Youngo abre a COP 21 com discurso preocupante, mas esperançoso

Pedro Neves, de Paris

Desde de a UNFCCC (Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) de 2005, na COP 5, em Bonn, jovens e adolescentes vem participando de sua elaboração, além de realizar reuniões preparatórias chamadas “Conferências da Juventude”, que ajudam a construir e capacitar esses jovens para o processo das negociações.

As Nações Unidas criaram um órgão, desde então, que representa essa parcela dos participantes, denominada Youngo (eleitorado observador de juventude das organizações não governamentais). Em termos práticos, foi dada à Youngo a responsabilidade de dirigir plenários, discutir segmentos de alto escalão sobre a COP/CMP, fazer requisições individuais e coletivas, realizar workshops de capacitação, encontrar oficiais de Convenções, como também ocupar cadeiras nas discussões e promover o dia da juventude e futuras gerações durante as COPs.

No primeiro dia de evento em Paris, na COP21, a Youngo fez sua primeira declaração e lançaram um documento falando das expectativas do órgão para os acordos que definirão a COP21. “Respire fundo. Essa vai ser a última vez que qualquer ser vivo vai presenciar os níveis de CO2 abaixo de 400ppm. Acorde. Após longos anos dormindo, desde 1992 até 2015, chegou a hora de acordar”, disse Juan Jose Vazquez Milling, representante da Youngo, em sua fala de abertura na COP21.

“Estamos aqui, em cada COP, para mostrar que podemos e vamos contribuir. Representamos metade dos seres humanos de todo o mundo e podemos ser uma voz moral forte. Ainda estamos à procura dos valores universais que podem nos guiar através dessas negociações. Pedimos aos negociadores que continuem a apreciar nossa voz e usá-la como uma inspiração para as próximas negociações”, contou Madie Little, outra oradora representante da Youngo.

Em seu discurso, Juan Jose trouxe à tona a responsabilidade dos negociadores em relação ao futuro do nosso planeta como o conhecemos e como o queremos para as futuras gerações. “Estamos encarando uma emergência planetária: enchentes, tempestades, secas e elevação do mar demonstram a crise climática, junto com os impactos sociais e políticos que causam. Os cientistas já afirmaram, se os INDCs continuarem desse jeito, a temperatura do planeta vai aumentar 6 graus, sendo que o ideal seria 1,5 graus”, contou.

“As pessoas podem não entender a complexidade da ciência do clima: os jargões, gráficos, siglas. O que sabemos é que os nossos mares estão subindo, nossa terra está lentamente morrendo, água salgada invadindo a terra, matando agricultura e estragando a água potável. Nossos peixes e corais estão morrendo. O clima tem mudado tanto que já não conseguimos prevê-lo, tememos as secas tanto quanto as enchentes. Esta é a nossa realidade”, disse Ky, outra oradora do Fiji.

A juventude está em peso na COP21 e tiveram a oportunidade de alinhar o discurso na COY11, que aconteceu uma semana antes. A participação dessa parcela mostra que se governos não forem ambiciosos, a juventude cobrará e ficará em cima por resultados. “Nós, os jovens, queremos ver o mundo através de uma lente moral mais forte, queremos ver um acordo que seja justo, ambicioso e fundamentado nos princípios da convenção”, afirmou Juan Jose. Ainda segundo ele, partidos devem deixar de se omitir e tomar responsabilidade pelos seus atos: “Partes devem tomar medidas, reconhecendo as responsabilidades comuns diferenciadas e seguindo ações justas, sabendo que a cada ano aumentam os prejuízos para os mais vulneráveis”.

As enormes diferenças de emissões precisam ser definidas para ficar menos de 1,5 graus, só assim nossas populações não vão morrer de fome, afogar-se, morrer de sede ou serem mortos em inundações. Não adianta achar que guerra e exploração vão resolver algo, o mundo unido pode reverter a situação que estamos presenciando. O nosso futuro precisa ser decidido nesses próximos dias de Conferência e, se depender da juventude, o planeta jamais será o mesmo.