas o mais grave é que a maioria das pessoas não considera estas situações abusivas ou violentas, o que dificulta a conversa e prevenção desse problema.

Falo das situações que acontecem em baladas, na rua, na escola etc., quando “o cara” passa a mão, fala desaforos, arranca um beijo a força, e se a menina reage, reclama ou recusa, é ofendida ou agredida fisicamente, com um soco, uma rasteira, um tapa. Pode parecer exagero, mas se você parar para pensar um pouco, provavelmente vai se lembrar de uma situação dessas que aconteceu com você ou perto de você.

Se você lembrou de uma ou de algumas situações, pode estar pensando: “mas é mesmo um exagero! Isso é super comum, e quem está na balada, ou quem coloca uma roupa mais curta, é porque está a fim de “pegação” mesmo. Não é? Não, nem sempre. Quem está numa balada pode estar a fim de dançar, de curtir com os amigos, de conversar, de ouvir um som bem alto, e também de ficar com uma ou mais pessoas. E aí leia-se: ficar com pessoas com quem ela e ele também queiram ficar, e não com qualquer um que se achar no direito “ir pegando”.

Não a toa deixamos de prestar atenção a isso, ou não consideramos estas situações como violentas. Elas combinam bem com o papel que damos à mulher e ao homem na sociedade há muito tempo. Do homem espera-se que seja o “pegador”, que tenha várias experiências sexuais, fique com quantas meninas quiser, melhorando seu “desempenho” e, claro, sua popularidade. Já da mulher espera-se que não se exponha, não saia com roupas sensuais, que não fique com vários caras, e que atenda sempre aos desejos de seu ficante, namorado, companheiro. Aí, tanto a mulher que foge ao “padrão” da menina “bem comportada” quanto o homem que não é “o pegador” viram piada do grupo, e podem sofrer ainda mais violência.

Cláudia Regina, autora de um dos textos citados, diz o seguinte: “Sei que para homens é difícil entender como isso pode ser violência. Nós mesmas, mulheres, nos acostumamos e deixamos pra lá. Nós nos acostumamos para conseguir viver o dia a dia”.

Mas o fato de termos nos acostumado não significa que deixa de ser violência e desrespeito aos direitos sexuais. Não significa que isso não tenha consequências ruins para as pessoas envolvidas. Pelo contrário, mostra que a violência está aí de forma velada, sem que se perceba muito que é disso que falamos: violação de direitos.

E mais: a gente sempre pode “desacostumar” daquilo a que nos acostumamos. Isso é essencial para mudar a realidade, para que homens parem de agir como se mulheres existissem para servi-los, e elas deixem de ficar neste lugar de servidão, como se não houvesse outro jeito.

Com isso não estou querendo dizer que homens sejam sempre assim, nem mesmo que a responsabilidade por isso seja apenas deles. Não. Somos todos responsáveis pela forma como a nossa sociedade trata homens e mulheres, pelo respeito aos direitos sexuais de ambos. A transformação depende de falarmos abertamente desses problemas, questionarmos o que parece natural, e nos posicionarmos diante de situações inaceitáveis como as que citei aqui. De fato não é simples, mas é possível e essencial.

Falando em debate, no último sábado aconteceu a Marcha das Vadias, com o tema “Quebre o Silêncio”, evento que é uma resposta à ideia de que mulheres são culpadas pela violência que sofrem. Bem o que estamos dizendo aqui.

Na semana que vem a gente volta pra falar de diversidade. A Parada Gay é neste domingo, 2 de maio!

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