Fórum Internacional do Bem Viver discute diferentes formas de mensurar riqueza e desenvolvimento

Por Paula Bonfatti, da Redação

Nos últimos três dias, pesquisadores, ativistas e sociedade civil se reuniram na Universidade de Grenoble, França, para o Fórum Internacional do Bem-Estar. Hospedado pela primeira vez na europa, o evento tem como objetivo debater e promover diferentes formas de mensurar riqueza, baseando-se não em indicativos econômicos, mas no bem-estar da população. A Agência Jovem de Notícias contou com uma equipe de 12 jovens internacionais, incluindo duas representantes do Brasil, para realizar a cobertura educomunicativa do Fórum.

“Podemos imaginar desenvolvimento sem crescimento?” perguntou Pablo Solón, ativista e antigo Embaixador da Bolívia nas Nações Unidas durante o painel Rumo ao desenvolvimento sustentável e justo. Junto a Vivian Labrie, pesquisadora independente e membro do Time Multidisciplinar Erasme, provocou a plateia, composta 70% pela sociedade civil, e questionaram os indicadores de desenvolvimento global, que são hoje baseados em indicadores econômicos, como o Produto Interno Bruto (PIB).

Para Solón, o ponto norteador para a sociedade moderna deve ser o equilíbrio, não o crescimento desenfreado e insustentável. “Hoje, nós tratamos a natureza como um recurso, mas a natureza não é um recurso, é um sistema com seus próprios ciclos vitais” afirma, acrescentando que para se alcançar o equilíbrio, alguns setores devem crescer e outros estagnar ou diminuir.

“Nós todos não temos a mesma visão do que é bom”

Hoje, o PIB representa o valor monetário de todos os bens e serviços produzidos por uma nação. É também o indicador principal de riqueza a nível global. No entanto, o indicador tem um poder simbólico que reduz as diversidades econômicas de cada país e região a um único número. “O PIB reforça o poder das sociedades ocidentais e funciona como qualquer outro indicador, tem dois lados, é uma ferramenta de poder”, disse Florence Jany-Catrice, economista e pesquisadora no Centro de Estudos e Pesquisa em Economia e Sociologia de Lille, França, durante o painel Indicadores, poderes e limites, no primeiro dia do evento.

A economista ainda argumenta que todos os indicadores são baseados em convenções e acordos sociais e políticos e por isso têm fortes raízes históricas. “Nós todos não temos a mesma visão do que é bom”. Assim, o fórum propõe discutir e promover uma outra abordagem à concepção de desenvolvimento: o bien vivre, ou “bem viver”. Para o bem viver, pensar o desenvolvimento como um constante e ininterrupto crescimento é uma ilusão. “O conceito de desenvolvimento vem da ideia de que nós avançamos, nós vamos além. Na perspectiva do bem viver, nós nem sempre avançamos. Nada avança sempre”, explica Solón.

Como mensurar o bem viver: exemplos práticos

Mais que uma filosofia, o bem viver é também um projeto político. Exemplos práticos de sua implementação podem ser encontrados em diferentes partes do mundo – ou durante o Fórum Internacional do Bem Viver, que une pesquisadores, governo e sociedade civil – como Equador, Bolívia, Canadá, Butão e França. Em 2014, a Bolívia implementou seu primeiro indicador de bem viver, o projeto Vivir Bien, que considera a relação do homem com a natureza e busca o resgate dos valores tradicionais da região andina.

Na Europa, a França está entre as primeiras nações a executarem projetos de bem viver a nível local, com a iniciativa Indicadores Sociais e Territoriais de Sustentabilidade – Indicateurs de bien-etre sociaux territorialisés (IBEST) -, em Grenoble. Lançado em 2017, o IBEST está sendo testado em outras municipalidades e desafia ferramentas e indicadores convencionais.

Como resultado do encontro, organizadores do Fórum desenvolverão um material pedagógico sobre o bem viver, assim como novos indicadores de riqueza e novas abordagens para se pensar o desenvolvimento. A Agência Jovem de Notícias Internacional (Youth Press Agency) contou com uma equipe de jovens repórteres em campo para a cobertura do evento, confira outras matérias sobre o fórum aqui.