8 de março: mulheres em greve contra o patriarcado

|Por: Edda Ribeiro, do Virajovem RJ, e Ethel Rudnitzki, da Redação

 

Hoje, 8 de Março, é celebrado (e lutado) o dia Internacional da Mulher. Ruas e praças no mundo inteiro serão ocupadas por mulheres, que estão organizando a chamada Greve Internacional de Mulheres, não somente em comemoração por direitos conquistados, mas em luta e resistência contra o machismo.

Mais de 60 cidades no Brasil realizarão atividades junto ao movimento. No mundo, cerca de 50 países aderiram ao movimento internacional.

A convocação da paralisação vem acontecendo através das redes sociais, principalmente o Facebook. Para garantir a ocupação das ruas, também ocorrem panfletagens, com a possibilidade do diálogo real e o reconhecimento do movimento internacional.

Além disso, há apoio de diversos coletivos e entidades sindicais na divulgação e construção do movimento, como a Associação Brasileira de Mulheres, e o movimento Ni Una Menos, na Argentina.

 

A Greve Internacional de Mulheres

O movimento da Greve Internacional de Mulheres surgiu em meados do ano passado, quando mulheres da Polônia organizaram uma greve geral contra um projeto de lei que criminalizava oo aborto. Elas deixaram de trabalhar, se vestiram de preto e ocuparam espaços e praças na capital do país.

Em seguida, as argentinas aderiram ao movimento, motivadas pelo feminicídio por empalamento da jovem Lúcia Perez no país. A partir de então, o movimento se internacionalizou e resultou na articulação mundial da greve no dia 8 de março.

“Estamos agindo de maneira coordenada para não deixar as mulheres de nenhuma parte do mundo desamparadas”, afirma Mariana Bastos, uma das articuladoras da greve no Brasil. Ela acompanhou a organização das greves pelo mundo desde outubro do ano passado, via Facebook e reuniões virtuais com outras articuladoras, e conta que “toda vez que as mulheres de algum país precisam de alguma ajuda, tentamos trabalhar juntas por isso, de maneira coordenada.”

No Brasil, o movimento não é encabeçado por nenhum coletivo ou entidade. Foi criado por uma organização espontânea de mulheres. “A organização da greve no Brasil é bastante horizontal. Não há um coletivo principal que está puxando isso, mas existem muitas organizações, coletivos e partidos de todas as colorações que estão construindo essa greve”, conta Mariana.

Apesar disso, há pautas comuns, até porque suas reivindicações são bem diversas. A Greve Internacional de Mulheres, também conhecida como Paro Internacional de Mujeres (PIM) ou International Women’s Strike (IWS), unifica as pautas feministas neste momento. É contra toda forma de violência contra a mulher, principalmente física e psicológica.

A cada 11 minutos, uma mulher é violentada no Brasil. No mundo, uma em cada 14 mulheres já foi agredida sexualmente. Todos os dias, cerca de 15 mulheres são vítimas de feminicídios fatais. “O Brasil é o 5º país em número de feminicídios, então não há como fazer uma manifestação feminista no Brasil sem pensar nas mulheres que morrem diariamente por aqui”, ressalta Mariana Bastos.

Além disso, há a discriminação. As mulheres tiveram que lutar pelo direito de trabalhar. Até o século XVIII, elas não podiam ingressar no mercado de trabalho, sendo obrigadas a fazer o serviço doméstico. E o estereótipo de que o lugar da mulher é em casa, perdura.

Hoje, as mulheres estão presentes na diretoria de grandes empresas, mas recebem em média 30% menos que os homens, mesmo executando a mesma função. Além disso, ainda são as que realizam o trabalho doméstico, vivendo a rotina de uma dupla jornada.

“O que há são classes que exploram e classes que são exploradas. As mulheres sofrem nas duas classes. Mas as mulheres trabalhadoras é que são exploradas,” explica Tatianny Araújo, militante feminista organizada há 23 anos e articuladora da greve no Rio de Janeiro.

Nesse sentido, ao aderir a greve, as mulheres querem mostrar como o mercado é excludente, parando de executar suas funções e pedindo maior reconhecimento.

A Reforma na Previdência no Brasil também é uma pauta forte. O governo brasileiro mudou os requisitos para garantia da aposentadoria, alterando, entre outras coisas, o tempo de contribuição das mulheres e homens para o mesmo – 70 anos. Assim, a dupla jornada feminina foi ignorada.

“Há dinheiro para pagar a aposentadoria, sim. Mas sobretudo para as mulheres, não há como igualar idade para aposentadoria sem resolver o problema do trabalho doméstico, sem resolver o problema da falta de divisão do trabalho”, afirma Tatianny. “O dia 8 de março vem para lutar pela igualdade, mesmo nesse sistema. Preparamos uma greve para unificar todos os setores. A greve é então contra as opressões e a exploração. Já vivemos numa situação precária, não podemos perder mais direitos”, ela completa.

 

Como participar

Há várias formas de atuar pela greve. É importante que todas as mulheres participem e construam o movimento, seja panfletando, discutindo a data, ou discutindo as opressões e explorações que sofrem sistemicamente, no sentido de ampliar o diálogo.

A ideia é que as mulheres parem de trabalhar neste dia, com o mote “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”, e dediquem a data à discussão e reivindicação de seus direitos. Em diversas cidades do Brasil e do mundo, ocorrerão manifestações nos lugares públicos, além de rodas de conversa, palestras e oficinas sobre a situação da mulher.

Considerando que nem todas as mulheres podem abandonar seus postos de trabalho para participar da greve, o movimento criou outras maneiras de participar. Uma delas é a Hora M, que é um momento para essas mulheres se dedicarem à defesa de seus direitos e cessarem suas atividades de trabalho. Isso deve acontecer no sentido de protesto e diálogo. No Brasil, a Hora M acontece entre 12h30 e 13h30, horário de Brasília.

Além disso, outra forma de aderir à greve é “parar de fazer os serviços domésticos por um dia. O que se estimula com isso é tornar visível para a sociedade o quanto esse trabalho é importante para o sistema. Por que, de maneira geral, esse é um trabalho invisível”, explica Mariana Bastos.

Usar roupas e adereços roxos ou pendurar bandeiras dessa cor nas janelas também são formas de participar, visto que essa cor estampa o movimento.

As manifestações no Brasil ocorrerão em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará, Roraima, Acre, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Lugares onde ocorrerá a greve no Brasil

 

Dia 8

O dia 8 de março é o 67º dia do ano no calendário gregoriano (o 68º em dias bissextos), e poderia ser mais um dia comum na vida das mulheres, contabilizando 14 feminicídios pelo mundo e um estupros de mulheres a cada três horas, só no Brasil.

No entanto, 8 de março é uma data em que mulheres historicamente se unem pelo combate à violência e discriminação de gênero, através do dia Internacional da Mulher.

A data foi instituída em 1921, dez anos depois de um incidente em uma fábrica têxtil em Nova Iorque deixar 130 trabalhadoras mortas, e cinco anos depois de mulheres russas se levantarem contra a fome, às más condições de trabalho, e à guerra, num protesto conhecido como “Pão e Paz”.

Nessa época, no entanto, o movimento feminista não tinha tanta força pelo mundo. Na maioria dos países, as mulheres ainda não podiam votar (inclusive no Brasil!). Somente em 1945 a Organização das Nações Unidas reconheceu a equidade de gênero como pauta, defendendo o sufrágio universal.

Para Mariana Bastos, uma das articuladoras da greve no Brasil, o dia internacional da mulher se impõe quase como um dilema. “Nós somos metade da população mundial e eu acho no mínimo estranho o fato de que todas as nossas demandas estejam concentradas em um único dia do ano, quando a gente deveria dar importância para nossas reivindicações por equidade de gênero todo dia. Mesmo assim, não deixo de acreditar na importância da data.”

Ainda segundo Mariana, o dia 8 de março será um marco na retomada das alianças nacionais de mulheres, em meio a um contexto de conservadorismo crescente.