Já pensou em comer só comida crua? Conheça a Alimentação Viva

|Por: Rodri Nazca, do Virajovem Natal; Foto de destaque: Alimente Culinária Viva

No mundo moderno, marcado pela quantidade de opções de escolha, existem diversas formas de se alimentar. Mas alimentar-se também pode significar nutrir a vida, contribuindo para o cuidado da natureza e seus ciclos durante a produção, e provendo a nossos corpos alimentos saudáveis, ricos em nutrientes, frescos.

“As informações contidas na matéria viva – solo, vegetais, sementes – transmitem encantamento e beleza, através da ação coletiva, religando-nos à Terra, recordando a alegria e fartura presentes.”

Assim pensa Ana Branco, professora do Departamento de Artes e Design da PUC-RJ e criadora do Biochip: grupo aberto de estudo, pesquisa e desenho, que investiga as cores e a recuperação das informações presentes nos modelos vivos, como hortaliças, sementes e frutos. Para esse grupo, o ato de alimentar-se é uma ação de grandes significados e sentidos.

Uma reflexão comum nesse sentido é: o que você alimenta quando se alimenta? Comer é uma ação que começa com o cuidado do solo, a forma de plantio, a maneira como se cuida da plantação – se com insumos naturais ou agrotóxicos, se colhido por pequenas agricultoras de forma manual ou por enormes tratores.

Em seguida, passa pela forma de acessar os alimentos – se adquirido em uma feira de agricultura familiar orgânica ou em um supermercado multinacional, se preparado com carinho e inspiração na sua cozinha ou processado numa indústria, tratado com conservantes e realçadores de sabor químicos. Por fim, chega na degustação e digestão – lenta, apreciando os detalhes dos sabores e ingredientes, ou engolida rapidamente, com pressa e estresse.

O que estamos nutrindo ao nos alimentar, então? Apenas nossos corpos? As teias de relações solidárias entre produtoras e consumidoras de alimentos saudáveis? O lucro de latifundiários, grandes empresas de agronegócio, redes de supermercado?

 

Energia Vital

Em tempos de fast food, de correria, de velocidade crescente dos ritmos da vida cotidiana, o ato de alimentar-se tornou-se mais uma mercadoria, um produto na prateleira ou em telões da lanchonete. Um combo que inclui comida industrializada, cheia de produtos químicos, que, de quebra, acompanha uma porção extra grande de impactos ambientais e danos à saúde.

Uma prática alimentar e perspectiva de vida ainda pouco conhecida é a Alimentação Viva, também chamada Crudivorismo. Os adeptos dessa dieta entendem que os alimentos vegetais carregam vida, energia vital, e que o processo de cozimento prejudica o alimento, causando a perda desta energia, desnaturando os nutrientes, destruindo as enzimas presentes neles, entre elas alguns tipos de proteínas que colaboram com a digestão e outros processos biológicos.

Exemplo de um prato de almoço com alimentação viva: Muqueca de coco verde, lentilha germinada e refogada no alho e gengibre, Abacate com gergelim. | Foto: Alimente Culinária Viva.

Sendo assim, a Alimentação Viva é uma culinária que brinca com os sabores dos alimentos crus, trabalhando-os de inúmeras formas. A germinação de sementes e brotos, a preparação com o sol, o amornamento (aquecer o alimento até no máximo 45°C a 50°C, de modo que ele fique aquecido, mas ainda cru), e o uso de inúmeros ingredientes ignorados pela alimentação convencional, como alguns  temperos e vegetais, usados de diferentes formas.

Exemplos de pratos dessa culinária são o macarrão cru de abobrinha, ou o sushi (ou crushi) de amendoim germinado. É Uma forma de se alimentar que se conecta com o alimento de forma mais profunda, pois valoriza sua energia, sua vida, todos os elementos presentes no alimento em sua forma original.

Weynna Dória, criadora da Alimente – Culinária Viva, iniciativa realizada em Pium, distrito de Nízia Floresta/RN, fala sobre essa bioconsciência que precisamos despertar, “uma maneira de despertar novas formas de viver, de pensar, de agir no mundo, de estarmos conscientes no mundo. Pensar que há alternativas e a gente pode fazer essas alternativas e elas são simples, são viáveis, são humanas”.

Em tempos de alimentos adulterados – leite com produtos químicos, carne vencida – e geneticamente modificados, em busca unicamente de alimentar o lucro, é preciso repensar e ressignificar a forma de se alimentar. É preciso reconectar-se com a natureza e com a Vida que ela proporciona, cuidando dela e a merecendo.