ARTIGO: Pela criminalização da homofobia

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Por Emerson Machado, jornalista, escritor e autor de vários livros infantis e juvenis, entre suas obras estão “O Investigador de Sótãos” (selecionado pelo PNBE 2011) e “Mamães e Papais”, que trata do tema homossexualidade para crianças a partir dos oito anos | Imagem: EBC 

Eu sou gay. O que quer dizer que eu faço parte da “minoria” de que todos estão falando hoje. Só que nunca fui limitado a essa característica. Não só eu como todos os outros gays do Brasil e do mundo. Eu sou jornalista, escritor (de livros infantis e juvenis!), filho, irmão, amigo… Porém, ontem, durante o debate político dos presidenciáveis na TV Record, um dos candidatos pediu que a “maioria” (se referindo aos heterossexuais) me enfrentasse, que não tivesse “medo” de me enfrentar, simplesmente por ser gay. Assim, só por isso. Afirmou ainda que eu deveria procurar ajuda psicológica sobre a minha “condição” e que ainda fosse para bem longe.

Não que ir para bem longe não fosse a vontade imediata que me tomou assim que ouvi as declarações absurdas desse candidato que poderia muito bem ser preso por incitação ao crime, praticamente pedindo que o ódio aos homossexuais fosse elevado a uma categoria de caça às bruxas. Não consigo nem pensar sem ter vontade de chorar sobre os pais de gays, lésbicas, transsexuais e afins que pensam da mesma forma que o “nanico” do PRTB e agora podem dizer aos filhos que são “maioria”, podendo reprimir essas pessoas que simplesmente nasceram do jeito que são.

Queria que meu texto estivesse cheio de informação, conteúdo científico e dados sobre o número de mortes de homossexuais no Brasil (que é altíssimo), mas só consigo sentir nojo ao me lembrar de tudo aquilo que foi vomitado da boca de Fidélix durante o debate. Também queria me sentir um pouco melhor ao escrever esse texto por saber que a “maioria” iria me apoiar, mas em um dos sites que veicularam a notícia sobre o discurso de ódio é possível ver uma penca de comentários concordando com toda aquela merda que fomos obrigados a ouvir calados ontem à noite.

Senti vergonha. Não por ser gay, por saber que na sociedade que eu vivo (e tanto amo), a hipocrisia reina, os fundamentalistas e os “protetores da família” na verdade são uma corja de criminosos e desmiolados que não sabem o que dizer. E não me venham com essa de “liberdade de expressão” (que é prevista na Constituição como um direito). Quando alguém usa a sua “opinião” para incitar a violência ou prejudicar alguém ou um grupo, o direito já não é mais válido – a Constituição não pode defender criminosos. Logo, não me falem também de “ditadura gayzista”, pois como é bem sabido: não é privilégio nenhum um grupo conseguir os mesmos direitos que os outros já tinham há muito tempo.

O que percebo é que estamos no meio de uma tentativa estranha de se instaurar um outro tipo de ditadura: a da opressão, típica de uma sociedade que não sabe dar valor e proteção a todos os seus cidadãos — sem qualquer espécie de distinção.

Eu sou gay. Não existe possibilidade alguma de eu não ser gay. Nenhum outro gay deixará de ser gay também. O tratamento psicológico que querem indicar também não fará nenhum gay deixar de ser gay. Será que ninguém entende que não é uma questão de escolha, mas de natureza?

A conclusão do debate político fica assim: pode ser que Levy Fidélix não tenha dado facadas e tiros, mas o sangue de milhares de homossexuais está nas mãos dele. Aquele homem na Avenida Paulista que estava com uma lâmpada fluorescente e a acertou em um dos que são como eu (porém não diferentes de ninguém) acabou de ganhar do candidato uma arma ainda mais poderosa: incentivo.