82% dos estudantes são contra o Escola sem Partido

O que será que os estudantes pensam sobre o projeto da Escola sem Partido? Para responder a essa pergunta, o Quero na Escola, realizou uma pesquisa com 107 jovens. A coleta dos dados ocorreu a partir de um questionário online, disponibilizado na plataforma Typeform e divulgado entre os estudantes. A pesquisa baseou-se no texto do Projeto de Lei 193/2016 que tramita no Congresso Nacional, o qual pretende incluir entre as diretrizes e bases da educação nacional (LDB), o Programa Escola sem Partido. Além dele, há outras versões do projeto em âmbito federal e estadual que estão em tramitação. Num contexto geral, o projeto pretende eliminar a discussão ideológica no ambiente escolar, restringindo e punindo educadores. No questionário, composto por doze questões, cada pergunta trazia itens do texto em análise na Câmara dos Deputados.

Entre os resultados divulgados no site do Quero na Escola, destaca-se queentre os pesquisados, 88% disseram que já haviam ouvido falar no Escola Sem Partido. Além disso, 82% dos estudantes disseram que são contra a proposta e 92% responderam que a mudança afetaria sua vida “muito” ou “totalmente”. Os alunos defendem ainda que os professores devem ter opinião sobre os assuntos sobre o qual ensinam (89%) e dizem que quando os educadores dividem suas opiniões e experiências isso ajuda na aula (84%). Outro item que teve maioria contrária foi a proposta de que a escola não fale sobre gênero. Para 76% o projeto está errado, ou seja, o assunto deveria ser abordado dentro da escola. O questionário completo pode ser acessado aqui.

Além de responder à pesquisa, vários estudantes se colocaram à disposição para falar sobre o assunto. Assim, confira a seguir o depoimento de três estudantes que responderam o questionário do Quero na Escola, sobre o porquê são contra ou a favor desse Projeto de Lei:

 

Gabrielly Pinheiro Guedes, 17 anos, Itapevi-SP, 3º ano do Ensino Médio.

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“O Projeto Escola Sem Partido vem assombrando escolas da rede pública, pois quer acabar com as maravilhosas aulas que, nós estudantes, temos em matérias como Geografia, História, Sociologia, Filosofia. Com esse projeto o professor deverá seguir um currículo desatualizado e sem fonte nenhuma de argumentação prévia, e não poderá dar sua opinião sobre o caso. Por exemplo, se no 9° ano estivermos estudando nazismo, o professor não poderá manifestar sua opinião sobre a perseguição xenofóbica a judeus, ou, em aula de Geografia, o professor não dará opiniões sobre desastres ambientais, como o de Mariana, ano passado. Se até jornais impressos e televisivos tem sua ‘área de opinião’, por que na escola, onde vamos aprender, querem nos privar disso?

Aulas com opinião de professores, que são formados, estudaram 5, 6 anos, e que sabem do que estão falando, ajuda e muito nós a constituir a nossa opinião a partir da ideia que podemos concordar ou não com a opinião deles. Eu já vivi um caso disso.No começo desse ano, estávamos estudando ‘A Revolução Russa’, e meu professor totalmente de extrema esquerda, defendia com fervor a revolta.Eu como uma ‘em cima do muro’, discuti com ele inúmeras vezes, apoiando o capitalismo, e em nenhum momento, ninguém foi desrespeitado, apenas expomos nossas opiniões e argumentos.Mas, ele tinha fontes, e eu não. Então, fui criar as minhas. Lendo e relendo, assistindo vídeos, a fim de criar um argumento mais forte que o dele, e nesses estudos, acabei entrando para o time dele. Ou seja, nessa história, não fui doutrinada, fui ensinada, pois era contra, até escutar a opinião controversa, que eu nunca tinha visto, debater e estudar o tema”.

 

Ítalo Coutinho, 17 anos, Guarulhos-SP, 3º ano do Ensino Médio

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 “Na minha opinião, as escolas públicas têm uma grande deficiência no fato de o aluno não ter um pensamento crítico. Alguns professores (a minoria) tentam de alguma forma nos influenciar politicamente, e ideologicamente. A Escola sem Partido a meu ver seria de extrema importância, pois mesmo com a falta do pensamento crítico, o aluno seria capaz de tirar suas próprias opiniões políticas e ideológicas, gerando assim uma maior independência, um ambiente mais democrático, sendo as crenças e opiniões dos alunos respeitados e o mais importante: não manipuladas”.

 

Nathanael Fonseca Papi, 17 anos, Rio de Janeiro-RJ, 3º ano do Ensino Médio

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“Acredito que o Projeto de Lei abriu uma discussão grande sobre a questão dos assuntos tratados em sala de aula. Acho que há uma polarização entre as pessoas que acreditam que não há nenhum inclinamento nos assuntos tratados e as pessoas que acham que tudo é ‘doutrinação’, marxismo, ou qualquer outro termo. Acho que pode haver realmente um enviesamento em certas matérias nas ciências humanas, entretanto, vejo com muito maus olhos a tentativa de cercear discursos. O projeto falha ao exigir neutralidade em coisas que são fundamentalmente não-neutras, que é o ensino, não acho que professores devam ser impedidos de emitir opiniões. O projeto ainda restringe a discussão de gênero na sala, algo de extrema relevância no mundo atual, com tantos debates de ideias sobre isso é isolar a escola do mundo exterior, e o argumento é, muitas vezes, de base religiosa. O projeto ainda fala que os alunos devem receber a educação em conformidade com as convicções dos pais, o que é objetivamente impossível de ser feito. Não há neutralidade quando se passa conhecimento, há sempre uma opção de análise.O contato com diversas ideias faz parte de uma democracia. Vejo esse projeto como mais um faceta desse autoritarismo entranhado no imaginário brasileiro, que acha lícito o estado impedir e regular discursos”.

 

E você, qual a sua opinião sobre a Escola sem Partido? No site do Senado Federal você tem acesso ao texto do Projeto de Lei na íntegra e ainda acompanha a tramitação. Acesse e conte pra gente o que você pensa sobre o assunto!

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Sobre o Quero na Escola: É um site em que estudantes de escolas públicas de qualquer parte do Brasil respondem a pergunta “O que você gostaria de aprender além do currículo obrigatório?” e as respostas geram um mapa de escolas com pedidos. No mesmo site, voluntários se cadastram para atender a estes pedidos. Segundo a jornalista Cinthia Rodrigues, que integra a equipe do Quero na Escola, em um ano de atuação, a iniciativa já atendeu quase 2 mil alunos.