Clamor pela libertação

Brasília se une a outras 11 cidades do mundo para clamar pela libertação de sete líderes bahá’ís no Irã

Jordana Araújo

A premissa irrevogável do século 21 é fazer com que os direitos humanos sejam respeitados, não apenas dentro do país de origem, mas, sobretudo, a nível global.

Em uma sociedade cada vez mais consumista, valores como dignidade, justiça e generosidade estão sendo silenciados com um mero pretexto: “essa não é a minha realidade; a minha pátria respeita os meus direitos como cidadão”. É o tipo de pensamento comum na Era Contemporânea – mesmo que muitos não se atrevam a dizê-lo francamente, admitindo seu egocentrismo. É o suficiente para comprovar a inércia que impede milhares de pessoas por todo o globo de participar de abaixo assinados, passeatas, manifestos, palestras, campanhas e outras ações de mobilização em favor da justiça e do respeito aos direitos humanos.

Em vez de culpar a falta de instrução de certos indivíduos, precisamos educar pelo exemplo: “sejam atos e não palavras vosso adorno”, disse o Profeta nos idos do século 19. Movidos pela consciência da cidadania mundial, cidadãos brasileiros e de outras nacionalidades se reuniram neste domingo (1º de abril) em Brasília, das 10h às 13h, na Esplanada dos Ministérios para clamar pela liberdade de sete líderes bahá’ís que se encontram detidos desde 2008, em Teerã. Seu único “crime”: acreditar na unidade da humanidade e trabalhar para servir a sua comunidade. Como seguidores da Fé Bahá’í, a maior minoria religiosa no Irã (com 300 mil adeptos), os sete são um símbolo das consequências do pensamento retrógrado de que um determinado grupo hegemônico (no caso, uma filosofia de estado teocrática e absolutista) deva sobressair a todos os demais, aniquilando todos os que se interpõem em seu caminho.

Demonstrando a sintonia global na defesa dos direitos inerentes e invioláveis de cada ser humano  – independente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião, ou outra condição – outras 11 cidades ao redor do mundo também estão mobilizadas nessa mesma data. Simultaneamente, Paris (FR), Londres (UK), Berlim (DE), Sidney (AU), Washington DC (USA), Nova Déli (IN), Cidade do Cabo, Johanesburgo e Pretória (SA), Copenhagen (NE) e Wellington (NZ). A iniciativa coordenada pela organização sem fins lucrativos United4Iran exibe painéis móveis que retratam os prisioneiros bahá’ís – cujos rostos foram compostos por imagens menores de centenas de outros prisioneiros políticos ou de consciência no Irã, entre jornalistas, advogados, professores, cineastas, estudantes e ativistas.

A escolha da data não foi aleatória: o dia 1º de abril de 2012 marca a soma dos 10 mil dias em que esses prisioneiros de consciência se encontram encarcerados. O objetivo máximo da mobilização é que seus participantes, em todas as partes do mundo, possam ser a voz daqueles que não desfrutam dos mesmos direitos que nós brasileiros, neozelandeses, americanos, sul-africanos, alemães, franceses, entre outras tantas nacionalidades. Temos a prerrogativa de liberdade para expressar convicções políticas, sociais e religiosas – sem que as autoridades governamentais nos qualifiquem como “foras-da-lei” ou nos acusem de “espalhar a corrupção na terra”, como o fizeram com essas lideranças (e com os bahá’ís em geral desde o surgimento de sua religião, em 1844, na antiga Pérsia).

Recentemente, foi divulgado internacionalmente um documento que mostra mais de 400 itens publicados na mídia iraniana, no período de um ano e quatro meses, contendo falsas acusações, terminologia incitante, imagens repugnantes para demonizar e difamar a Fé Bahá’í. A crença na unidade de Deus e da humanidade como uma só família parece incomodar profundamente as autoridades iranianas, que respondem com estratégias diversificadas para sufocar a comunidade bahá’í iraniana, seja em suas ações individuais ou comunitárias, em todos os âmbitos da sociedade.

Como reflexo dessa política de intolerância religiosa, os bahá’ís no Irã não têm qualquer amparo da lei, e são vítimas constantes de violações de todo espectro dos direitos humanos: encontram restrições de acesso ao trabalho e emprego, sendo totalmente impedidos de ocupar cargos públicos; não têm o direito de se reunirem; têm seus cemitérios confiscados e destruídos; seus jovens são impedidos de cursar as universidades; entre outras. Saiba mais aqui.

Os ativistas reunidos neste domingo em Brasília e pelo mundo afora são a marca da própria alteridade, exemplificando a possibilidade de um convívio pacífico e harmonioso entre toda a diversidade dos seres humanos.