Um beco e suas saídas: HQ ambienta Porto Alegre em 1912

Quadrinhos autorais são aqueles em que todo o processo de criação está nas mãos de seus autores, seja roteirista, desenhista ou, o que é muito comum, uma única pessoa que faça tudo. Eles se diferem do quadrinho dito “industrial” em que uma empresa é dona do personagem e contrata profissionais para executar o trabalho, como é o caso das HQs de super-heróis, os da Disney e os gibis da Turma da Mônica.

Pois é entre os quadrinhos autorais que se encontram algumas das melhores obras da atualidade. Infelizmente, muitos desses trabalhos são publicados de forma independente, ou seja, não têm uma editora por trás e, por isso, são distribuídos de maneira limitada. Às vezes, é preciso entrar em contato com o próprio autor para se encomendar a revista ou o livro, fazer o pagamento e aguardar a entrega do correio. A boa notícia é que esse esforço pode valer muito a pena, como é o caso do belo álbum Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler. Ela resolveu contar uma história da cidade onde vive, Porto Alegre, só que ambientada 100 anos atrás, a partir de um ponto de referência geográfico: o tal beco que dá nome ao livro.

Um dos grandes desafios a quem se propõe a fazer uma obra de ficção situada em uma época muito distante da atual é a pesquisa histórica. As roupas que os personagens vestem, os veículos que os transportam e, naturalmente, as ruas por onde circulam. Porém, mais do que isso, é necessário captar o aspecto social do período: seus costumes, valores e preconceitos, e fazer com que os personagens vivam esse contexto. Ana consegue fazer isso de forma excepcional.

Ela nos conduz por um passeio pela Porto Alegre de 1912, num trabalho minucioso de reconstituição de cenários, em paisagens que exibem quarteirões inteiros em ângulos ousados e perspectivas detalhadas, fruto de sua formação como arquiteta. E com o mesmo cuidado, retrata o mobiliário e os cômodos internos das edificações, os figurinos e acessórios e até os modismos daqueles tempos. O visual trabalhado em contornos bem marcados e cores de pinceladas sutis transmite um tom de nostalgia, como se sentíssemos saudade de algo que nunca vivemos.

A qualidade do roteiro, por sua vez, não fica atrás, pois mistura diversas histórias de vida que acabam por formar um painel rico e diversificado de uma sociedade em intensa transformação com destaque para a postura determinada da protagonista Vitória, mulher e negra, para conquistar seu espaço.

Beco do Rosário é um trabalho precioso que vale ser conhecido e acompanhado. Sua continuação já está sendo produzida, mas, por enquanto, não tem previsão de lançamento.

 

Porque é legal ler. Os desenhos de Ana Koehler são belamente executados com cenas. Há cenas leves e divertidas em contraste com o extremo rigor com que ela constrói os cenários. O texto traz informações e curiosidades sobre o período retratado.

Porque é importante ler. Embora a trama se refira a mais de 100 anos atrás, a autora aborda temas muito atuais como a ocupação das metrópoles, preconceito de classes e o papel da mulher na sociedade. O álbum foi vencedor do Troféu HQMIX 2015 na categoria Publicação Independente de Autor.

Para ler e refletir. Ler quadrinhos também é uma forma de “viajar”. No espaço e no tempo.