Mês da Consciência Negra é levado para dentro do YouTube

Qual é o ideal e o real? O ideal é que negros estejam presentes em todos os setores do que conhecemos como sociedade e não apenas representados. O real? Ainda falta muito para que os espaços públicos e privados os enxerguem como deve ser. Foi pensando nisso foi criado o #YouTubeNegro. Neste mês da Consciência Negra, diversos YouTubers abordarão temas acerca dos preconceitos, tabus e das inúmeras dificuldades que mulheres negras, homens e jovens sofrem cotidianamente.

Nataly Neri tem 22 anos e é uma das maiores geradoras de conteúdo negro atualmente.O canal Afros e Afins possui cerca de 117 mil inscritos e tem um ano e quatro meses no ar. A jovem estudante de Ciências Sociais, começou com o canal falando sobre “apropriação cultural”, o que rendeu um crescimento de público. Em contrapartida, ela recebeu muitas críticas, por ser um assunto polêmico e que possui opiniões divergentes. Em novembro, Nataly produziu vídeos com frequência, em parceria com outros YouTubers negros, abordando temas como Negros e Ascensão (com Ana Paula Xongani), Criando filhos negros (com Egnalda Cortês), Relacionamento e Afetividade Negra (com Murilo Araújo), Mulher Negra e Sexualidade ( Com Xan Ravelli e Gabi Oliveira), entre outros. 

No sábado, dia 11 de novembro, foi promovida dentro do YouTube Space, uma conversa com mulheres negras, geradoras de conteúdo. Alexandra Ravelli do canal Soul Vaidosa, Ana Paula Xonganie Nataly Neri do Afros e Afins falaram sobre início dos canais, conteúdo e representatividade. O jovem Pedro Henrique Cortês, do Ph Cortês também estava presente. Seu canal fala de heróis negros brasileiros como Machado de Assis e Zumbi dos Palmares. 

Youtubers falando sobre suas experiências
Youtubers falando sobre suas experiências

Para Alexandra, a maior barreira das mulheres negras é a autoestima. “No Youtube eu não via ninguém falando sobre feminismo negro. Falo sobre maternidade, cabelo, maquiagem, mas demorou muito para que eu assumisse quem sou”, disse emocionada. No começo, Alexandra não conhecia técnicas sobre luz, enquadramento ou áudio, para ela o que importava era o conteúdo. “Em todos os vídeos dou minha cara a tapa, mostro quem eu sou de verdade. Ensino, principalmente, maquiagem para mulheres negras, que sempre foram invisíveis na sociedade”, completou. 

Participaram do encontro, jovens negros de 17 a 22 anos, que chegaram com uma ideia de possivelmente fazer um canal e que saíram já com algumas pautas e temas para abordarem. Para estes jovens, as Youtubers disseram que no começo não é fácil saber o que vai dar certo ou não, é preciso arriscar. Se não há equipamento, no começo um celular é o suficiente, o importante mesmo é a mensagem que será passada aos inscritos. Além disso, é fundamental falar sobre a militância e sobre os problemas sociais, mas é necessário que tenha o toque do dono do canal. 

Para Ana Paula, é necessário que o criador de conteúdo seja ele mesmo, amplie seu discurso e aborde temas que sejam importantes em sua vida. “Seja quem você é, inclusive no YouTube. Sou protagonista do meu canal. Falo de mulheres negras, enquanto mulher negra e aproveito para falar sobre moda afro porque tenho um Ateliê”, comentou. 

Quem assiste aos vídeos pode ter a ligeira impressão de que é fácil. Afinal, é só ligar a câmera, falar e colocá-lo no ar. Mas as coisas não funcionam nessa ordem lá do outro lado. É necessário planejamento, pesquisa sobre o tema e segurança no que vai dizer. Nataly, que faz faculdade, sabe bem como isso funciona. “Eu estudo, moro sozinha e por isso preciso fazer minha comida, arrumar minhas coisas, lavar minha roupa, portanto só posso gravar na madrugada”. Até aprender a se equilibrar, Nataly passou por maus bocados, inclusive na faculdade. Quando descobriu como poderia resolver seu problema, soube que sucesso também é ter um psicológico forte. 

A iniciativa do YouTube é um passo importante para que assuntos como preconceitos, racismo, igualdade de gênero, homofobia, entre outros, sejam discutidos e ampliados em uma plataforma que cresce a cada dia e que é vista por milhares de jovens brasileiros. Mais do que representatividade, o homem negro, a mulher negra(que sofre duplamente por também ser mulher), precisam ocupar todos os espaços que existem, inclusive na internet. É preciso expor a ferida para que outras pessoas possam tentar amenizá-la. O racismo é um problema social que devasta crianças e jovens, deixando-os com sequelas para a vida toda. Sendo a interneto meio mais eficaz de discutir problemas e levá-los para os mais diversos meios, é fundamental que quem sofre o preconceito na pele tenha voz ativa.