Um dia pra mudar uma história: relatos da Ocupação Chico Prego

Por: Leandra Barros/ Foto: Leandra Barros

Há um mês e meio,  conversei com cerca de 5 famílias que estavam passando seus últimos momentos dentro da Ocupação Chico Prego, no centro de Vitória do Espirito Santo. Em um pouco mais de 24h essas famílias seriam postas na rua pela Prefeitura Municipal de Vitória, sem ter para onde ir.

A primeira delas, a família Macyel, estava aos cuidados de duas adolescentes Kaká (17) e Vanessa (15). Elas estavam no cômodo que coube à família durante o tempo no prédio, cuidando de seus quatro irmãozinhos: Evelin (11), Lidiane (7) e os fofos gêmeos, Adrian e Edson (3). Os pais, Adriana e Edson, estavam fora. Edson é pedreiro e precisou ir trabalhar. Adriana tinha dado uma saidinha. As meninas estavam terminando de ajeitar as coisas para a mudança. Essa família, felizmente, tinha para onde ir quando o prédio sofresse a reintegração em menos de 48h. Não era a realidade de nenhuma das famílias com que conversei depois dessa.
Perguntei o que tinha sido bom e o que tinha sido ruim durante os três meses em que tinham morado ali. De bom, ninguém sabia de fato responder. Os olhares se perdiam no nada… como se estivessem buscando uma resposta, mas não encontravam com facilidade.  Reformulei a pergunta: “não teve nada de legal te ter morado aqui”? Uma delas respondeu: “ah… talvez algumas amizades que a gente fez. Mas a maioria a gente já conhecia antes. Vieram com a gente desde a Fazendinha”. A Fazendinha foi onde moravam duas ocupações atrás. Era a terceira ocupação delas em menos de seis meses. Entendi porque achar algo bom era tão difícil. Quando perguntei o que era ruim, relataram medos e inseguranças. Não sabiam o que queriam ser quando crescer. E tinham lembranças terríveis do dia em que um dos apartamentos no andar delas pegou fogo, porque a vizinha estava cozinhando com álcool. Lidiane (7) ainda lembrava bem quando o moço rolou com ela escada abaixo enquanto tentava fugir do fogo e da fumaça. Nem posso dizer que estavam felizes de ir embora. Mas estavam conformadas e gratas por, pelo menos, terem pra onde ir até conseguir outra coisa.

Já Rafaela Caldeira (34), não fazia idéia de pra onde ir com seu filho de 14 anos e sua tia, dona Zenair (73), que é cadeirante, tem um déficit mental e requer cuidados especiais. “Aqui, cerca de 10 pessoas vem visitar minha tia por tia. Trazem balinha para ela e tudo… Ela gosta de ser agradada”, contou a sobrinha. “Eu não tenho conseguido mais emprego e não tenho condições de pagar um aluguel de R$ 500. Só de fraldas pra minha tia eu gasto cerca de R$600 por mês”. Rafaela é cuidadora de idosos e assumiu a tia porque nenhum dos irmãos da tia quis assumir. Incluindo a mãe de Rafaela, que estava lá, fazendo uma visita pras filhas menos de 48h antes de elas serem desalojadas.

Digo filhas, no plural, porque além de Rafaela, essa senhora tinha outra filha na ocupação: Mileide, 26 anos de vida. Doze deles vividos em situação de rua. Conheci Mileide com seu filho mais novo, Matheus, de 6 meses, no colo. Segundo ela, ele foi a razão de ela mudar de vida: “Me vi grávida pela terceira vez e disse: basta! Eu preciso mudar! Quero ver meus filhos crescerem. Meus dois filhos mais velhos nem me chamam de mãe. Porque eu tive a mais velha, de 11 anos e o Marcos de 3, e deixei pra minha mãe cuidar. Eu não vi nada deles. Não vi o primeiro dentinho, não levei na escola… Mas esse aqui eu quero ver. E eu vou fazer de tudo pra recuperar o amor dos meus filhos”. Ela me contou ainda que viu na ocupação uma chance de se reerguer. “Aqui eu encontrei uma família. Não faltou nada pra mim e pros meus filhos. Porque o pessoal sabe o quanto é difícil eu conseguir emprego por já ter passagem pela polícia e ter sido usuária de droga. Mas eu já estou há 1 ano e meio limpa, e se eu estou procurando emprego é porque eu quero mudar. Meu sonho é ter uma carteira assinada. Aceito trabalhar de qualquer coisa. Mas tá difícil. E não sei o que vai ser de mim depois que eu sair daqui. Não quero ter que voltar pras ruas”.

E como elas, tinham outras famílias, como a do Ismael, com esposa e filhos pequenos, e também desempregado. Mas boa parte das famílias eram chefiadas por mulheres.

Saí daquele prédio com o coração na mão. E não consegui dormir. Já era sexta à noite. No domingo, às 8h da manhã, mais de 60 famílias, que ainda não tinham deixado o prédio iriam sofrer a reintegração de posse que quase nunca é pacífica, porque a polícia quase sempre já chega na truculência. Muitas delas não tinham pra onde ir.

Eu sabia que eu já tinha uma super matéria pra fazer. Mas eu precisava fazer mais. A voz do menino do sonho ecoava na minha mente, e acima o exemplo de Kevin Carter já tinha me ensinado uma lição. Eu precisava fazer mais alguma coisa.

Sábado, ainda bem cedo, sentei-me na cama e fiz uma oração, pedindo a Deus que me ajudasse. Que me desse uma luz sobre o que eu podia fazer. Eu queria encontrar um lugar para abrigar aquelas pessoas e eu tinha menos de 24h para isso. Só um milagre.

Foi aí que tive a idéia de contar a história pelo menos das três famílias com quem eu tinha conversado e que eu sabia que não tinham pra onde ir. Fiz um breve relato da situação de cada uma numa mensagem pelo whasstapp, coloquei fotos, e pedi ajuda para suprir as necessidades mais urgentes: abrigo e emprego. Então mandei para todos os cristão que eu tinha na minha lista, lembrando que Cristo disse que é a Ele que fazemos quando cobrimos o que está com frio, damos água ao que tem sede e visitamos o que está preso.

E, graças a Deus, apesar de muito poucos terem respondido, os poucos que deram retorno prestaram o socorro necessário. Alex Lordelo, empresário que tem um projeto de abrir uma casa para acolher pessoas com necessidade de reabilitação social, disse que ia alugar uma casa para colocar as três famílias, ao menos até terem pra onde ir, para suprir essa situação emergencial. E Usiel Carneiro, pastor da Igreja Batista da Praia do canto respondeu dizendo que estava em viagem, mas passando o contato do pastor Cláudio Quintes, da mesma igreja, que, segundo ele, daria assistência.

E esse homem ajudou de forma marcante. Numa outra mensagem via whastapp escrevi 5 formas de ajudar, porque algumas pessoas queriam cooperar, mas não sabiam como. E acho que posso dizer que o pastor Claudio Quintes ajudou de todas as formas possíveis, e ainda mais.

Ele esteve presente comigo na reintegração de posse, das 8h às 13h do domingo, para junto com outros colegas  e moradores do centro, garantir que a polícia desse o tratamento adequado e respeitoso aos ocupantes. Levou um carro com caçamba atrás para o caso de precisarem de ajuda com a mudança. Pagou café da manhã para alguns de nós que tínhamos ido sem comer. Ajudou a carregar mudança. Conversou com os oficiais de justiça e ofereceu um galpão da igreja para guardar as coisas das famílias que ainda não tinham aonde deixar, porque a Prefeitura disse que conseguiria um lugar, mas não cumpriu. Nem sequer mandou um representante.

E no fim das contas, desde abrigo para quatro famílias (uma a mais do que eu previ), até abrigo para os pertences, passando pelo dinheiro para o frete, doações de roupas e alimentos, e ajuda médica e ajuda na procura por vagas de emprego, eu pude cooperar, fazendo apenas o que estava ao alcance da minha mão. Eu não tinha dinheiro, não tinha casa pra abrigar, nem emprego pra dar. Mas pude usar meus contatos em redes sociais para mobilizar outros para ajudar. Foi uma pequena atitude, mas mudou ao menos o mundo de algumas famílias.

E mudou também o meu. Conheci pessoas incríveis, como a dona Maria Clara, que aos 82 anos, completa 33 anos liderando e sendo inspiração nessa luta. Fiel à teologia da libertação, ela clamava por justiça a plenos pulmões no domingo da reintegração. E puxava o grito de guerra e o pai nosso de mãos dadas numa grande roda com as famílias desabrigadas e os companheiros de missão. Conheci também a galera das Brigadas Populares. Gente jovem também, bacana e engajada em garantir o direito à moradia. A maioria estudantes ou professores de arquitetura, advogados e entendidos dessas coisas de propriedade, imóvel e lei.

E conheci, ao vivo, Stela, que eu cito no meu relato  em 7 Passos de tudo que rolou antes de eu conseguir chegar até à ocupação para ajudar algumas famílias. Você pode ler esse relato AQUI. E entendi que o fato de ela recusar me deixar fazer a matéria quando entrei em contato com ela. Era proteção. Porque os repórteres da grande mídia ali presente pareciam o abutre do registro de Kevin Carter. Cuja história de vida me inspirou a fazer diferente. As famílias choravam, gritavam para saírem e se recusavam a dar entrevistas no dia da reintegração. A mim, como tinha passado o dia com eles na sexta, retirado famílias de lá pra um abrigo no sábado e aparecido para dar apoio no domingo disseram: “Essa sim… ela está com a gente. Não veio se aproveitar da nossa desgraça, não”.

Por mim, por Cristo que é meu exemplo, e por Kevin Carter (leia a história dele e de como me influenciou aqui) que não me deixou esquecer a lição, senti meu dever quase cumprido quando ouvi aquela afirmação. E sigo ajudando como posso.

E tenho certeza que você também pode ajudar a mudar a realidade ao seu redor pra melhor de alguma forma! Se precisar de mais dicas leia a matéria dos 7 Passos , e você vai ver que pra começar, basta se importar…

Que hoje você SE IMPORTE!