Especialistas debatem “escravidão digital” na sociedade contemporânea

Eugênio Bucci, Carla Rodrigues e Christian Dunker discutiram como as empresas tecnológicas se aproveitam para lucrar em cima do prazer dos usuários

Por Wesley Santos

Difícil imaginar um jovem que vive, hoje, sem as redes sociais. O avanço tecnológico deixou a geração atual dependente da tecnologia e, consequentemente, das redes sociais. Essa evolução chegou ao ponto em que nem as gerações anteriores ficaram de fora disso e precisaram se adaptar.

Um relatório divulgado pela fundação “We are social” diz que, atualmente, dos mais de 7 bilhões de habitantes no mundo, mais da metade deles já estão na virtualidade. Outro dado interessante é que os brasileiros gastam, diariamente, cerca de 3 horas e meia nas redes sociais.

De modo geral, as redes são usadas para criar posts, publicar fotos, vídeos e comentar sobre variados temas. Quem publica o conteúdo, não paga e também não recebe para isso. Porém, a empresa que é dona da rede lucra de diversas formas, entre elas, com o impulsionamento de publicações, método para angariar mais curtidas e visibilidade por um determinado público. Com isso, sem criar conteúdo, usando apenas as postagens dos usuários, o Facebook, por exemplo, hoje está avaliado em cerca de meio trilhão de reais.

Essa questão levanta diversos questionamentos. Um deles foi comentado por Eugênio Bucci, na última quinta-feira (15), no seminário “Jornalismo: as novas configurações do quarto poder”, realizado pelo Sesc Vila Mariana e pela Revista Cult. Na mesa de discussão sobre o papel da imprensa na formação política e social, ele afirmou que “o capitalismo aprendeu a explorar a diversão. (…) as pessoas trabalham gratuitamente para o Facebook sem saber. Elas produzem conteúdo, como forma de entretenimento, sendo que, na verdade, estão sendo escravas do capitalismo tecnológico”, afirmou o jornalista e professor da ECA-USP.

O termo “capitalismo tecnológico” ou, como alguns conhecem, “capitalismo informacional” foi usado primeiramente por Manuel Castell, sociólogo espanhol, nos anos 1990. Em suas obras, o autor se referia a questão do processo de globalização e do desenvolvimento tecnológico ao ponto de impactar de maneira efetiva na economia.

Com isso, Carla Rodrigues, professora de Filosofia da UFRJ, uma das integrantes da mesa de debate, comentou que no início dos anos 2000, com o começo da popularização da internet, as pessoas eram pagas para produzirem esse tipo de conteúdo. Mas “hoje, não faz sentido que se pague para isso, porque as pessoas o fazem num ato de prazer”, comentou.

Complementando o debate, o outro convidado, Christian Dunker, psicanalista e também professor da USP, tratou do narcisismo na era digital, se referindo à necessidade de auto exposição de muitas pessoas, nas redes sociais. Para ele, as empresas acharam um meio de se aproveitar disso e construir seu mercado. “No ambiente digital, eu imagino que eu tenho um plateia o tempo todo. E isso cria um apaixonamento completamente imaginário. E as empresas se aproveitam disso”, afirmou.

Cobertura Educomunicativa

A Agência Jovem de Notícias realizou a cobertura educomunicativa do Seminário “Jornalismo: novas configurações do quarto poder”, realizado pelo Sesc Vila Mariana e a Revista Cult. A atividade é realizada em parceria entre a Viração e o Sesc Vila Mariana e conta com a participação de 13 jovens estudantes de jornalismo, com o apoio de profissionais da Viração.