7 passos para quem quer mudar o mundo e não sabe por onde começar

Por: Leandra Barros/ Foto: Bruno Cerqueira- Fotos públicas

Antes mesmo de me tornar uma jornalista, sempre pensei sobre como jornalistas e fotógrafos conseguiam registrar algumas realidades tão duras e, depois, simplesmente ir embora. Me perguntava  se estes profissionais  contribuíam de alguma forma,  além de compartilhar informação.

Esse questionamento surgiu quando vi, pela primeira vez, a famosa foto do abutre-de-capuz observando a criança prestes a morrer de fome, no Sudão, registrada pelo fotojornalista Kevin Carter, em março de 1993. Eu tinha 12 anos. e me lembro de ter ficado chocada ao saber que após ganhar o Prêmio Pulitzer por aquele registro, Kevin Carter cometeu suicídio.

Ele deixou uma carta indicando  que, entre outras coisas, o fato de ter recebido duras críticas por partir após fotografar a cena, foi um dos motivos que o fez tirar a própria vida. Carter chegou a ser comparado, por um dos jornais do estado americano da Flórida, com o próprio abutre.

Apesar dos pesares, em 2011 tivemos notícias de que a criança da foto de Carter sobreviveu. Mas a história poderia ter sido diferente, tanto pra ela, quanto para ele.

Eu nunca esqueci esse episódio, e acredito que, de certa forma, essa história me inspirou a fazer diferente.

Em 1993, sem internet nem redes sociais, essa história do Carter rodou o globo e chegou até mim, produzindo mudanças e fazendo com que, décadas depois, eu fizesse algo para mudar o mundo.

Imagine o que você não pode fazer hoje, com ferramentas como as redes sociais em mãos! Pra te inspirar, vou contar, em 7 passos, como eu usei as redes como um meio para promover impacto social na minha cidade.

Se quer mudar o mundo, vem comigo…

1º) SE IMPORTE!

Perceba pelo menos uma causa ou necessidade ao seu redor, que mexa com você. Que deixe seu coração apertado, com vontade de agir.


Em fevereiro deste ano, vendo o número de pessoas em situação de rua aumentando na cidade onde moro, passei próximo a um prédio público abandonado em meu bairro, no centro de Vitória (ES), onde minha avó trabalhou durante a minha infância. Meu coração apertou e eu desejei profundo: “esse prédio bem que podia ser ocupado… tanta gente sem lugar pra morar”.

Segundo o Censo do IBGE de 2010, há mais imóveis vazios do que pessoas sem moradia na cidade de São Paulo, por exemplo. E só no centro aqui de Vitória, onde fica esse prédio, há mais de 100 imóveis não utilizados, segundo a Associação de Moradores do bairro.

2º) SONHE!

Comece a pensar no que você gostaria de fazer para ajudar. Sonhe mesmo… sonhe alto. Deixe a imaginação fluir, sem que a realidade da falta de grana ou de tempo reprima seus pensamentos. Grandes ideias começam assim.

No meu caso, eu sonhei li-te-ral-men-te. Na verdade, pareceu mais um chamado! Sonhei que em uma sala de aula de escola pública, alguns alunos agradeciam à professora pelo elogio recebido por conta do resultado de uma prova com um: ”tem que ser alguém na vida,né, professora?”, um menino negro (como a maioria da turma) respondeu ao elogio de forma diferente: “tem que ter casa, professora. Casa”.

Em seguida, vi a “casa” em que o menino morava, que eram apenas telhas quebradas de  fibra apoiadas uma na outra sobre papelões no chão. E acordei. Chovia muito, fazia frio e não pude voltar a dormir. O sonho foi tão real que eu tinha certeza de que aquele menino não só existia como estava lá fora, sem abrigo. E eu precisava fazer alguma coisa.

E você também vai precisar fazer depois de sonhar. Porque ficar só no sonho, não dá em nada!

 

3º) LEVANTE-SE!

A primeira decisão séria que precisei tomar em relação ao meu sonho foi me levantar.  E pode parecer besteira, mas era madrugada, chovia e estava frio, lembra? Levantar representava abrir mão do meu conforto. E às vezes tudo de que precisamos para transformar o nosso sonho de mudar o mundo em realidade é dar esse pequeno primeiro passo… pra fora da cama, no meu caso.

Levantei-me! E o próximo passo foi fazer uma reflexão e um relato que, se você tiver facebook, você pode ler aqui.

4º) VÁ PRA RUA!

As coisas acontecem lá fora! Podemos perceber melhor uns aos outros, nossas belezas e faltas, pelas ruas, no campo ou na cidade, é lá! Fora de nossa caixinha. É na vida de verdade, ainda que pareça haver muita vida em nossas telas de TV, computador ou celular. Enquadrada nessas telas está só a vida que escolhem nos mostrar. O bom é sair pra ver o que mais tem por aí. Vá pra rua… Simplesmente vá!

Eu, de pé como já estava, no dia seguinte, passei por aquele prédio que, no mês de fevereiro, eu havia desejado que fosse ocupado e, PASMEM! Não vi na internet, nem na TV, porque não divulgaram, mas tava rolando uma ocupação!

Imediatamente me lembrei do menino do sonho. Fiquei emocionada e comecei a registrar em fotos as famílias que chegavam com alguns móveis àquela hora da noite, o prédio com as janelas acesas, crianças brincando na calçada. Havia vida naquela rua que antes era deserta, cinza,  “sem vida” e meio perigosa por estar desabitada.

Que felicidade me deu! As fotos foram divulgadas dias depois, quando eu soube que haviam cortado a luz e a água das 156 famílias ali alojadas desde o início do mês de maio, para tentar forçá-los a sair, sob o argumento de que a presença das famílias alojadas era indesejada pelos moradores do centro. Não era verdade. Então, como moradores do centro, resolvemos tomar providências.

5º) COMPARTILHE!

Chega uma hora que a gente percebe que nosso sonho é maior do que a gente imaginava e que não dá pra fazer tudo sozinho. Sem contar que juntos somos mais fortes, e que tornar uma causa pública através do compartilhar também é fortalecer!

Por isso, sabendo do ocorrido, eu e outros moradores do centro resolvemos nos manifestar publicamente favoráveis à ocupação, por meio das redes sociais. Aí sim, postei as fotos que fiz e um poema que escrevi, chamando a atenção para a ocupação, que descobri que tinha até nome e página no face: Ocupação Chico Prego.

Você pode ler o poema aqui.

Também passamos a utilizar a hashtag: #ocupaçãochicoprego para que mais pessoas pudessem ver tudo o que se falava a respeito.

Além disso, ainda nessa missão de compartilhar para fortalecer, entrei em contato com a coordenação local do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), que está à frente da ocupação, e perguntei se eu poderia fazer uma matéria para ajudar a divulgar a causa. E é agora, então, que passamos para o próximo  e penúltimo passo.

6º) NÃO DESISTA!

Por mais que nossas intenções sejam as melhores, nossas causas sejam nobres e movam o nosso coração, nem sempre ela vai tocar e mover o coração de todos da mesma forma.

Podem haver muitas razões que a gente desconhece para recebermos alguns “nãos” antes de conseguir realizar nosso sonho, ou atingir alguns de nossos objetivos.

A primeira barreira que encontrei veio de onde eu menos esperava, mas hoje eu entendo muito bem os porquês. Aconteceu quando entrei em contato com Stela, uma das coordenadoras locais do MNLM. Eu mandei uma mensagem para ela pelo whatsapp, me identificando e dizendo que gostaria muito de fazer uma matéria sobre a ocupação para a AJN. Stela negou. Explicou que aconteceria a reintegração de posse no final daquela semana e que estavam muito ocupados em busca de um lugar para levar as pessoas que ficariam novamente desabrigadas.

Eu insisti. Disse que talvez minha matéria poderia ajudar. Ela resistiu. Eu continuei insistindo. Depois de alguns “não”, eu disse apenas que lamentava não poder serví-los com o que eu podia oferecer. A matéria era o que eu tinha em mãos para ajudar e eu realmente acreditava que, de fato, poderia contribuir na luta.

Então, quando eu já havia desistido, Stela me mandou uma mensagem com o contato de um outro coordenador, que estava dentro do prédio com as famílias, e disse que ele poderia me receber. Perguntou quanto tempo eu precisaria e eu disse: “meia hora”.

Fui. E acabei ficando lá dentro do prédio metade de um dia. E aquela meia hora que virou meio dia mudou nossas vidas.

7º) FAÇA TODA A SUA PARTE.

Por ter passado a tarde no prédio, conhecendo famílias durante a entrevista, me deparei com algumas necessidades urgentes. E o ensino que a história de Kevin Carter me trouxe, não deixou que eu parasse nos registros. Criei um texto rápido, com fotos das famílias e o que elas estavam precisando. E assim, em menos de 24h, consegui junto aos meus contatos da Igreja abrigo para algumas delas, mantimentos e até ofertas de emprego. Além de um lugar para guardar as mudanças daquelas que não tinham onde deixar. Saiba mais sobre como foi isso aqui(hiperlinkar)”.

Além disso, chamei amigos e fui acompanhar a reintegração de posse, no domingo de manhã, para, junto com outros moradores do centro de Vitória, colegas da imprensa e do movimento de Brigadas Populares, garantirmos que tudo fosse feito de forma pacífica. Sem truculências.

E naquele domingo entendi o porquê de Stela, à princípio, não querer liberar a entrevista. Quando os repórteres da grande mídia chegavam para tentar entrevistar as famílias, algumas delas gritavam: “Saiam daqui, seus abutres! Só querem se aproveitar da dor da gente”!
Não tive como não lembrar da lição de Carter mais uma vez. E, dessa vez, ficar grata por ter aprendido o que o exemplo dele deixou marcado em mim e ter feito toda a minha parte. Não apenas parte dela.

Mas tudo isso só aconteceu porque as redes sociais foram um meio, mas não o fim. Foi fundamental, naquela tarde, dentro do antigo prédio do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), ao passar pela porta ainda cercada de escombros, entrar num outro mundo. Um mundo que eu achava que fazia ideia, mas de fato não conhecia.

E foi esse mundo _ não o mundo todo, mas esse pequeno e precioso mundo em particular _ que eu me alegro em dizer que pude ajudar a mudar, ao menos um pouquinho, pra melhor com algumas simples ações, que estão ao alcance de qualquer mão movida por um coração que se importe.

Se importe!