Entrevista com Claudia Assef, fundadora do Women’s Music Event

Por Larissa Costa Mendes

Claudia Assef é jornalista, colunista, DJ e fundadora da Women’s Music Event, plataforma que tem como objetivo aumentar o protagonismo da mulher no cenário musical. Participou do debate “Cultura além do serviço: qual o espaço do jornalismo cultural nos dias de hoje?”, no dia 17 de agosto, durante o seminário “Jornalismo, as novas configurações do quarto poder”, realizado pelo Sesc Vila Mariana em parceria com a Revista Cult.

AJN: O jornalismo cultural encontraria no branded content uma saída para atrair mais adeptos?

Claudia: Cabe ao jornalista ter a cabeça bem aberta pro branded content, eu acho que tem muito preconceito ainda, muito jornalista trata o branded content como ‘ah que saco, um job’. Se você pensar naquilo com o mesmo cuidado que você trata suas matérias, suas investigações e coisa e tal, e oferece soluções e pautas e conteúdos interessantes para essas marcas… As marcas querem estar na cabeça dos seus clientes, então como fazer isso da melhor maneira? Oferecendo um conteúdo que aquela pessoa quer, um conteúdo que ela busca. E um conteúdo que aquela pessoa quer não é, obviamente, um banner no meio da navegação dela, com certeza não, então as marcas já se ligaram que o branded content é um viés interessante. Porém, como você vai fazer isso? Você vai fazer isso no meio de um vídeo, abrindo uma lata de Skol e falar ‘nossa, que refrescante’? Isso é o que a gente vê muitas vezes acontecendo (product placement), mas não é uma coisa que realmente vá trazer benefícios nem para marca e nem pra você que está fazendo conteúdo. Ao contrário, se você consegue de uma forma inteligente mostrar que a Skol foi a primeira cervejaria do Brasil, fazer uma matéria com curiosidades, fazer um top 10 de coisas que você não sabia sobre a Skol, trazer coisas super interessantes, o curioso, o inusitado, trazer aquilo de um jeito leve, bem escrito mas não em forma de palestra, ou seja, de uma forma jovem para cativar sua audiência e sabendo quem é tua audiência também, quem aquela marca quer impactar… então é muito matemático. A gente tem pesquisas e perfis que são analisados, então quando você sai para produzir um conteúdo para uma marca, aquela marca consegue te passar exatamente o perfil do cliente ou do prospect, do futuro cliente que ela quer atingir. Com essa munição na mão, cabe a nós jornalistas criarmos conteúdos interessantes para propor para essa marca, pensando em como apresentar novidades, aguçar a curiosidade daquela comunidade com conteúdos relevantes. Isso é um exercício que tem que ser feito por nós [jornalistas] e a gente tem as ferramentas. O jornalista é um nato não sabedor de nada. Então a gente sabe para quem perguntar, aonde pesquisar, somos pesquisadores e pesquisadoras.

AJN: Lembra de algum trabalho recente que você atuou ou acompanhou, que seria bacana para compartilhar aqui?

Claudia: Por exemplo, eu fiz um branded content para a Absolut (marca de vodca), que me procurou porque eles queriam entrar novamente nessa minha comunidade que é muito voltada à música eletrônica, então eles queriam voltar a ser uma marca relevante porque eles tinham perdido muito terreno para a Smirnoff, eles queriam voltar a ser a vodca da noite, da galera. Então eu propus uma série de branded contents para eles contando a história da música eletrônica em São Paulo, desde os anos 70, as boates, o que tocava lá, quais eram os hits e eles assinavam. Então ficava aquela mensagem subliminar de que a Absolut é muito legal porque eles entregaram esse conteúdo. Depois eu fiz uma com as músicas que foram tocadas por décadas nas boates de São Paulo, então tinha o Love Club em São Paulo, nos anos 90, e quais eram as cinco músicas principais que tocavam lá. Para isso eu entrevistei os DJ’s, fiz uma baita apuração, então foi um trabalho jornalístico sendo remunerado por uma marca sem que eu fale em nenhum momento ‘beba Absolut’.  No começo da matéria tinha um selo ‘este é um conteúdo patrocinado’ e no final tinha um banner da Absolut. [repórter: tem, por exemplo, a Red Bull que é uma grande incentivadora de esporte e cultura né?]. Com certeza. Também já fiz muito trabalho para eles da Red Bull. Já fiz coberturas internacionais, acompanhando as movimentações culturais que eles fazem e a cada momento eu falo Red Bull Music Academy, eu estou contando a história daquele projeto e sempre citando a marca. A Red Bull é muito inteligente nesse sentido. Eles sempre trabalharam com branded content, sempre trabalharam com conteúdos proprietários onde havia muito conteúdo. Isso há vinte anos atrás ou mais que a Red Bull faz, em transformar a marca em uma produtora de conteúdo de verdade, que você quer saber o que está acontecendo dentro da Red Bull Music Academy ou dentro da Red Bull Stratosfer, ou outros projetos que eles criam, sempre projetos super inteligentes que seguem essa linha de realmente criar conteúdos que sejam relevantes.