Brasil não vai apresentar metas para o clima antes de 2015

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Por Evelyn Araripe

Muito cobrado pela sociedade civil sobre a postura do Brasil nas negociações do clima na ONU, as chamadas COPs, o embaixador Raphael Azeredo deixou claro, que o Brasil só irá colocar metas e números na mesa de negociação na COP21, que acontece em Paris em 2015. Segundo o embaixador, “apresentar metas antes da COP21 seria conservador, não podemos chutar números sem saber as propostas dos outros países”, argumentou.

A declaração ocorreu nessa quarta-feira, 26 de fevereiro, em evento aberto para a sociedade civil, em Brasília, para que o governo dialogasse com diferentes atores sobre os planos para a COP20, que acontece no Peru, em dezembro desse ano, e que servirá como uma transição para a COP21, em Paris, quando se espera firmar um acordo definitivo para o clima e que passará a valer a partir de 2020.

Os representantes do governo também bateram fortemente na pauta sobre as responsabilidades históricas, proposta que defenderam na última COP, na Polônia e que gerou polêmica entre os países. Basicamente, a proposta é de que seja criada uma metodologia que aponte as responsabilidades dos países nas emissões de gases de efeito estufa que tem afetado o planeta e gerado esse crise climática. Hoje, o Brasil figura entre os cinco maiores emissores do mundo, mas ao longo da história outros países, como os EUA, União européia e Japão foram os principais emissores, que contribuíram fortemente para os problemas do clima. Por isso, o governo do Brasil defende a importância de se ter estudos claros que mostrem quem são os maiores responsáveis pelas emissões, para que esses números norteiem as metas a serem assumidas pelos países a partir de 2020.

Sérgio Leitão, Diretor de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, avalia que não adianta focar somente no discurso da responsabilidade histórica sem conectá-los a outros problemas. “A responsabilidade histórica que não incorpora desigualdade econômica, que no Brasil faz pobres sofrerem efeitos da crise climática é um grande erro”, disse em sua página no Twitter. Já Raquel Rosenberg, Diretora Geral do Engajamundo, lembrou que, nas negociações do clima, o conceito de responsabilidades históricas está dentro do debate de equidade, que também contempla outros conceitos, como adequação, capacidades, necessidade de desenvolvimento e de adaptação dos países. Em sua fala, ela demonstrou preocupação quando o governo defende demais um conceito sem considerar os demais.

Além desses debates, foram constantes as argumentações dos representantes da sociedade civil sobre o quanto o discurso internacional do Brasil não condiz com a sua prática. Enquanto lá fora o país apresenta propostas ousadas nas negociações para a redução das emissões de gases de efeito estufa, aqui dentro as políticas ambientais são alvo constante de críticas, como o Código Florestal, Belo Monte, Pré-Sal e a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que ainda não foi efetivamente colocada em prática.

Segundo Everton Lucero, chefe do departamento de Clima do Itamaraty, apesar das argumentações negativas em relação às políticas do Brasil na área de clima e meio ambiente, o debate internacional não caminha necessariamente junto das questões internas do país.

Participação da Juventude

Durante o encontro, os representantes do governo foram constantemente cobrados sobre a participação da juventude nos debates internacionais sobre clima. Em Varsóvia, após manifestação dos jovens brasileiros, que haviam ido de maneira independente e sem apoio nenhum do governo, foram muitas as “promessas” feita pela equipe do governo sobre garantir e ampliar a participação dos jovens nestes espaços, uma vez que as negociações do clima nada mais são do que a discussão do futuro dessa geração. Em Varsóvia a própria ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, chegou a prometer que se reuniria com os jovens no Brasil, ainda em dezembro de 2013. No entanto, mesmo com tentativas dos jovens, um retorno junco foi dado.

Mas, após as manifestações dos representantes dos jovens no encontro, a assessora para assuntos de juventude do Ministério do Meio Ambiente, Marcella Berte, entrou em contato e realizou uma reunião rápida para entender as demandas dos jovens para as questões de clima.

Foi apresentado à ela a idéia de fazer capacitações em todo o Brasil para que os jovens entendam e se envolvam nos processos de negociações de clima, bem como a mobilização e integração entre a juventude latinoamericana para a COP20, no Peru. Também foi proposto um apoio do governo para apoiar a participação dos jovens, de diferentes regiões e grupos, nestes processos internacionais. Marcella explicou alguns caminhos estratégicos para os jovens tentarem captar recursos e se dispôs a ajudar e também disse que nesse momento a equipe do Ministério está em fase de planejamento e a juventude será contemplada em suas ações.

Apesar dos jovens voltarem para casa sem nenhuma resolução, somente o fato de ter criado um canal aberto com o governo já pode gerar expectativas para que as próximas negociações do clima tenham mais jovens brasileiros participando e tentando influenciar os rumos das negociações.

Transmissão ao Vivo

Também por sugestão dos jovens, o evento foi transmitido ao vivo pela internet. Essa foi a primeira vez que o Itamaraty transmitiu um evento e a experiência foi bastante elogiada, levando  o órgão governamental a pensar na possibilidade de transmitir outros eventos.

Confira a transmissão do evento, que durou das 9h às 17h, AQUI.