Cursinho Popular para Enem empodera jovens no Pará

Entrar na universidade e conseguir o primeiro emprego são umas das muitas demandas presentes na vida de muitos/as jovens brasileiros. Os caminhos para alcançar tais espaços são muitos, mas nem sempre fáceis sobretudo para jovens da periferia. Inclusive, tais questões foram pautadas pelos/as jovens entrevistados/as na pesquisa “Agenda Juventude Brasil”, da Secretaria Nacional de Juventude do Governo Federal. Ao serem indagados/as sobre o que existe de mais positivo no Brasil, 63% apontou a possibilidade de estudar, seguido de liberdade de expressão e estabilidade econômica com 55% e 46%, respectivamente. Chama atenção o fato e o olhar otimista em relação aos estudos, trata-se de uma demonstração importante de superação dos desafios que enfrentamos sobretudo com o ensino público brasileiro.

A perceptível a centralidade dos estudos na vida das juventudes brasileiras, é o que nos assinala também os dados em relação ao numero de inscritos na edição de 2016 do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM. Segundo dados do Ministério da Educação, nos últimos anos tem ampliado de forma significativa o interesse pela prova, e para edição deste ano foram contabilizadas 8,6 milhões de estudantes inscritos/as. Trazendo para realidade local, a região norte somou mais de 3 milhões de inscritos/as. Porém, o processo de entrada nas universidades brasileiras não tem sido fácil, principalmente para pessoas trans, afroreligiosos/as, mulheres negras e/ou moradoras e moradores da periferia, em que o acesso e pemanência na escola tem se tornado um grande desafio.

Pensando nesses fatores, surgiu no espaço de terreiro Instituto Nangetu, o Cursinho (R)Existência primeiro espaço criado e direcionado para este publico especifico, que articula o jogo entre Existir e Resistir, nesta sociedade que não tem tratado com respeito a diversidade e pluralidade nela existente.

Lívia Noronha, idealizadora do projeto, comenta que “um cursinho gratuito já era um sonho antigo meu e da minha amiga Orleânia Portela (hoje professora de matemática do cursinho), da época em que eu fazia cursinho também. No início de 2016, vi no Facebook que no Rio de Janeiro, o cursinho Prepara Nem (pré-vestibular para pessoas trans e em vulnerabilidade social) havia sido inaugurado e resolvi fazer uma chamada, pelo meu perfil na mesma rede, para quem quisesse ajudar na construção de um cursinho semelhante. Mas, que tivesse como público alvo pessoas trans, mulheres negras, moradores de periferia e o povo de terreiro.”.

O convite foi recebido pelos voluntários que somam 55 colaboradores e 52 professores, que atuam de forma voluntária na ação. Atualmente, o cursinho conta com 35 estudantes, entre eles e elas está Marineira Ferreira, jovem negra feminista. Ela destaca que o cursinho trouxe  “uma nova perspectiva para aqueles que estão à margem da sociedade. A importância desse projeto vai para além da preparação do Enem. Visto que o publico alvo do cursinho é mulher (trans, negra e/ou periférica) ele viabiliza  debates sobre conjuntura política, identidade de gênero, desconstrói estereótipos e principalmente, trabalha na questão do empoderamento de mulheres trans, negras e periféricas. Bem diferente de outro cursinho no qual frequentei por dois meses, onde sequer os professores perguntavam aos alunos se estávamos entendendo.”

Assim caminha o Cursinho (R)Existência, buscando criar um movimento de construção de outras e novas narrativas e possibilitando que os sujeitos, que antes eram somente números de diversas pesquisas, possam ocupar as universidades e serem protagonistas da também da produção acadêmica.

Livia Noronha, ainda comenta que um dos maiores desafios colocados para a manutenção do (R)Existência tem sido arrecadar doações (em dinheiro, alimentos e materiais de limpeza), processo que tem sido feito principalmente pela página do cursinho no Facebook. Para ela, “O (R)Existência é importante, enquanto curso preparatório pro Enem trabalhando o empoderamento de grupos historicamente oprimidos, para a democratização de espaços – que têm sido ocupados por grupos privilegiados – como a Universidade.”