Competência, emprego e a geração nem-nem

Maurício de Paula para a Agência Jovem de Notícias/Foto: Marcelo Sant Anna/ Imprensa MG (02/07/2015)

É uma população que vai ser vulnerável, vai ter mais dificuldade de achar emprego, corre maior risco de cair na pobreza.

Foi esse o alerta feito pelo representante do Grupo Banco Mundial no Brasil, Martin Raiser, ao analisar o cenário de participação da juventude na produtividade econômica brasileira, durante o lançamento do relatório “Competências e Empregos: uma agenda para a juventude”, no último dia 12 de março, em São Paulo.

A pesquisa analisou os desafios enfrentados pelos jovens para a melhoria dos índices de empregabilidade e produtividade no mercado de trabalho. A denominada “geração nem-nem”, que é o grupo de jovens que nem trabalham, nem estudam, impacta diretamente o cenário, tornando-o mais desafiador.

Atualmente, os nem-nems representam mais de 25% da população de 15 a 29 anos, totalizando mais de 11 milhões de jovens. Todavia, é necessário destacar que essa caracterização desconsidera os jovens em condição de emprego informal e também não representa que tal segmento esteja descomprometida com o ingresso no mercado de trabalho. Antes, é preciso refletir quanto o acesso à educação, a qualificação e a política de emprego e renda do país, que muitas vezes penaliza os jovens pela falta de experiência.

O estudo do Banco Mundial revelou que o Brasil está passando por um longo processo de desengajamento, que é entendido como uma redução no acúmulo de capital humano. Capital humano é um conceito oriundo do ambiente empresarial, entendido como o conjunto de habilidades, experiências e formação dos funcionários, que resultam em ganho financeiro.

A teoria do Capital Humano foi desenvolvida pelo economista americano Theodore Schultz, que considerou que “a educação torna as pessoas mais produtivas, aumentando seus salários e influenciado no progresso econômico”.

Mas como manter nível de produtividade, satisfação e qualificação num país tão desigual, injusto e que não tem a educação como prioridade para o desenvolvimento econômico?

Analisando o cenário dos investimentos no Brasil, nota-se que do início do século 21 até agora foram realizados investimentos elevados em programas de qualificação como o ProUni, Pronatec, ampliação das universidades e criação dos Institutos Federais. Segundo a pesquisa do Banco Mundial “o gasto público com programas de mão de obra foi historicamente baixo – 0,4% do PIB em 2000 -, mas aumentou juntamente com os níveis relativamente altos de criação de emprego até 2014, atingindo 0,85% do PIB em 2011 e 0,99 % em 2014. Em 2015, o gasto se acelerou até 1,1 % do PIB quando o país entrou em crise econômica e o desemprego começou a disparar“.

Isso permitiu que o poder econômico de classes menos favorecidas aumentasse e que essa classe ocupasse cada vez mais os bancos das universidades. No entanto, a crise econômica econômica e o acentuado impasse político no Brasil, resultam sobretudo na redução dos postos de emprego. Soma-se a isso o fato de boa parte dos investimentos não chegarem a regiões mais vulneráveis do país e serem desviados pela corrupção.

A deficiência percebida na educação média e superior tem origem na educação básica: as crianças estão chegando aos anos iniciais da educação básica com desempenho insuficiente em leitura e matemática, segundo a Avaliação Nacional de Alfabetização apresentada em 2017. Isso irá refletir, por exemplo, no índice de abandono escolar e no número de alunos com idade inadequada para série cursada.

A precariedade no acesso à educação de qualidade desde os anos iniciais de formação, a falta de qualificação, a escassez de postos de trabalho, a exigência de experiência profissional sem oportunizá-la, os números alarmantes da violência contra jovens, o número de adolescente e jovens responsáveis pelo lar, são fatos desoladores, mas apontam que não é coerente direcionar a culpa aos jovens pela redução da empregabilidade e produtividade no mercado de trabalho.

Para além disso, é fundamental a efetivação de direitos e assegurar que as políticas públicas sejam mais assertivas e promovam a real inclusão da juventude na produção socioeconômica e no acesso aos bens culturais.