SONHO? INDISPONÍVEL

Por Ana Beatriz Sales

‘Os meus colegas e eu, antes absortos nas aulas, agora nos preocupávamos em copiar a lousa e o que os professores diziam. Não importava muito saber o uso daquilo, desde que decorássemos o suficiente para cuspir na prova ao final do trimestre. Queria florear, mas o sonho morreu.

“O que quer ser quando crescer?” – perguntava naquele tempo, curiosa, a professora da primeira (ou quem sabe segunda) série.

Lembra? Respostas vinham aos montes. Entretanto, conforme a criança cresce, isso muda. Ninguém pergunta;  se pergunta, quer ouvir respostas seletas. Com isso, cresce o silêncio opressor, não só na sala de aula, mas principalmente na mente que está se formando. O sonho se desfaz – e é aí que mora um dos grandes problemas da educação atual.

Eu, por exemplo, sempre fui uma criança muito curiosa. Tinha sede de aprender os “porquês” que permeiam a vida, e achei chique quando comecei a frequentar a escola de “gente grande” (aí vem a história de tudo ser relativo: tratava-se da escola do fundamental), pois com certeza teriam mais respostas ou mais subsequentes perguntas.

Eu estudava por prazer – porque tudo era muito interessante, muito novo, e eu sentia que ainda precisava conhecer muito sobre o mundo. Eu estudava o tradicional, claro, mas estudava também meus sonhos, porque era incentivada.

Primeiro, de ser princesa (e podem imaginar que a pesquisa foi total contra o que eu esperava). Segundo, de ser veterinária (não eram só bichinhos pequenos?). Terceiro, de ser estilista (o que certamente envolveu muita cola quente e pedaços de roupas velhas). E de fato essa foi minha animação para a escola e o além dela no primeiro, segundo e terceiro dia. Até na segunda série, bem provavelmente.

No entanto, é aí que começa o meu processo de desonhificação. Logo, aprendi sobre notas – melhor ainda, sobre provas – que tinham nelas o poder de dizer o quão inteligente um aluno era. Aprendi que, com as notas certas, um dia seríamos médicos, advogados, engenheiros. E só – pois as profissões disponíveis terminavam mais ou menos por aí. Quem sabe um professor ou outro adicionava no mix ‘dentista’.

E curiosidade? Bah! Quem precisa dela? Lembro-me claramente de uma professora de ciências me responder que “a curiosidade matou o gato”.

Os meus colegas e eu, antes absortos nas aulas, agora nos preocupávamos em copiar a lousa e o que os professores diziam. Não importava muito saber o uso daquilo, desde que decorássemos o suficiente para cuspir na prova ao final do trimestre.

 E o sonho? Gostaria de poder dizer algo bonito, gostaria de florear: mas morreu.

Alguns surrupiaram ideias da Santíssima Trindade de carreiras e travestiram alguma qualquer de sonho próprio. Outros – temo que a maioria – apenas abandonaram o ato de sonhar (e diz a lenda que muitos nunca voltaram a praticá-lo).

Pulando alguns (vários) anos, encarando o fim do segundo ano do Ensino Médio e a totalidade do terceiro, a escola volta (subitamente, pá!) a cobrar sonhos de nós.

Talvez, mais irônico ainda: a escola se surpreende quando toda aquela multidão, que há muito teve de se encaixar em pequenos padrões, não faz ideia do que gosta, do que faz o olho brilhar ou do que possivelmente cursaria. Sem essa dose (necessária) de autoconhecimento, a qual é raramente obtida apenas frequentando as aulas curriculares, o jovem se vê perdido. Mesmo que escolha algo, escolhe por escolher (afinal, todo mundo escolhe, né?). Muitas vezes, chega arrependido na faculdade; mesmo formando-se, quase nunca realmente considerará que tem sucesso.

Porém, não adianta falar apenas da mentalidade escolar quando tratamos de cultivar sonhos. Não num país em que só 31,4% das escolas de Ensino Fundamental possuem quadras de esportes, só 3,6% possuem laboratórios (dados do Censo Escolar Inep 2019).

As oportunidades de se conhecer e explorar suas habilidades, nesse cenário, são extremamente reduzidas. Portanto, a questão é, inclusive, que não há espaço para sonhar.

Sonhos não precisam ser astronômicos – sonhos são objetivos que guiam nossas ações. Para de fato atuarmos sobre a sociedade da maneira que desejamos, é fundamental tê-los. Compartilho das palavras de Eduardo Galeano, escritor uruguaio, sobre a finalidade das utopias:

A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia? Serve para isso:
Para que eu não deixe de caminhar.

Eduardo Galeano

Utopias são como sonhos – menos factíveis, contudo, igualmente máquinas que nos movem ao longo da vida.

E tanto o atual sistema educacional quanto a falta de infraestrutura (leia-se falta de investimento estatal) contribuem ativamente para que isso não aconteça, para que o sonho – o jovem – se perca num espaço-tempo da primeira série (ou talvez antes disso). Sonhar hoje não é só privilégio – é uma marca de luta.

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1 Comentário

  • Viva os jovens pensadores.

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