[RESENHA] Os estilos de vida possíveis de Capitão Fantástico

Capitão Fantástico. Não se trata de um filme sobre um personagem com superpoderes que sozinho irá salvar a humanidade de alguma ameaça extraterrestre, como o nome pode sugerir aos desavisados.

Na realidade, trata-se de uma história onde existe a possibilidade de fazermos escolhas diferentes sobre o estilo de vida que levamos e o tipo de sociedade em que vivemos.

Algum dia a humanidade já viveu com as próprias mãos, a partir de conhecimentos básicos de sobrevivência e relação com a natureza. Sabíamos como tratar uma queimadura de forma natural, descobrir o caminho a partir das estrelas, sobreviver numa floresta, e identificar plantas comestíveis e venenosas.

Essas habilidades não são ficção científica, mas conhecimentos milenares que o esforço humano coletivo criou e que hoje parecem fora da realidade, num mundo onde o consumo é o modo principal de relação com tudo, inclusive o conhecimento e o meio ambiente.

O filme revive essa realidade ao contar a história de uma família de oito pessoas, um casal e seus seis filhos, que escolheu viver por conta própria, com o mínimo contato direto com a “civilização”, em uma floresta do noroeste estadunidense.

No início da trama, descobrimos que a mãe da família está doente e seu estado demanda internação num hospital. Em seguida, o falecimento dela leva os personagens a se confrontarem com o resto do mundo, pois a parte da família materna é rica e conservadora, contrária aos princípios de vida do grupo, e quer negar-lhes a presença no funeral.

A obra busca fazer uma crítica ao modo de vida atual, ocidental e capitalista, a partir de uma narrativa que pincela estilos de vida diferentes, mais próximos da natureza, porém integrados, até certo ponto, a conhecimentos e tecnologias modernas.

Ainda que no meio da floresta, os personagens continuavam estudando seu mundo ao redor, mostrando-se muito mais conscientes dele do que muitos que vivem imersos no dito “sistema”.

Nessa realidade, as pessoas têm mais autonomia sobre suas vidas e se percebem e agem de forma crítica em relação ao mundo em que vivem. Assim, o filme explora as dificuldades, conflitos e possibilidades existentes, sem cair em um panfleto ingênuo de um universo perfeito.

Cena do filme Capitão Fantástico | imagem de divulgação

O longa, escrito e dirigido por Matt Ross e estrelado por Viggo Mortensen, não é uma história sobre pessoas que decidiram “fugir para as montanhas”, mas sobre fazer opções concretas e consequentes sobre o que queremos para nossas vidas em relação à sociedade que nos cerca.

E cada opção que fazemos na vida traz inúmeras consequências, riscos e desdobramentos, problematizados no filme na medida em que o pai da família revê sua vida e pensa se as escolhas que fez foram as melhores, pondo-as em dúvida diante dos acontecimentos.

Assim, com cenas cômicas, inspiradoras, problematizadoras e belas, o filme mostra que podemos ser muito diferentes do que somos.

Não se trata de uma receita de utopia, mas um recorte de vários mundos que já existem aqui e agora, em muitas partes do mundo. Existe todo um universo de comunidades e estilos de vida alternativos espalhados pelo mundo, ecovilas, práticas de permacultura, cooperativas, agroecologia, redes de pessoas, festivais e encontros como o Rainbow Gathering (Encontro Arco-Íris), que abrem portas para outros mundos e reúnem a “família humana” sob princípios de autonomia, conexão com a natureza, cooperação e solidariedade.

 

Por: Rodri Nazca, sonhando e buscando viver aqui e agora em outros mundos possíveis, sustentáveis e criativos.