Sustentabilidade a bola da vez


Estou no Rio de Janeiro. Por todos os lados que me viro a palavra SUSTENTABILIDADE surge, do céu, no mar, em grande telões luminosos, comerciais, televisão, na boca do povo. Desenvolvimento sustentável por aqui é a pauta e a bola da vez.

Será que todo mundo decidiu virar ambientalista de uma hora para outra? Ou virou moda?

Acompanhando diversas rodas de conversas com jovens, que estão em diferentes lugares no Brasil fazendo seu trabalho de formiguinha na sua escola e comunidade, ouvi diversos questionamentos: Será que é possível discutir sustentabilidade no sistema capitalista que a gente vive? É possível trabalhar a temática meio ambiente nas escolas sem discutir reforma agrária? Existe a possibilidade de discutir crescimento econômico sem olhar para os grandes desequilíbrios ambientais, a miséria crescente?

Encontro-me entre dilemas. No geral, todos dizem sobre as escolhas que fazemos, desde o que decidimos comer, até onde decidimos estar. Mas será que decidimos mesmo? Ou outros decidem por nós? Medo! Ontem fui com amigos fazer a credencial na programação oficial do grande evento Rio+20. Banner e estandes por todos os lados, de grandes empresas, estados e países apresentando suas contribuições nas questões ambientais. A nossa surpresa foi encontrar estande da Vale do Rio Doce e  saber que ela é uma das apoiadoras da Rio+20, motivo que impediu a participação dos povos moçambicano na conferência da ONU, pois um dos objetivos da delegação do país  era denunciar o agir da Vale em seu país.

A Vale é também a mineradora campeã em multas do Ibama, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente. Desde a privatização, levou 56 autos de infração, no valor de 37 milhões de reais. A mineradora não reconhece a maioria deles. Defende-se com recursos ao órgão e a outras instâncias do ministério do Meio Ambiente. No ano passado, as multas chegaram a 2,9 milhões de reais. Apenas 217 mil foram pagos.
Provocadora de incêndios em áreas de preservação ambiental, de destruir florestas e de manter em funcionamento serviços potencialmente poluidores.

Entre 1979 e 1989, por exemplo, no período anterior à privatização, a Mineração Rio do Norte, ligada à Vale, provocou um dos maiores desastres ambientais da Amazônia: despejou 24 milhões de toneladas de rejeitos da lavagem de bauxita no lago Batata, no Pará. Não houve multa, nem ação do Ministério Público, sem falar do número de demissões em meio à crise econômica: 12.000 trabalhadores diretos e terceirizados.

Ficamos chocados, mas isso faz parte do modismo.

Volto para o encontro Juventude e Educação para a Sustentabilidade Socioambiental, onde se discute o reconhecimento, a importância, o engajamento político, a participação dos (as) jovens. Reencontro amigos militantes de uma década. Apesar da pouca idade, questiono-me, qual poder realmente temos na história? Parece frustrante todo esse tempo que passamos construindo milhões de documentos que não são colocados realmente em prática. Como diz  o amigo, Evandro Sena, “a juventude está ficando velha, de cabelo branco de tanto discutir” e acrescento mais: ficando velha de tanto brigar para ser colocado em prática modelos alternativos de sociedade. Vejo a juventude do campo, pequenos agricultores que se articulam em torno de uma ideia de produção agroecológico, e para o reconhecimento de um modelo de educação que funciona com o tempo deles: a pedagogia da alternância. Essa galera revê seus problemas e cria alternativas que não são reconhecidas pelo governo.

Lembro da Luciana Phebo, da equipe do UNICEF no Brasil, que disse que “O jovem ainda acredita na mudança. Ele é generoso com o mundo. Isso é fundamental para contaminar nos outros segmentos da sociedade”. Mas, sinceramente, já estamos ficando cansados e frustrados. Estou buscando o que realmente é valido fazer para que a mudança aconteça de fato.

Será que estamos nos lugares errados? Se alguém souber dos espaços que devemos estar para realmente intervir nas decisões da construção de uma sociedade humana mais igualitária, justa, que aposte e viva de forma mais cuidadosa, a juventude será grata, porque estamos cansados de blá blá blá.

 

Por Elisangela Cordeiro

Elisangela N. Cordeiro

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