Quem decide o que é masculino e feminino?

Por Keyllen Nieto*

ARTIGO – Assim que cheguei no Brasil, falando apenas duas palavras: “obrigada” e “garota” (graças ao Tom Jobim), me dei à tarefa de aprender rápida e corretamente esta língua maravilhosa.

Para quem estudou antropologia, o aprendizado de um novo idioma não é apenas um ato de comunicação. É uma utilíssima ferramenta de descobrimento, não só da cultura na qual se está mergulhando, mas também da língua e na origem de um povo; mostra nuances surpreendentes ou realidades escancaradas que muitas vezes passam despercebidas para quem já nasce nesse contexto.

Felizmente para mim, o meu espanhol nativo é suficientemente parecido com o português para atingir rapidamente um nível de comunicação aceitável. E dentre as muitíssimas coisas que compartilhamos como descendentes do latim está o de dividirmos o mundo por gênero: masculino ou feminino. Deve ser uma loucura para quem fala inglês, por exemplo. Quem decidiu que “telefone” é masculino? Quem disse que “televisão” seria uma palavra no feminino? Por quê?

Destaque

Por que as nossas generalizações são no masculino? Mesmo com 99 mulheres e um homem, o que as nossas línguas querem destacar é a preeminência da presença do homem por cima de qualquer número de mulheres. Eis “os cientistas descobriram a cura” e, mesmo sabendo que pode haver mulheres na equipe de cientistas, é inevitável o nosso cérebro visualizar um grupo todo de homens em batas brancas e com cara de inteligentes.

Como também levo a sério o assunto dos idiomas, dou aulas de espanhol e inglês como profissão B e aproveito para instigar, testar, inspirar e até pesquisar. Há muito tempo fiz um experimento muito simples. Pedi para uns amigos da Colômbia escreverem cinco adjetivos para descrever o objeto “árvore” e pedi o mesmo para algumas pessoas da turma de alunos.

O pequeno experimento deu o resultado que eu esperava. Como a palavra é masculina em espanhol (el árbol) e feminina em português (a árvore), os adjetivos de cada grupo deferiram bastante e refletiram o gênero da palavra. Em espanhol os adjetivos foram coisas como forte, fálico, protetor, resistente etc. Em português foi fecunda, frutífera, mãe natureza, vida. O mesmo objeto e visões muito diferentes. A profundidade como o idioma modela o nosso entendimento do mundo é impressionante mesmo.

Feministas

Por isso, o que muitas pessoas acham uma discussão chata das feministas é, de fato, uma das categorias de análise e um dos territórios de mudança mais importantes dentro da conquista para a equidade entre seres humanos. Pois a língua não só reflete a nossa estrutura e a visão de mundo, como influencia nossa capacidade de entendê-lo e imaginá-lo.

Desta forma, têm surgido algumas tentativas de contornar, desafiar ou modificar a exigência do gênero e a masculinização dos plurais. Por exemplo, o uso do @ como forma de incluir feminino e masculino na mesma palavra: “amig@s”. Há outras pessoas que preferem a letra xis para eliminar o gênero: “amigxs”. E há quem opte pelo longo caminho de especificar por separado: “amigos e amigas”. Há também quem faça contorções para usar generalizações que abarquem todo mundo: “o ser humano” em lugar de “o homem”, as “pessoas sensíveis” em vez de “os sensíveis” etc.

Dentro de tudo isso, nos deparamos também com os diferentes valores que outorgamos às palavras, dependendo se é masculina ou feminina: “ele é um cavalo”, “ela é uma vaca”. “Ele é vadio e ela é vadia.” “Ele é um homem público e ela é uma mulher pública” e por aí vai.

Mulherada

Da mesma forma me intriga o porquê da existência da palavra “mulherada” e não existir “homarada”. Talvez porque reflete um esforço por esconder as nossas diferenças? Por que assim fica mais fácil ditar o que toda mulher supostamente deve querer, desejar, fazer, almejar e esconder? Por que, uma vez tratadas como rebanho e internalizada tal condição, será mais fácil conduzir e influenciar?

Enfim, fica exposto o debate e o questionamento: até que ponto as nossas línguas deverão refletir as mudanças na cultura e na sociedade? Até que ponto queremos fazer com que a nossa língua não seja uma língua de macho e, sim, uma que mostre e valorize as nossas diferenças e especificidades?

*Keyllen Nieto é antropóloga colombiana, formada na Universidad de Los Andes. Possui mestrado em Desenvolvimento Sustentável Internacional pela universidade de Brandeis, nos Estados Unidos. Trabalha com políticas públicas de juventude e LGBT, se define como ativista e leonina otimista e encantada pela humanidade.
Texto e imagem: reprodução do blog www.paupraqualquerobra.com.br