[OPINIÃO] A verdadeira Páscoa não é de chocolate, é memória de libertação

|Por: Leandra Barros | Imagens: divulgação

Você já se perguntou qual é o real sentido da Páscoa? Ou o que tem o coelho, que não põe ovos, muito menos ovos de chocolate, a ver com o feriado? Ou até, o que estamos comemorando nessa data? Provavelmente sim, mas talvez você não conheça toda a história por trás da data.  

A palavra “Páscoa” vem do hebraico Pessach, que significa “passagem”.  Muitas pessoas com algum conhecimento da história do povo hebreu – nem que seja através de novelas – comumente associam essa “passagem” à travessia que o povo judeu fez através do Mar Vermelho, a pé enxuto, quando conquistou sua liberdade do Egito.

Na verdade, essa “passagem” se refere ao sangue de cordeiro que Deus, através do profeta Moisés, disse ao povo hebreu para passar nos umbrais da porta de suas casas, como identificação, para protegê-los da décima praga que estava prestes a vir sobre o Egito: o envio do anjo da morte, que levaria todos os primogênitos. Menos os das casas marcadas com o sangue.

Foi essa “passagem” de sangue que salvou da morte hebreus. E foi por perder seu primogênito, e ouvir o choro nas casas de famílias egípcias que igualmente perderam os seus, que o Faraó deixou o povo judeu partir.

Por isso, para os judeus, a “Pessach” é também chamada “Festa da Libertação”!

Segundo a História

O povo hebreu foi parar no Egito muitos séculos antes da “passagem”, quando, por conta de uma grande crise de fome, que durou sete anos, foram convidados por José, então governador do Egito. José havia sido vendido como escravo para a nação pelos próprios irmãos.

Acontece que José, filho de Jacó, neto de Abraão, o grande patriarca tanto dos Judeus quanto dos Muçulmanos, morreu no Egito. O Faraó que o sucedeu não conhecia sua história, nem a importância que José teve para o Egito, e escravizou seu povo.

Os hebreus então penaram na mão dos egípcios até que, séculos depois, nasceu Moisés. Ele era hebreu, mas foi criado pela filha do Faraó e foi escolhido pelo Deus dos judeus para libertar seu povo.

As tribos que haviam sido escravizadas no Egito correspondiam à família de José. Cada tribo era a família de um de seus irmãos, e dentre essas estava a Tribo de Judá, muito conhecida não só por judeus, mas também por cristãos e regueiros!

É… a galera do reggae vive tocando fogo na Babilônia e celebrando o Leão da Tribo de Judá – um dos nomes dados a Jesus. Porque sim! Jesus, o Cristo (que quer dizer Ungido ou Escolhido), era descendente de Judá.

O Egito, como é sabido, faz parte do continente africano e está situado em uma região muito quente e ensolarada. Assim, durante o tempo de escravidão, nasceram e morreram hebreus africanos, que se fossem brancos como os conhecemos hoje, teriam morrido de insolação enquanto praticavam trabalhos forçados.

Como assim? Judeus negros? É isso? SIM!

 

A Páscoa de todas as raças!  

Existe uma forte corrente de pesquisa que diz que os primeiros judeus eram negros. E que foram “embranquecendo” com o tempo por terem emigrado para países europeus e se miscigenado. Existem até os que dizem que esses, os brancos, não deveriam sequer serem considerados judeus, porque de acordo com a lei dos judeus, eles não podem se misturar com outros povos.

Há 18 anos atrás, um amigo meu, que era missionário em Guiné, um país africano, me disse que eu me parecia muito com as negras da tribo Fula. Eu nunca me esqueci disso… nem sabia que essa tribo existia! Mas era a primeira referência que eu tinha de meus possíveis ascendentes em África.

Mulheres Fulani no Leste de Camarões | imagem: divulgação

Passados 16 anos, quando estive na Itália pela segunda vez, em novembro de 2015, eu entrei num restaurante árabe no centro de Roma. Fui lavar as mãos e então um rapaz negro se aproximou de mim e começou, com uma expressão muito alegre, a falar comigo em um dialeto. Eu respondi em inglês que não estava entendendo o que ele dizia. Então ele me disse, em inglês, muito surpreso: “Você não é fulani [nome que se dá a quem é da tribo Fula]!?”.

Respondi que não, mas fiquei intrigada. Me lembrei imediatamente do que meu amigo havia me dito mais de uma década antes!

Então resolvi pesquisar sobre essa tribo e um artigo que encontrei dizia que

“…os Fulani ou o Fula são descendentes de Jacó, que teve o nome substituído por Deus para Israel , e era filho de Isaque, filho de Abraão. (…) O faraó que não conhecia José (…) oprimiu os Israelitas, incluindo a tribo de Judá, ou… de Fulani”.  

Uau! Agora pensa na emoção de, como cristã, descobrir que eu posso ser descendente da mesma tribo de Jesus!?

Então, vamos lá! Respira e recupera que o ponto que me leva a destacar isso é que os fulas, ou fulani, são tão negros até hoje que eu fui confundida com uma por um próprio membro da tribo! E gente, eu vi: ele era negro com força!

E se tudo isso que pesquisei for mesmo verdade – existem mais estudos que comprovam que sim, do que o contrário -, não só é mais uma comprovação de que Jesus era negão, como é também uma incrível ressignificação da Páscoa para o povo negro, especialmente no Brasil, que teve sua memória apagada e manipulada nos livros de história.

 

Comemorações para além do chocolate

Hoje, tanto os judeus (que ainda aguardam um salvador), quanto os cristãos (que acreditam que o salvador já veio, e é Jesus) comemoram a Páscoa de forma muito diferente dos que não professam essas ou nenhuma religião.

Ao invés, ou para além de comer o chocolate – no caso do ocidente -, na Páscoa original, antes de comer qualquer doce, os judeus e os cristãos fazem orações e agradecem a Deus por sua libertação.

 

Páscoa dos Judeus

Ceia de Páscoa Judaica | crédito: reprodução

Os judeus, sejam os nascidos de judia ou os convertidos ao judaísmo, seguem o ensino da Torah, e por mais que tenham acrescentado alguns outros ingredientes em sua ceia hoje em dia, tradicionalmente não podem faltar na mesa os pães asmos (sem fermento), que os recordam de que não tiveram tempo para fermentar o pão na saída do Egito, porque saíram às pressas.

Nem as ervas amargas, que são comidas com os pães asmos, e os fazem lembrar dos anos amargos de escravidão. E sobre essa mistura também usam o molho haroset, que é um molho vermelho terra, adocicado, para que não se esqueçam da argamassa que usavam e dos tijolos que seus antepassados tiveram que fabricar, com muito esforço.

Ao longo da cerimônia, bebem quatro taças de vinho, que também carregam seus simbolismos. Por último, comem a carne de um cordeiro especialmente escolhido para esta data. Para lembrar a salvação da escravidão que Deus concedeu ao povo. Durante a festa, também é feito um relato do Êxodo, porque o principal objetivo é não deixar a história se perder.

Tudo isso são fatos históricos que apontavam para o que ia acontecer depois, com Jesus Cristo.

 

Páscoa dos Cristãos

Os cristãos de qualquer raça, tribo, língua ou nação, sem distinção, são os que entendem que Jesus é “o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Que acreditam que o sangue de Jesus teve o mesmo papel que o sangue do cordeiro para os hebreus – os livrou da morte espiritual que há em ser escravos do pecado.

O pecado nada mais é do que o desejo de ser nosso próprio deus. E esse desejo, segundo os ensinos Bíblicos, foi injetado no coração dos primeiros seres humanos como um veneno, pelo “lado oculto da força”, “o côisa rúim”, “o destruidor”… Não, não foi pelo Temer! Foi por aquele cujo nome não merece ser citado.

As consequências desse veneno foram desastrosas. Se espalharam por toda a humanidade, afetando a relação de cada ser humano com o Deus criador,  com outros seres humanos e com a natureza. O desejo de ser seu próprio deus tornou o homem orgulhoso, egocêntrico e egoísta. Todos nós, em menor ou maior escala, termos o sentimento de orgulho, egoísmo ou egocentrismo, e lutarmos contra isso.

A boa notícia da Páscoa Cristã é que o sangue de Cristo, o filho do Deus vivo, é o antídoto! E esse antídoto está disponível para todxs!

E então, feitas as pazes com Deus através do sangue de Jesus, estamos finalmente livres do orgulho e podemos admitir que, esse negócio da gente se achar, deu mais B.O. do que tudo até agora. Podemos, enfim, deixar nossa vergonha de lado e dizer: “Deus, nossa tentativa de nos virarmos sozinhos foi um fracasso. Precisamos de Você”! E não ter mais que fingir que tá tudo certo, quando sabemos que está tudo errado, é libertador!

Por isso, na Páscoa, os cristãos também celebram sua libertação, que se iniciou na sexta-feira da paixão, quando o próprio Deus foi morto, literalmente em carne e osso, e, teve seu ápice no domingo da Páscoa judaica! Que se tornou, para os cristãos, Domingo da Ressurreição! O dia em que depois de vencer o pecado na cruz, Jesus também venceu a morte.

Por isso, na Páscoa Cristã não pode faltar a ceia! Porque o pão partido e o vinho simbolizam o corpo ferido e o sangue derramado de Cristo, que comprou a liberdade de todxs, com seu sacrifício.

A importância do sangue nos rituais

O sangue é um elemento muito importante, utilizado em rituais ainda hoje, por diversas religiões, como o candomblé e a umbanda, por exemplo. Porque sangue é vida! Traz em si energia vital. 

Infelizmente, hoje, por tristes e inúmeros motivos, judeus, muçulmanos, cristão de diversas vertentes e religiosos de matriz africana, não têm muito diálogo. O que gera muitos pré-conceitos e outros tipos de violência.

Assim como ainda hoje religiosos de matriz africana fazem sacrifícios de animais para seus orixás, muitos sacrifícios de animais foram feitos por judeus, à Deus, ao longo da história, embora não pelos mesmos motivos. E no cristianismo todos os sacrifícios foram substituídos pelo do próprio Deus, que se ofereceu. Logo, todos precisam ser respeitados em suas crenças e rituais.

Os cristãos às vezes não entendem porque outras religiões ainda sacrificam animais. No entendimento cristão, já não há necessidade de sacrificar a Deus uma vez que, para eles, Cristo foi o sacrifício perfeito, que, “com uma só oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados“, diz o livro aos Hebreus, capítulo 10.

Mas eu queria dar um recado aos meus irmãos cristãos: embora Jesus Cristo tenha se entregue por todxs, sem distinção, não só pelos que se consideram cristãos; o sacrifício só vale para quem crê nele! O antídoto está disponível a todxs, mas só quem se percebe contaminado pelo pecado e acredita que o sangue de Jesus é suficiente para salvá-lo vai tomá-lo. E a fazer isso, ninguém é obrigado!

Umbandistas, candomblecistas, e todas as outras religiões de matriz africana, que muitos tentam ofender chamando de macumbeiros, estão entre os que não consideram suficiente, ou não consideram que os atende, o sacrifício de Cristo. Pode parecer duro, mas é isso. Fazer o que? Aceita que dói menos.

A verdade é que hoje, o povo preto afro brasileiro mal consegue se reconhecer num Cristo que “foi sequestrado” por europeus, teve seu cabelo esticado, seu corpo pintado de branco, seus olhos descoloridos e sua imagem e discurso além de violados, expostos ao mundo por esses mesmos europeus como se fossem seus. Mas NÃO. Jesus Cristo, o Leão da Tribo de Judá, nunca foi europeu.

A verdadeira páscoa definitivamente não tem nada a ver com coelho e muito menos com chocolate. Tem a ver com revolução e libertação! E uma revolução feita pela força Divina! Quem levantou a mão em punho cerrado nessa história foi Deus, o Deus uno de judeus e cristãos! Por isso a verdadeira Páscoa é para todos, porque este Deus não faz acepção, mas vem desses!

E é importante ressaltar que também é, sim, festa de preto, porque esse mesmo Deus fez questão de não deixar os pretos de fora da comemoração. Páscoa é celebração de ex-escravos!

E é um lembrete. Um memorial para que nunca se esqueçam do que passaram e de Quem os tirou de lá, para que nunca mais voltem ao mesmo lugar, nem se coloquem novamente sobre o julgo da escravidão – externa ou internamente – nessa vida, que é eterna para os cristãos.

Infelizmente, a Páscoa, assim como quase toda a história não europeia, também foi apropriada pelos europeus e pelo capitalismo, que inventaram novas versões, mais rasas, coloridinhas e divertidas – como coelhinho da Páscoa e Papai Noel -, porque assim fica mais fácil vender.

Embranquecem toda cultura que não pertence à hegemonia que querem manter. Mas, como já dizia Jesus: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”! Lembre-se de tudo isso quando estiver comendo seus ovos, se abra para conhecer a cultura de outros povos. Você se enriquecerá.

Feliz Páscoa!