[RESENHA] Moonlight brasileiro: Sob a luz do mesmo luar

O filme Moonlight, de uma narrativa viva e fotografia sensível, recebeu o prêmio de melhor filme do Oscar 2017. O longa não só ganhou o tão aclamado prêmio da cinematografia, mas colocou em pauta um debate necessário: todos os dias, jovens negros são silenciados em seus afetos, vivências e particularidades, sob a luz do luar, do sol, e da vista de toda a sociedade.

A obra percorre a vida do garoto negro e gay Chiron (interpretado por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhode) em três fases de sua vida. Chiron cresce em uma comunidade no subúrbio de Miami, marcada pela pobreza, violência e tráfico de drogas. A partir da trajetória de autoconhecimento do personagem, a trama propõe uma reflexão sobre o corpo, a identidade e os afetos do homem negro e gay.

E tudo começa com uma fuga. Parece mais uma história brasileira, daquelas que ganham um bloco inteiro no Datena

E você, já ouviu essa história antes? O enredo é o mesmo, os personagens se deslocam no globo, mas a história não chega na Globo, ouvi só de dona Maria, aquela vizinha que faz da janela a vida e da TV amiga. Saberia dona Maria que em média 56 mil jovens são assassinados no Brasil, sendo que 77% são negros?

E se Barry Jenkins, diretor do filme, roteirizou algum insight noturno ou devaneio da criação? Lembra mais um caso das margens da leste, oeste, norte, sul ou qualquer abismo da cidade de São Paulo.

E se Moonlight não tivesse ganho o Oscar? Fosse apagado como João Victor Souza de Carvalho. Pedindo esmola foi ao chão, assim como sua mãe, Fernanda Cassia de Sousa. Sobre terra, lágrimas e flores, no Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, onde há mais corpos negros do que nas universidades.

Chiron conseguiu passar pela infância, diferente de João. Chegou ao ápice na adolescência, mas se conheceu antes, agora ele sabe quem é, do o que é capaz. Mas Eduardo de Jesus, Wesley Castro, Italo Alves, Luan de Lima Teixeira, Douglas Rodrigues, Alan de Souza de Lima, não chegaram. Viraram números, estatísticas.

Então Chiron chega à fase adulta, a única coisa que não foi apagada foi seu corpo, pois as relações familiares e afetivas foram abaladas, e o período escolar conturbado. De forma singular, Chiron e seus afetos são colocados em tela.

O filme aborda questões relacionadas à violência, drogas, relacionamentos familiares, bullying, mas traz algo nunca retratado na dramaturgia: a sexualiadade do homem negro e gay. A solidão do homem que é gerida como algo inexistente, que foge do senso comum.

Temos agora no cinema uma obra que representa a população negra e LGBT, que aborda seus afetos e suas vivências sociais. A história de Chiron termina bem, deixando lágrimas nos espectadores e uma narrativa a se pensar e repensar.

|Every nigger is a star | Boris Gardiner. 

Fica a dica: 

Em São Paulo, o filme entra em cartaz no Circuito Spcine, salas públicas de cinema, a partir de 06 abril.