Relacionamentos abusivos para além do óbvio

Quando você ouve “Relacionamentos abusivos” o que tem vem à cabeça? Agressão física? Violência sexual? Sim, essas são características de um relacionamento abusivo, mas não existem só essas, sabia?

Existem agressões mais “silenciosas” e que não são físicas.

A psicóloga especialista em terapia de casal, Cecilia Frei, explica que além do abuso físico e sexual, existe o psicológico, o moral, o intelectual e o social/econômico. O que todos eles têm em comum é a dominação de um dos parceiros sobre o outro.

Cecília é também fundadora do Grupo Terapêutico Recuperação da Dependência Afetiva e explica que, em um relacionamento saudável, cada uma das partes tem participação igual na vida em casal (50%). No relacionamento abusivo, o agressor absorve esses 50% da vítima, ao mesmo tempo que ela (a vítima) delega essa participação a ele (o agressor), configurando então uma relação abusiva.

“Ambos querem preencher seu próprio vazio com o outro. Ambos equivocadamente dizem que ‘amam’. Mas precisamos esclarecer que isto não é amor, é dependência afetiva expressa”, argumenta.

O livro “Feridas invisíveis: Abuso não físico contra mulheres”, da escritora norte americana Mary Susan Miller,  elenca algumas características do relacionamento abusivo.

Se você passa ou já passou por alguma das situações acima,  você pode estar vivendo, ou ter vivido, um relacionamento abusivo. E não é sua culpa, nem motivo de vergonha! O que você precisa fazer é sair dessa!

Para isso, além dos abusos citados acima, existem outras características comuns em relacionamentos abusivos. Se você suspeita estar vivendo um relacionamento abusivo, é preciso analisar o comportamento do seu parceiro ou parceira e buscar ajuda.

O agressor, mesmo que inconscientemente, exerce poder sobre a vítima, controlando suas interações sociais e atividades de modo a moldá-la, como conta Cecilia.

“O agressor apresenta uma necessidade exagerada de controlar ou dominar, especialmente sobre as mulheres, como definição de sua masculinidade. A violência é aceita como parte da educação dos homens em nossa sociedade. Encara os relacionamentos em função de uma hierarquia de poder”, explica

O ciúme excessivo é outra característica. Temos que quebrar esse pensamento de que quanto mais ciúmes, mais amor. Isso não é verdade, ciúmes é tóxico e não é sinônimo de amor, é sinônimo de possessividade!

Julia, de 19 anos, viveu um relacionamento abusivo, caracterizado pelo abuso psicológico e social. “Ele [seu parceiro na época] fazia chantagem, dizia que certas pessoas iriam estragar minha vida, que elas iriam mudar minha maneira de ser e me colocar contra ele. Então eu, para vê-lo feliz, me afastava de algumas pessoas ou evitava falar para ele sobre minha relação com elas”.

 

Relacionamento abusivo independe de orientação sexual

Não são só as relações heterossexuais que podem ser abusivas. Existem muitos relatos de abusos em relacionamentos entre homens gays e mulheres gays.

Ana, de 17 anos, viveu um relacionamento abusivo com sua parceira. “Com o passar do tempo, eu comecei a perceber que ela não gostava dos meus amigos. Ficava brava ou me ignorava por horas se eu ficasse mais de uma hora fora do celular. Tinha ciúme de qualquer um muito próximo de mim e muitas vezes me convencia a me isolar das outras pessoas. Na nossa primeira briga, ela se dependurou da janela do prédio. A gente se falava por telefone. Ela começou a dizer que não podia mais confiar em mim e que, por isso, ia se matar. Dava pra ouvir os carros passando lá embaixo”, conta.

E já que estamos falando sobre tabus, aqui vai mais um a ser quebrado: Relacionamentos a distância podem ser abusivos também. É o caso da Laura, de 17 anos.

“Eu achei que relacionamentos abusivos só podiam acontecer se você morasse perto da outra pessoa e ela te batesse, coisas assim (…) Eu tenho ansiedade e depressão, e eu lembro dela [sua antiga parceira] me julgar e ridicularizar inúmeras vezes por isso, dizendo que eu inventava essas questões pra não ter que resolver meus problemas, que era só eu ´ficar menos ansiosa ou ser mais feliz´, conta Laura.

A culpabilização da vítima também é comum nas relações abusivas. “Ela conseguia inverter qualquer situação pra fazer eu me sentir culpada por qualquer briga que a gente tinha. Ela já chegou a se vitimizar, dizendo que eu só estava deprimida porque eu não achava que ela era o bastante para mim e não me fazia feliz”, desabafa.

Como combater?

Uma vez que a pessoa suspeita ou identifica estar em um relacionamento abusivo, o segundo passo é concluir que a relação está sendo prejudicial para ela.

Mas isso nem sempre é fácil. Muitas pessoas que passaram por uma situação abusiva contam que o processo de encerramento dessa relação é tortuoso, desde tomar consciência de que está sendo abusada, até o momento de cortar os laços.

Aqui vão umas dicas de como lidar quando se quer sair dessa situação:

– Procure amigos ou familiares e peça ajuda

-Na hora de colocar um ponto final nessa relação, opte por ter essa conversa num local público onde hajam pessoas pra te ajudar caso o(a) parceiro(a) se tornar agressivo.

-Mantenha distância do agressor, não dando margem para recaídas. Os agressores geralmente têm discursos bem convincentes e isso pode ser uma armadilha que o levará de volta pra toda aquela situação.

-Procure ajuda psicológica, isso vai te ajudar a não se deixar entrar em outras relações do tipo e tratar possíveis traumas.

O tratamento, segundo Cecilia, deve ser um processo de autoconhecimento e um exercício de amor próprio. “Para curar-se não se deve absolutamente largar um e engatar em outro. Ao contrário, recomenda-se a abstinência de romance, paquera e relacionamento, ficar consigo mesma, se conhecer, poder se perceber, se cuidar e se tratar. A pessoa precisa se fortalecer, se encontrar, ficar inteira novamente”, esclarece.

Um fator que dificulta sair desse tipo de relação é a culpabilização da vítima pela situação em que ela se encontra. Julgá-la ou culpá-la acaba a desencorajando de denunciar os abusos sofridos. O que elas precisam é de apoio.

Assim, existem alguns grupos que oferecem essa ajuda. Um deles é o Grupo Terapêutico Recuperação da Dependência Afetiva, criado pela psicóloga Cecilia Frei. Outro é o Mulheres que Amam Demais Anônimas, uma associação de mulheres que passaram ou estão passando por situações de abuso nos relacionamentos.

Na página profissional de Cecília, ela disponibiliza o Manual para Primeiros Encontros – para quem quer um amor amigo, um guia para evitar relacionamentos abusivos desde o início, ou para entrar em outro relacionamento após uma situação de abuso.  

Além disso, é preciso combater a lógica do agressor. De acordo com Linda Rose, terapeuta sexual do grupo de apoio estadunidense para mulheres “You are not alone”, nove a cada dez agressores consideram aceitável o seu comportamento no relacionamento.

Por isso, Cecilia defende que hajam programas de tratamento para os agressores, além de conscientização. Para ela, o agressor “precisa poder mudar a visão de que mulheres são inferiores, portanto, que merecem ser dominadas, de que são propriedade do homem para seu bel prazer, e só se comportarão se forem intimidadas, feridas”, conclui.