[RESENHA] Corra! As utilizações do negro foram atualizadas

|Imagem: divulgação filme Corra! 

E tudo começou quando um de meus ancestrais vivia tranquilamente em algum país do centro-sul do continente africano. A primeira utilização do corpo negro foi ali, nos prenderam através da força.

Utilizaram esse mito que nos permeia, de sermos fortes e mais resistentes. Algo como alguma dotação ou benção divina, alguns dizem que é pela quantidade de melanina. Mas calma, a única força comprovada é da resistência histórica às opressões e abusos.

A segunda utilização corporal que quero citar, é o abuso sexual. A mulher negra vira objeto e essa desconstrução da hipersexualização permeia até hoje. E deixo o meu recado: elogie uma mulher negra pela sua intelectualidade, atos sociais e não por traços corporais. O abuso nos nossos corpos acabaram e no verbo vai se romper agora.

A utilidade parecia ter acabado. A falsa abolição, que só afastou o negro para as margens, a aparente ideia de que os trabalhos realizados eram pagos, foi só mais uma utilização maquiada.

Em seguida, vem a Lei da Vadiagem. Sancionada em 1941, durante o governo Getúlio Vargas, a Lei não passou de uma estratégia para encarcerar pobres, negros e pessoas sem emprego. Além de não resolver os altos índices de desemprego e violência do país, a lei  utilizou o negro para encher o cárcere.

Acumulados em espaços impostos, que hoje estamos invertendo, criamos a nossa própria maneira de viver e encarar o mundo, a nossa cultura. Um exemplo é o samba, gênero musical que desceu o morro e fez sucesso nas rádios, mas cujo povo ficou apenas caracterizado com o símbolo musical.

Lutamos, tomamos voz, e viram que não somos apenas corpos. E nisso perceberam outro meio de utilização. O novo sucesso do cinema, o filme Corra (Get Out!), do diretor Jordan Peele, mostra, de maneira assustadora, essa nova utilização do negro.

O filme se passa em um simples final de semana. Chris, um jovem negro, é convidado para conhecer a propriedade da família de Rose, sua namorada, que é branca.

E nada de novidades. Chris tem que lidar com atitudes corriqueiras que nós, negros, presenciamos sempre: uma família branca, com empregados negros; um pai que conta sua admiração pelo Barack Obama; amigos da família que tentam abordar Chris com assuntos ligados ao basquete e boxe – todos exemplos de maneiras de utilização do negro.

No entanto, o filme vai além, ele mostra esse racismo cotidiano, que às vezes passa despercebido, de maneira aterrorizante. O longa assusta, amedronta e provoca os espectadores por denunciar, por trás da trama, o terror diário vivido pelos negros: a utilização de seus corpos e mentes para serviço dos brancos.

A todo tempo, dentro e fora das telas, tentam nos estereotipar e cursar os nossos gostos, não é porque sou negra que tenho que saber sambar, ou lutar boxe ou MMA, como sugerem alguns personagens no filme. Na trama, a família tem empregados negros e usam o jargão “Eles fazem parte da família também”, tentando suavizar o cenário que, ao final do filme, será desmascarado.

Vamos lá, as justificativas “Mas eu tenho um amigo negro”, “Mas a minha bisavó era negra” e todas as outras desculpas institucionais não vão livrar ninguém do racismo. E o filme deixa isso mais que evidente.

Finalmente, a sociedade vê que não somos apenas corpos, mas agora quer o nosso olhar, a nossa fala, a nossa vivência, a nossa criatividade, a nossa sabedoria, o nosso senso de comunidade, a nossa alegria, a nossa disposição para a arte e a nossa música. Corra! Essa é a indicação do filme. As utilizações foram atualizadas?