Ocupação da Alesp coloca o escândalo da merenda de SP na agenda nacional

Pedro Neves e Bruno Ferreira, da Redação | Colaboração de Rafael Rodrigues,  18 anos, da Plataforma dos Centros Urbanos de São Paulo | Imagens: Jornalistas Livres

Desde o dia 23 de setembro de 2015 o movimento de secundaristas vem apresentando um papel de protagonista na luta por direitos da juventude, contra o abuso do Governo do Estado de São Paulo com a educação e a favor de serem vistos como agentes políticos, dignos de respeito e visibilidade. Mais recentemente, em São Paulo, acompanhamos um marco significativo na luta desses jovens, em que ocuparam a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e o Centro Paula Souza, denunciando o escândalo de corrupção das merendas escolares, bem como o descaso dos deputados com a questão.

“A ocupação da Alesp buscou dar visibilidade à nação sobre o escândalo das merendas e funcionou, chamou a atenção dos meios de comunicação, como também a incapacidade da Assembleia Legislativa de se mover em um escândalo tão significante sem autonomia do poder executivo”, explica Pablo Ortellado, professor doutor do curso de Gestão de Políticas Públicas e orientador no programa de pós-graduação em Estudos Culturais da Universidade de São Paulo.

O estudante Lucy Lima, de 18 anos, da Escola Estadual Andronico de Mello, no Butantã, sobre a qual realizamos uma matéria no final do ano passado, diz que a ocupação da Assembleia tem sido uma luta de resistência, uma vez que a Polícia Militar tem dificultado a permanência dos estudantes no local: “Tem sido bem difícil entrar e sair da Alesp. Algumas vezes a PM deu pouco tempo para as pessoas entrarem com comida e só no estacionamento, tendo que entregar para alguns deputados ou funcionários de confiança para (a comida) chegar nos secundas”, afirma.

O estudante participou, no ano passado, da ocupação de sua escola. Para ele, essa foi a oportunidade para se politizar e de lutar por uma educação de qualidade, ainda que sua escola não fosse afetada pela proposta de reorganização: “Houve uma divisão de apoiadores e não apoiadores da ocupação. A escola se dividiu. Mas depois de um belo debate, 75% estavam a favor”, diz Lucy.

Confira fotos feitas pelos estudantes da ocupação do Centro Paula Souza e Alesp, no nosso álbum do Flicker:

Ocupação dos secundaristas de SP

Protagonismo na ocupação

Quanto à ocupação na Assembleia Legislativa, o estudante Lucy Lima afirma que há grande presença dos movimentos estudantis organizados, como UNE, UMES E UBES, cujas lideranças, muitas vezes, institucionalizam o movimento. Nesse sentido, o estudante secundarista Pedro Alexandre afirmou, na página do Facebook Ocupação Alesp, que as entidades estudantis querem exercer o protagonismo no contexto das ocupações, o que, para ele, é equivocado.

“É importante dizer que o PROTAGONISMO é sempre dos estudantes, o que vier fora isso é APOIO. Essa foi a posição que os estudantes deram ano passado, quando notaram que entidades estudantis tentaram se apropriar do protagonismo. Se a luta é estudantil, a “estrela” do movimento deve ser os próprios estudantes. Se a tais movimentos querem doar alimento, cobertor, advogado, ter gente presente para fazer a segurança dos estudantes, tudo isso é sempre muito bem vindo, e isso se caracteriza como apoio. Agora puxar jogral, fazer discursos, dar entrevista, etc, esse não é o papel deles, esse é o papel dos estudantes!”, disse Pedro. Procurada, a UBES não se manifestou até o fechamento desta matéria.

Independentemente dessa dinâmica interna dos estudantes, Pablo acredita que a ocupação dos estudantes abala o governo Alckmin ao ganhar apoio da sociedade: “Quando tudo isso começou o governador tratou o assunto com desdém. Porém, hoje, ele já sabe que os secundaristas têm um enorme apoio popular e já podem ser considerados atores políticos relevantes. Afinal das contas, eles fizeram o governador perder vinte pontos percentuais de apoio popular. Os movimentos juvenis, principalmente dos secundaristas, agora são mais temidos”, afirma o professor.

Recapitulando

Tudo começou quando o governo anunciou o a reestruturação da rede escolar, que consistia em separar as escolas para que cada unidade passasse a oferecer aulas de apenas um dos ciclos de educação – Ensino Fundamental I; Ensino Fundamental II ou Ensino Médio.

Porém, na prática, a decisão previa o fechamento de 93 escolas, cujos espaços seriam disponibilizadas para outras finalidades dentro da área de educação. Além disso, pais reclamaram da transferência dos filhos para outras unidades de ensino.

Oficialmente, a reorganização afetaria apenas 1,8% das atuais 5.147 escolas do estado. No entanto, 1.464 unidades foram envolvidas na reconfiguração, diminuindo a oferta para um ciclo em cada unidade e obrigando 311 mil dos 3,8 milhões de matriculados a mudar de escola. A mudança atingiria ainda 74 mil professores.

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Enquanto a proposta tramitava, no dia 9 de novembro de 2015, a Escola Estadual Diadema, no ABC, e no dia seguinte a Escola Fernão Dias, na zona Oeste de São Paulo, foram ocupadas por seus estudantes. A partir daí o movimento cresceu. Segundo a Secretaria de Educação de SP, foram 200 escolas ocupadas. Mas de acordo com a Apeoesp, foram 213.

“As ocupações passaram por dois momentos, sendo o primeiro de construção e teste da capacidade política do movimento, e o segundo de reação aos desdobramentos ocorridos do fechamento das escolas somado ao escândalo de corrupção das merendas”, explica Pablo Ortellado.

Essa onda secundarista veio ganhando força de lá para cá, inspirando movimentos em diferentes estados pelo Brasil e formando um tsunami. Em Goiás são mais de 20 escolas ocupadas, no Rio de Janeiro já são mais de 70, no Ceará o movimento cresce a cada dia e vemos até outros países apoiando e entrando na luta por direitos. “Acontece uma espécie de aliança na questão das ocupações, houve delegações e caravanas que foram a Goiânia e Rio de Janeiro – e mais recente ao Ceará – para transmitir as experiências de São Paulo. Percebemos que articulações estão sendo feitas, mesmo com dificuldade pela distância”, diz Ortellado.

Inspiração

As ocupações das escolas de São Paulo foram inspiradas na Revolta dos Pinguins, ocorrida no Chile em 2006, quando 1 milhão de estudantes tomaram as ruas do país a favor do movimento secundaristas, as reivindicações dos jovens manifestantes chilenos iam desde exame gratuito de seleção para universidade até reforma dos banheiros em más condições, passando pelo passe escolar gratuito e melhora nas merendas. Sobre esse episódio histórico há um documentário, que pode ser assistido no YouTube:

Depois de semanas de marchas de protesto pelas ruas, os “pinguins” – assim chamados em razão dos uniformes preto e branco – poucos avanços tinham sido feitos. A reviravolta aconteceu quando os alunos do Liceu de Aplicação e do Instituto Nacional ocuparam seus edifícios no dia 19 de maio, reivindicando, além das primeiras pautas, a revogação da Lei Orgânica Constitucional de Ensino (LOCE) e o fim da municipalização do ensino, heranças da ditadura cívico-militar de Augusto Pinochet.

“A segunda onda das ocupações demonstra uma mobilização em diferentes estados, podendo tornar a ação nacional. O mais importante não é olhar para o futuro do movimento, mas para o que esses adolescentes já conquistaram: a única vitória significante sobre o PSDB no estado de São Paulo nos últimos 20 anos”, diz Pablo Ortellado.