Precisamos respeitar as religiões de matrizes africanas do Brasil

|Foto de destaque: portal Brasil 247 – Creative Commons

Hoje, 21 de janeiro, é comemorado o Dia de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil. Mãe Beata de Iemanjá, conhecida Mãe de Santo dentro e fora do país, diz ao ator Lázaro Ramos, em entrevista ao Canal Brasil, que não gosta da palavra “intolerância”. Diante do rosto surpreso de Lázaro, logo explica seu posicionamento: “Sabe por quê? Porque quando você tolera, você é obrigado. E o respeito é lei! O respeito é o que nós temos direito, mas que nos negam”, explica com toda a convicção característica de sua fala. Apesar da entrevista ser de 2015, as palavras de Mãe Beata não envelheceram. O respeito que ela sente falta se reflete nos dados recentes divulgados pela Secretaria dos Direitos Humanos (SDH) sobre o aumento de 105% das denúncias de intolerância religiosa no ano passado e que atingem, principalmente, as religiões de matrizes africanas.

A data de hoje foi instituída há menos de dez anos, no final de 2007, pela lei 11.635 sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em referência ao falecimento de Gildásia dos Santos e Santos, a Mãe Gilda, fundadora do Ilê Axé Abassá de Ogum, terreiro de Candomblé localizado nas imediações da Lagoa do Abaeté, em Salvador (BA). Em 2000, a Mãe de Santo, fortemente abalada pela manchete publicada por um veículo de comunicação religioso com seu rosto e a frase  “macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”, teve um infarto fulminante e não resistiu.

 

PRECONCEITO E ALIENAÇÃO

Além de Gildásia, muitas outras pessoas tiveram seu direito à expressão de culto interrompidos ou impedidos por meio de violência. Não são raros casos como o de Kaylane Campos, que ficou famoso via redes sociais. A menina, então com 11 anos, foi apedrejada depois de sair de Celebração do Candomblé na Vila da Penha, no Rio de Janeiro. Outro exemplo é a depredação e incêndio no  terreiro Casa de Oxóssi, na Estrada Rio Bahia, em Terezópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Também podemos citar o portão do Centro Espírita Pai Mané de Angola, em São Gonçalo, amanhecido com a seguinte frase pichada: “Aqui não queremos macumba” 5 dias depois de ter sido inaugurado.  

Não é coincidência que a maiorias dos ataques sejam feitos às religiões de matrizes africanas. Isso representa o racismo velado que se matém no Brasil, como explica Taís Rodriguez de 25 anos e umbandista há 6: “As pessoas ainda tem muito forte no inconsciente que “macumba” é coisa do escravo africano que faz magia negra contra seus senhores brancos. O racismo, irredutível da nossa sociedade, afirma todos os dias que tudo que vem do negro não presta. Uma das coisas que mais me magoam, também, é ver líderes de outras religiões gastando o tempo de seus cultos para demonizar tudo aquilo que é sagrado para nós. Enquanto isso acontecer, enquanto usarem o nome de nossos Orixás e entidades como “diabo”, ainda veremos muitos terreiros sendo queimados e crianças sendo apedrejadas.”

Taís frequenta toda semana o Centro em Duque de Caxias, Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, onde mora. Ela lembra que antes de “macumba” ser associada a um tipo de religião pelos leigos, a palavra descrevia um instrumento de percussão de origem africana. Um “macumbeiro” era o indivíduo que tocava este instrumento. Ela diz que a palavra é usada em seu grupo de umbanda como uma espécie de piada interna, não significando nenhuma prática dentro da religião.

Instrumento Macumba | foto: divulgação

Outra problemática fruto do preconceito é a dificuldade de colocar em prática a lei 10.639 nas escolas públicas, que pretende levar o ensino da História da África e Cultura Afro-brasileira em um país 53% negro, argumenta Sid Soares, 38 anos, também umbandista. Ele é Pai Pequeno dentro do centro que frequenta, ou seja, auxiliar do Sacerdote, e fala que essa dificuldade também é reflexo do “Brasil estar longe de ser um Estado Laico”. A opinião dele é facilmente percebida nos aspectos do ambiente político brasileiro. Apesar da laicidade ser garantida pela Constituição, há crucifixos nos plenários do Congresso e por diversas vezes, os nomes de santos e de “Deus” são homenageados nas votações do Senado e da Câmara, como aconteceu no processo de impeachment da ex-presidente Dilma, por exemplo.

Além do preconceito sofrido pelas religiões de matrizes africanas ser consequência do racismo velado característico do Brasil, Ticiano Lima, candomblecista há oito anos e iniciado há 7 meses, diz que a questão vai além disso. Segundo ele, o preconceito também tem a ver com a “demonização da cultura” dessas religiões, mais do que o racismo direto. Ele relata que há várias pessoas negras de outras religiões que tentam “evangelizá-lo” e questioná-lo se o candomblé é uma “religião evoluída”. “Poxa, jovem, então você está entregue à praticas satânicas” é o tipo de frase que Ticiano escuta quando diz ter optado por buscar suas raízes ancestrais ao invés de permanecer na igreja evangélica, onde ficou por 18 anos. Ele acredita que pensamentos assim são frutos da alienação e a falta de informação que acabam fazendo associações e interpretações equivocadas do que os Orixás representam.

Ritual de Umbanda | foto: Taís Rodriguez

 

SEMELHANÇAS E BELEZAS DO CANDOMBLÉ E UMBANDA

Devido a essa falta de informação, a Umbanda e o Candomblé são muitas vezes mal vistos, mal interpretados e até confundidos. Luciana da Silva, 52 anos candomblecista há 14 foi da Umbanda desde os 10 e explica que a diferença entre essas religiões começa em suas bases.

“A Umbanda é uma religião brasileira, nascida em 1908, por meio do Médium Zélio Fernandino de Moraes e de seu guia, o Caboclo das 7 Encruzilhadas. É uma religião que, rompeu com o Espiritismo, apesar de trazer ainda consigo alguns de seus elementos, e absorveu também elementos das crenças indígenas, católicas e africanas. Já o Candomblé, (apesar da forma com que conhecemos exista apenas no Brasil), é oriundo da junção das nações trazidas da África pelos escravos.” Luciana conta que saiu da Umbanda porque seu Orixá, Oxumare,  não é cultuado nessa religião e explica melhor a relação do Candomblé com essas divindades.

Casa de Candomblé frequentada por Luciana

“Os cultos Africanos são dedicados aos Orixás, Nkises e Voduns. Dessa maneira, as cantigas, os rituais, as rezas e oferendas, são as mesmas utilizadas pelos ancestrais africanos outrora”. Ela continua a explicação das diferenças dizendo que “a Umbanda trabalha com espíritos, os quais são chamados de guias. São entidades que trabalham na energia do Orixá.  No Candomblé não existe a manifestação de espíritos.  Todavia, o que se manifesta nas sessões de Candomblé são as energias dos Orixás. Tais energias fazem com que o iniciado, chamado de Iyaô, entre em “transe”. Contudo, esse “transe” é bem diferente da chamada “incorporação” existente na Umbanda. Além disso, no Candomblé o iniciado, quando manifestado pelo Orixá, apenas dança seu ritmo. Não fala, não fuma, não bebe, não dá consultas, etc. Apenas chega, reverencia seus Babas e dança suas cantigas, nada mais.” Luciana foi iniciada no Candomblé há 12 anos, e então passou a ser conhecida como “Luciana de Osumarè”

Luciana em seu ritual de iniciação

O Candomblé e a Umbanda são religiões bastante diferentes, apesar de terem pontos de contato entre si como as roupas, os atabaques e o uso do transe mediúnico. Dois outros exemplos de semelhança são a relação com o gênero e com a família que a jornalista Bruna Motta retrata em seu artigo publicado no Esquerda Diário: “A forma como o feminino é tratado na Umbanda e no Candomblé, tendo importantes entidades mulheres, Orixás guerreiras, ligadas a força e a luta, quebram com a ideia da mulher enquanto frágil ou submissa. São religiões que partem de uma outra moral sexual e familiar, diferente da moral cristã baseada no patriarcalismo e na família nuclear”. Ticiano confirma que no Camdomblé, a concepção de família vai além do sangue, passa a se construir família no campo espiritual.  

Para os seguidores dessas religiões, essa relação familiar construída nos terreiros, casas e centros é um aspecto que sempre acaba perpassando seus discursos e visto com beleza. É como reflete a frase de Taís quando fala sobre que acha de mais  bonito na Umbanda: “a conexão com a natureza, entender os mistérios dela e entender os Orixás, é se auto entender também. Somos todos sagrados porque fazemos parte de uma rede só. Mesmo que sejamos filhos de Orixás diferentes, todos, absolutamente todos, são necessários para o equilíbrio.” Já para Sid, o mais bonito é que bancos da Umbanda sejam médicos, doutores, domésticas, ou lavradores, são todos recebidos e acolhidos da mesma forma”.

Culto umbandista | foto: Taís Rodriguez

No Candomblé, Ticiano diz que o mais bonito em sua religião é o aspecto do cuidado que se faz no dia-a-dia. “Cada coisa tem seu detalhe e um processo mágico que as envolve: a roupa, a comida, o canto. Mais do que isso, há um laço da memória que também envolvem essas coisas, fazendo perceber que tudo isso faz parte de uma rede ancestral”.

Para entender melhor o peso da memória, tanto o Candomblé quanto a Umbanda não possuem um livro sagrado. Elas conservam os saberes aos iniciados e, dentro dos iniciados, aos mais velhos por isso, inclusive, o tamanho respeito aos anciões. Seus conhecimentos são transmitidos através da oralidade de geração em geração.

 

RESPEITO, RELIGIÃO E JUVENTUDE

Por isso, é muito importante a participação jovem nessas religiões e ainda mais o respeito dos que não fazem parte delas.

Uma tentativa de despertar o pensamento sobre a questão, principalmente no meio jovem, foi o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do ano passado: “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. A proposta contou com textos de apoio, com destaque para o segundo, tirado do Jornal do Senado, que dizia o seguinte: “O direito de criticar dogmas e encaminhamentos é assegurado como liberdade de expressão, mas atitudes agressivas e ofensas e tratamento diferenciado a alguém em função de crença ou de não ter religião são crimes inafiançáveis e imprescritíveis”.

A proposta  fez internautas se manifestarem entre elogios ao assunto e opinarem sobre a polemização que ele poderia criar entre os adeptos de diferentes credos. O tema deu destaque para o preconceito sofrido pelas religiões de matrizes africanas, mesmo que sutilmente, em seu quarto texto de apoio que mostrava o índice de denúncias por religião, apontando que os fiéis de religiões afro-brasileiras como as principais vítimas de discriminação.

Apesar da redação ser uma uma oportunidade de “lançar uma pulga atrás da orelha” da juventude, não soluciona o preconceito, como pontua Ticiano. Segundo ele, o tema “pode ser uma semente em solo pedregoso, não tendo muitas condições de se aprofundar por mais que tenha tido uma primeira germinação.” Ele reconhece a presença de leis que garantem a liberdade de culto e os movimentos de ações afirmativas que lutam pela causa mas que, na verdade, tentam conquistar o que já é de direito: o respeito. Talvez seja mesmo quando o respeito substitua o tolerar que, finalmente, o solo dito por Ticiano seja adubado fazendo as semestes gerninarem sempre. “O respeito é lei. O respeito é o que nós temos direito e que nos negam”, já dizia Mãe Beata.