Extermínio de jovens na Bahia, principalmente entre os negros, é tema de ato público

Para os jovens que ainda continuam vivos em Valença (BA), resta andar pelas ruas sem saber de onde vem o tiro, sem saber se voltarão para casa. A taxa de mortalidade por homicídios de jovens negros (15 a 29 anos) naquele município foi de 218,68 no ano de 2010, segundo dados do Plano Juventude Viva. Para o mesmo público e período, a capital Salvador teve taxa de 157,56, o que a posicionou como prioridade para o governo federal nesse tema. Nos últimos cinco anos, mais de 35 mil crianças e adolescentes, principalmente negras e de comunidades empobrecidas, foram assassinadas (de acordo com dados do Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil, CEBELA e Flacso Brasil).

Inconformados com essa situação, adolescentes e jovens dos dois municípios participaram de um ato público no último sábado (16) no Largo Pedro Archanjo, Pelourinho, durante o show de 10 anos do grupo de hip hop Os Agentes.

Em 2012, um dos cantores do grupo, Jasf, passou pela experiência de perder um amigo e parceiro de ação política. “A morte do nosso amigo Tális, guerreiro, é um marco para nosso grupo de jovens. Simboliza a morte de tantos outros que se foram. Com tristeza, mas com muita garra, queremos fazer algo pela nossa juventude. A sociedade e principalmente os governos precisam acordar para esse extermínio”, dispara o músico.

Jasf faz parte – assim como Tális fazia – do Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPOP) da ONG Visão Mundial, que capacita e acompanha adolescentes e jovens no monitoramento das políticas públicas em suas comunidades. Esses jovens tornam-se tanto líderes em suas comunidades quanto uma ponte entre elas e políticos locais.

Durante o ato, a adolescente Raijane Gama, com 16 anos e moradora de Valença, contou o que já vivenciou. “Eu tenho um amigo, quero dizer, tinha um amigo, que estaria muito feliz se estivesse aqui (no show). Louco por rap, apaixonado por hip hop, e indo para uma apresentação de hip hop na nossa comunidade na cidade de Valença, ele perdeu sua vida por uma bala perdida, por um engano. Eu fico muito triste por isso, porque a violência hoje em dia está crescendo mais do que nossa voz. Nós estamos sendo calados. Nossos olhos não aguentam mais chorar. Nosso coração está apertado. A gente grita o mais alto que podemos e ninguém consegue nos ouvir! Nós vamos ficar calados? Vai ser assim? Os jovens vão morrer e pronto? Não! A gente tem voz, a gente tem vez, a gente pode mudar!”, disse a jovem.

Luta em rede

“A partir da morte de Tális, os próprios jovens do projeto decidiram iniciar um trabalho de monitoramento de políticas voltadas para a redução da violência contra a juventude. O MJPOP se articula como uma rede, conectando a participação política de jovens em 10 Estados brasileiros, entre eles Bahia, Rio de Janeiro, Ceará e Pernambuco”, explica o assessor de Participação da Visão Mundial Brasil, Reinaldo Almeida.

“Só no ano passado, dez crianças e adolescentes de nossos projetos morreram vitimadas por tiros e tantas outras foram alvejadas conseguindo, felizmente, sobreviver. Nós trabalhamos em Valença há anos para a melhoria da educação, participação política e saúde dessas meninas e meninos e, quando recebemos esse tipo de notícia sobre eles, em quem investimos tanto para uma comunidade com um futuro melhor, temos uma sensação muito grande de impotência. É algo que foge ao nosso controle”, desabafa a coordenadora do projeto da Visão Mundial no local, Maria Vanuzia Oliveira.