Não tem mais volta, nós mulheres estamos mobilizadas

| Sabrina Coutinho, estudante de editoração ECA-USP, feminista e voluntária da Rede Minha Sampa e da Rede Mulheres Mobilizadas

No último domingo, 7 de agosto, marcamos o aniversário de 10 anos da Lei Maria da Penha marchando lentamente pela Avenida Paulista amordaçadas não apenas por lenços, esses simbólicos, mas por um Estado que não nos ouve — e nem quer ouvir. No fim da intervenção, fizemos o que poucas mulheres conseguem: arrancar as mordaças e gritar para a rua inteira: a violência contra a mulher não tem hora marcada.

“Até alguém fazer alguma coisa, ele já me matou”, gritou Ana Ligia Martins no fim da intervenção do dia 7. (Foto: Ju Simões).
“Até alguém fazer alguma coisa, ele já me matou”, gritou Ana Ligia Martins no fim da intervenção do dia 7. (Foto: Ju Simões).

Mulheres Mobilizadas

A Rede Mulheres Mobilizadas começou esse ano com um circuito na semana do Dia Internacional da Mulher, pensado pela Rede Meu Rio. O objetivo era organizar mulheres de diferentes regiões do estado do Rio de Janeiro em torno das questões que consideravam mais importantes e urgentes.

O circuito foi um sucesso antes mesmo de começar, já que inspirou meninas de São Paulo e de Blumenau a organizar movimentos parecidos. A pergunta que nos guia: “O que você deixa de fazer na cidade só por ser mulher?”

Foi gratificante participar desse processo como voluntária da Minha Sampa, rede de mobilização pela cidade de São Paulo, e encontrar tantas mulheres com vontade de fazer o circuito acontecer. Nos juntamos para pensar atividades, organizamos debates, uma roda de leitura feminista e, o mais importante, apoiamos outro movimento que já vinha sendo montado — o Feminicidade.

Feminismo é unir forças com outras mulheres para ter ideias e criar algo — mas se outra mulher já estiver desenvolvendo um projeto com a mesma ideia — por que não somar junto e fortalecer? Hoje, a Rede Mulheres Mobilizadas SP é baseada nisso: mulheres que participam ou querem participar da luta feminista e estão dispostas a se unir em ações nesse sentido.

A luta contra o estupro

Em um dos meus papos com a Anna Livia Arida, diretora da Minha Sampa, conversamos, justamente, sobre os rumos da rede Mulheres Mobilizadas e ficamos pensando em formas de mobilizar as mulheres e a população paulistana em torno das causas feministas. A principal dificuldade que mapeamos era a questão da urgência. Nenhuma das questões que julgávamos importantes pareciam urgentes o suficiente diante da indiferença tanto da maioria das pessoas, como do próprio poder público.

Semanas depois, todos fomos chocados pelo caso do estupro coletivo da jovem de 16 anos no Rio de Janeiro e o assunto da violência contra a mulher se fez urgente. Por algumas semanas, essa foi a principal notícia dos jornais e, com esse caso, outros tantos começaram a aparecer. E um dado ainda mais alarmante veio à tona: a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Isso mesmo, a cada 11 minutos!

1º.jun.2016 — Mulheres se reúnem em protesto “Por Todas Elas” contra a cultura do estupro no vão livre do Masp. O ato lembra o estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro que acendeu o debate. (IImagem: Rogerio Cavalheiro/ Futura Press/ Estadão Conteúdo)
1º.jun.2016 — Mulheres se reúnem em protesto “Por Todas Elas” contra a cultura do estupro no vão livre do Masp. O ato lembra o estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro que acendeu o debate. (IImagem: Rogerio Cavalheiro/ Futura Press/ Estadão Conteúdo)

É aí que entra o trabalho de mobilização: para lembrar a todos sobre a urgência das questões feministas, fortalecer essa luta em cada vez mais espaços e influenciar a criação de políticas públicas permanentes, que garantam nossos direitos na prática.

Informar para mobilizar

O elemento mais importante que uma mulher encontra quando participa de grupos feministas e conta com a ajuda de outras mulheres é a informação.

Quantas mulheres morrem em abortos clandestinos por desconhecerem os métodos contraceptivos e abortivos? Quantas deixam de denunciar a violência que sofrem, já que ouvem todos os dias que “homem é assim mesmo”? A falta de informação sobre seus corpos, seus direitos e suas vidas afeta as mulheres diariamente e esse é um eixo que deve nortear a discussão e a mobilização feminista.

A Rede Mulheres Mobilizadas segue essa linha, oferecendo informação — dados, pesquisas, notícias — e oportunidades de ação para criarmos uma cidade muito mais segura e inclusiva para todas as mulheres.

Oficina “Transporte sem assédio” com Nana Soares e Ana Carolina Nunes, um dos encontros promovidos pela Rede Mulheres Mobilizadas
Oficina “Transporte sem assédio” com Nana Soares e Ana Carolina Nunes, um dos encontros promovidos pela Rede Mulheres Mobilizadas

Mas mais do que isso, essa rede quer ser um espaço aberto para que as mulheres se organizem, se apoiem e compartilhem experiências.

Na intervenção do dia 7 de agosto, por exemplo, fizemos o chamado e reunimos mulheres que não se conheciam, mas tinham o objetivo comum de representar as mulheres vítimas de violência. Ao fim do ato, o grupo já estava unido, trocando ideias de possíveis ações para fortalecer ainda mais essa luta. Quando as mulheres descobrem que são maiores juntas, não tem mais volta.

A conquista da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher 24h em SP

Em São Paulo, temos apenas 9 delegacias com atendimento especial, para atender mais de 5 milhões de mulheres. São 132 em todo o estado. Todas funcionavam apenas durante o horário comercial, ou seja: ficavam fechadas à noite e aos fins de semana, justamente quando os casos de violência são mais frequentes.

A vítima precisa ser acolhida e fazer o boletim de ocorrência o quanto antes, para garantir sua segurança, fornecer provas e ter mais chances de encontrar o agressor. Mas não é o que acontece. A falta de atendimento 24h é um dos maiores motivos pelo qual 90% dos casos de violência contra a mulher nunca serão investigados no Brasil, pois esses crimes nem se quer chegam a ser denunciados.

Então a Minha Sampa lançou uma petição online para recolher assinaturas e exigir do governador Geraldo Alckmin e do secretário de segurança do estado de SP, Mágino Alves, a abertura de Delegacias da Mulher 24h nas cinco regiões da cidade e em todo o estado.

Em pouco tempo, o site reuniu mais de 20 mil assinaturas e a Minha Sampa criou um grupo com mais de 70 embaixadoras de coletivos feministas de outras cidades, levando as táticas que faríamos aqui para todo o estado (como o nosso Telefonaço e o Recadaço)

Com a intervenção artística na Av. Paulista e a grande repercussão na mídia, a pressão sob o governador só aumentou e no mesmo dia veio a notícia: a unidade da Delegacia de Defesa da Mulher da Sé passará a ter atendimento 24h — uma vitória histórica no combate à violência contra a mulher.

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A mobilização para dar escala a essa primeira conquista continua. Mas além de todo o impacto que esse trabalho vai gerar na vida de milhares de mulheres, fica uma sensação forte batendo no meu peito: aos poucos, de ação em ação, seja na internet ou nas ruas, estamos entendendo que somente juntas, com o apoio uma das outras, poderemos vencer a cultura do machismo e criar uma cidade que respeite nossos direitos.

 


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