“Qual o sentido da democracia se uma mulher negra que chega ao poder é assassinada?”

Por Juliana Winkel, da Agência Jovem de Notícias na Itália

Delegação brasileira em visita ao Papa Francisco: Marielle, Direitos Humanos e Democracia

“A cultura da violência no Brasil é um reflexo de uma consolidação frágil da democracia. E o quadro político do país, desde o impeachment, corrobora esta tendência histórica.” A afirmação é de Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro de Direitos Humanos e ex-coordenador da Comissão Nacional da Verdade. Pinheiro esteve em Roma no início do mês para uma audiência especial com o Papa Francisco, da qual também fizeram parte Marinete da Silva, mãe da vereadora Marielle Franco; a jurista Carol Proner, autora de obras sobre a condenação do ex-presidente Lula; e Cibele Kuss, representante do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e da Fundação Luterana de Diaconia.

O tema da visita foi a atual situação política do Brasil, com ênfase no aumento dos crimes contra os Direitos Humanos no país – situação que colocou o Brasil na liderança do número de assassinatos de ativistas ligados à causa. “Qual o sentido da democracia se uma mulher negra que chega ao poder é assassinada?”, questionou a advogada Marinete da Silva, mãe da Vereadora Marielle Franco, cuja morte permanece sem respostas após quatro meses de investigações. “Eu disse ao Papa: o caso não está parado, mas poderá cair no esquecimento. Marielle criticava duramente o processo de intervenção militar no Rio de Janeiro, dizendo que esta de nada adiantaria se não houvesse também ações efetivas em Educação, Direitos, Serviços Públicos. Não vou permitir que seu legado termine.”

Mãe de Marielle Franco em visita ao Papa Francisco.

Retrocesso democrático

De acordo com a advogada Carol Proner, o Papa demonstrou acolhimento e declarou “acompanhar atentamente” o cenário brasileiro e da América Latina em geral. Ele teria citado a intensa influência midiática nos processos políticos, capaz de eleger “heróis” ou contribuir para a condenação pública de acusados sem provas concretas. “Estamos hoje enfrentando uma crise nos Poderes Executivo e Legislativo. Nesse contexto, o Poder Judiciário tem uma responsabilidade ainda maior”, afirma Carol. “Exatamente por isso, não pode haver instrumentalização política de sua atuação.”

O quadro de retrocessos, segundo o professor Paulo Sérgio Pinheiro, não fica apenas no campo dos Poderes institucionais. “Além da situação política irregular, temos um congelamento orçamentário que irá atingir todas as áreas do país, inclusive educação e saúde, durante os próximos 20 anos, causando um crescente estado de mal-estar social. A ‘agenda das minorias’ no país foi praticamente revogada”, declarou. “Vemos um aumento das manifestações de racismo, machismo e homofobia que impedem a discussão de problemas estruturais, como o problema racial, que jamais foi enfrentado de forma apropriada no Brasil. Enquanto isso não for feito, não teremos uma verdadeira democracia.”

A questão racial também faz parte do discurso de Cibele Kuss, que citou as destruições de templos religiosos das comunidades negra e indígena, recorrentes atualmente no Brasil, como uma ameaça à própria presença política desses grupos. “Temos visto a religião e a Bíblia serem instrumentalizadas, o que também afeta a liberdade dos cristãos que têm orientação política de esquerda”, afirmou. “Quando vemos um terreiro ser atacado, este é também um ataque à luta contra o racismo, à presença e à expressão daquele grupo na sociedade. O mesmo ocorre com a destruição das casas de reza indígena: é uma ameaça à resistência desses povos, às retomadas e às demarcações de terras.”

Ela considera um dever da comunidade cristã combater esses abusos. “Temos grupos ecumênicos que visitam as lideranças negras e indígenas e os ajudam a reconstruir seus templos. Essa atitude, muitas vezes, é vista com reservas dentro das próprias igrejas cristãs. Mas a solidariedade é um dos princípios da conduta cristã. Temos que lutar por uma nova Teologia, de denúncia do machismo, do racismo, do capital, do mercado. De todas as formas de opressão que geram violência.”